Ainda pode ser encontrada dentro da noite alguma casinha de palha com danças e cânticos no terreiro. Mas se trata de festa em torno de gente que morreu. O defunto está estendido por ali, esperando a hora de ser enterrado. É assim. Logo que se constata haver o campanha morrido mesmo, pega-se o cadáver e duas ou três pessoas (são tidos como os privilegiados, os mais amigos, aqueles que não faltaram no último instante) se encarregam de banhá-lo da cabeça aos pés, desde que a tradição ordena: "o finado não pode entrar sujo no outro mundo". E depois dessa operação triste lá vem a bebedeira coletiva. Todos se embriagam em homenagem ao companheiro que desapareceu dentre os vivos. Não se faz distinção: o costume atinge tanto à mulher como ao homem.
Ouve-se a cantoria mais desenfreada. Porém é a letra de samba que vem predominando ultimamente. Também do coco. Quem estiver de parte, olhando, não tem a menor desconfiança da existência de algum morto no salão — e muito menos que se esteja comemorando as "suas qualidades" reveladas quando tinha vida material. Por sua vez, a dança é alegre e rumorosa, juntando sereno com pessoas das redondezas que conheceram o defunto, não tinham dele nada que dizer de mau, até achavam ser "boa criatura que ia fazer muita falta à família".
Essa dança macabra entra pela madrugada e somente acaba no instante em que o cadáver é posto dentro da rede e levado com acompanhamento ao cemitério mais próximo. Se for rede branca, foi morte natural; se for rede encarnada, foi morte de faca ou foice.
Todo o singular espetáculo se desenrola em torno dos despojos. A música vem das originais orquestras do mato: cuíca, tambor e pandeiro. Instrumentos de corda e de sopro não são comuns, antes são muito raros.
A homenagem deve ter sentido. E qual será ele? Investigando aqui e ali, chega-se à conclusão de que não existe outra finalidade naquela barulheira toda, coisa mais de carnaval ou de festa de São João ou de fim de ano — Natal ou Santos Reis: "o defunto precisa ser feliz na outra vida". Ou, como desejam: "entrar lá com o pé direito". A impressão generalizada é de que há "outro mundo além deste" — e com inferno, purgatório e céu. Portanto, há imperiosa necessidade de preparar o freguês, a fim de que vá parar não no inferno, quando muito no purgatório e, se possível, no céu como o lugar de maior sedução para quantos têm a ventura de viver com a fé posta na religião.
As danças e cