Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 96
Novembro de 2006
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Ritos de morte

Alceu Maynard Araújo

Em São Luiz do Paraitinga, o senhor Benedito de Souza Pinto, oficial de justiça há 33 anos, é o capelão [1] mais procurado. A fim de que realizássemos a nossa pesquisa, convidou-nos para assistir um enterro. Durante o percurso que fizemos, cerca de légua e meia em sua companhia, contou-nos que antigamente era costume no lugar vestir os defuntos com o hábito de São Francisco. Por isso, em qualquer loja essa vestimenta era encontrada à venda. Sempre preferiram a fazenda "metim" para os hábitos. Hoje, somente os irmãos da Ordem Terceira têm esse privilégio. Os demais fazem mortalha.

Não sendo repentina a morte, e pressentindo o moribundo sua chegada, pede a um de seus familiares que chame determinado capelão, seu amigo, para ajudá-lo a morrer.

Nessa ocasião, havia morrido num bairro próximo, o chefe de uma família. Era um sitiante de algum recurso. As janelas da casa estavam abertas. "Quando uma pessoa morre, abrem-se todas as portas e janelas, só as fechando após o enterro".

Quando se percebe que o doente está agonizando, colocam-lhe uma vela acesa na mão e rezam o Ofício da Agonia e a Ladainha de Todos os Santos. Depois que morre, rezam o De profundis e o Senhor amado.

O Senhor amado é uma reza cantada; costuma cantá-la "repartida". Repartir uma reza significa que o capelão e o ajudante cantarão um trecho a duas vozes e, os demais presentes, mulheres e homens, outro a duas ou três vezes, alternando.

Na roça, logo que uma pessoa morre vem um "próprio" até a cidade buscar a mortalha. É o primeiro a sair. Logo a seguir, sai um segundo para cuidar do enterro, atestado de óbito etc. Sai ainda, uma terceira pessoa para avisar do falecimento até à distância que puder, convidando as pessoas para o enterro — subentendendo-se que também estão convidadas para o velório. São sempre três pessoas escolhidas para estes misteres. "Precisa ser três pessoas e não mais".

Excepcionalmente, sai uma quarta pessoa, quando o falecido não tem recursos e em casa não há uma rede. Essa pessoa sai para tomá-la emprestada, ficando responsável pela sua devolução.

Processa-se a seguir a lavagem do cadáver. Colocam-no na água com creolina ou pinga, conforme a doença. Às vezes, para a lavagem do defunto, precisam chamar alguém, um amigo ou parente do falecido; "quando eu morrer, quero que você venha me lavar", e esperam por essa pessoa até chegar, a fim de que se cumpra o pedido.

Vestem o defunto, amarram o queixo com um lenço e nos pés uma faixa. "Não presta enterrar defunto amarrado"; por isso quando vão colocá-lo na rede retiram todas as ataduras.

São correntes as seguintes crendices: "quando o defunto está mole durante muito tempo, é porque logo outra pessoa da família vai morrer", e "quando o defunto está duro, deve-se pedir-lhe que amoleça, e assim poderão vesti-lo". Falam com o defunto: "amoleça o braço", tal qual estivessem falando com um vivo. Quando fazem mortalha, demoram um pouco para vestir. Uma vez vestido, cobrem-no com um lençol e depois de colocá-lo na cama ou esteira com quatro velas em redor, rezam o Ofício de São Gregório. Ao lado da cama fazem um pequeno altar. Uma toalha branca sobre um caixão, um crucifixo e uma imagem. Às vezes, colocam os santos da devoção do falecido. Neste funeral, observamos a imagem de Nossa Senhora Aparecida e duas velas no altar.

As velas são acesas só depois que trazem a mortalha, e a reza somente tem início após terem colocado o corpo na sala, na esteira ou cama. Cantam todas as rezas conhecidas: são as "Excelências", isto é, doze vezes a mesma coisa.

O capelão canta:

Vamo cantá uma incelência
Do meu São Francisco
Que lhe dê seu passaporte
Nossa Mãe Maria Santíssima

E o coro responde:

Passaporte eu já tenho
Falta só absolvição
Pra esta alma subir pra glória
Com a Virgem da Conceição

De novo o capelão canta:

Duas incelência
Do meu São Francisco etc.

Alternando, coro e capelão, até cantar as doze excelências "porque são doze apóstolos".

Durante a noite cantam o tempo todo. Formam dois grupos de pessoas que se revezam; enquanto um canta, outro descansa e come. Á noite, oferecem café e comida aos presentes, uma pinguinha para afinar a voz.

Noutro grupo que revezou o capelão cantou:

Uma incelência
Da Senhora do Rosário
Que lhe deu manto
Está lá no sacrário

E o coro respondeu:

Sacrário tá aberto
Saiu o Senhor fora
Acompanhe esta alma
Que vai para a glória

Cantam as doze excelências. Outro canto recolhido:

São Pedro nos abre a porta
Pra este corpo entrar
Pra fazer sua grandeza
Pra sua Pátria saudar

Os amigos, vizinhos e parentes que chegam para o velório, procuram prestar a derradeira homenagem ao morto com suas rezas. Foi anotada esta incelência da Senhora da Agonia:

O capelão canta:

Vamos cantar uma incelência
Da Senhora da Agonia
Os anjos lá no céu
Estão cantando de alegria

Os guardadores, ajoelhados, cantam em coro, repetindo doze vezes, até que o capelão tenha cantado todas as excelências:

As almas santas benditas
Lá no céu estão esperando
As doze incelências
Que estamos rezando

Joaquim Honório, curandeiro e capelão respeitado, que ajudou no velório, "puxa a reza de São José":

Eu queria ser devoto
De meu glorioso São José
Na hora de minha morte
Dou no demônio com o pé

O coro:

O meu corpo faz pecado
Minh'alma que culpa tem
Minh'alma vai para o céu
Se meu corpo castigou bem

O defunto fica exposto a noite toda. Ao amanhecer, colocam-no na rede. Para tal, vão ao mato e cortam uma vara de tacuruçu e amarram a rede embira. "Se  defunto estiver muito pesado, deve-se surrá-lo com uma vara, para ficar mais leve".

Ao clarear do dia, cantam como despedida do morto à família, e neste canto tomam parte todos os presentes. Quando cantam, cada canto é dedicado a um dos familiares, esposa, filhos e demais parentes.

O capelão canta:

Vem a barra do dia
Vem a Virgem Maria
Vem o anjo Atanásio (era o nome do defunto)
Para a sua companhia

Os demais presentes respondem este canto, citando o parente que se despede. A primeira pessoa foi a esposa. Cantaram:

Despeça de sua esposa
Até o dia do Juízo
Para te encontrar
Na porta do Paraíso

O decujo tinha ainda pai e o segundo verso foi respondido assim:

Despeça de seu pai
Até o dia do Juízo etc.

Continuam despedindo-se dos filhos, noras, genros e netos.

Não se deve enterrar com ouro. Tiraram, então, a dentadura do defunto porque tinha ouro. Uma pessoa foi ao fogão, colocou o cabo de uma colher no fogo, para que a dentadura saísse logo. "Quando avermelhar o cabo, a dentadura sai na mão de quem estiver tentando tirá-la".

A distância a ser percorrida é grande, por isso, aos que deveriam levar o corpo, foi oferecido um almoço reforçado, às 6:30 da manhã.

Na hora da saída, rezam a Bendita Eucaristia. Dizem que é "a reza mais forte que existe".

Feita a despedida, entre beijos e choros, o corpo sai. Uma pessoa varre a casa e atira o cisco bem longe, resto de flores, de poucas flores que enfeitaram o morto. As mulheres ficam cantando até o enterro desaparecer de vista na curva da estrada.

A rede é carregada por duas pessoas, que andam em marcha quase acelerada, fazendo um movimento com o corpo ao qual dão o nome de "galeio"; movimento que dizem eles ajudar a diminuir o peso.

De tempos em tempos, revezam os carregadores; estes tiram os chapéus quando colocam o varal da rede no ombro. O que vai na frente coloca-o no ombro esquerdo e o que vai atrás, no ombro direito, facilitando, assim, o "galeio do corpo". Os pés do defunto estão colocados para a frente. "Os que saíram de casa devem também entrar com ele no cemitério", é uma praxe que fazem questão de observar.

No trajeto, vão rezando, às vezes, a novena das almas. Antes de seguir para o cemitério passam pela igreja a fim de fazer a recomendação de "corpo presente". Ao chegar ao cemitério, rezam o Senhor amado, tiram o corpo da rede, o encarregado fica com ela, lançam envolto num lençol os restos mortais do senhor Atanásio. Cada um dos presentes apanha um punhado de terra e atira dentro da cova dizendo: "a terra lhe seja leve". Mesmo que estejam cansados, são eles que enchem a cova de terra. Bebem um pouco de pinga, como preventivo. Saindo do cemitério reúnem-se numa venda ou na casa de um parente do morto que more na cidade e todos bebem um "bom trago de pinga, pra rebater qualquer outro mal"; não fazem isso com o intuito de embriagar-se. A seguir, um bom café e voltam para a roça.

Quando morre uma pessoa, toca o sino da igreja matriz. Se é um "anjinho" que vem para a recomendação, é um toque festivo; se é adulto, dobra a finados. Se é homem, começa o sino grande, de som grave, e, se mulher, é o pequeno de som agudo que toca; porém, tanto para um como para outro, os dois sinos finalizam tocando, simultaneamente, numa só pancada.

Na casa onde faleceu a pessoa, fazem uma novena que é feita à noite e dirigida por um capelão. Aos participantes oferecem um café. Se o casal era novo e a viúva tiver que voltar para a casa dos pais, ela espera até terminar a novena. Para a novena faz-se um altar e reza-se um versículo por dia.

* * *

Quando é criança que morre fazem guarda, mas não é costume rezar, às vezes cantam:

Uma barquinha de ouro
Um rosário de cordão
Seu filho chora no peito
Sua mãe no coração

Cantam até doze barquinhas. Pode-se botar nisto a influência das doze excelências.

 

1. Capelão é o dirigente de uma reza de roça. Há muitos capelães. São homens que se especializaram em dirigir rezas, quer ofícios fúnebres ou em rezas de dias festivos. É conhecedor de um grande número de orações e, geralmente, é o curandeiro, o benzedor. Suas rezas curam certas doenças, quebranto, mau-olhado, dor de dentes, erisipela, picada de cobra, caxumba etc. Quando uma senhora se especializa em dirigir rezas e curar, chamam-na benzedeira. A benzedeira, além das curas que pratica com suas rezas, é a prática, isto é, a parteira. Assiste a todas as parturientes da região e faz a família observar todas as proibições e tabus por ela conhecidos e relacionados com o parto. Tanto o capelão como a benzedeira são os que maior número de compadres têm no bairro onde residem.

 

(Araújo, Alceu Maynard. "Ritos de morte". Correio Paulistano. São Paulo, 17 de abril de 1949)
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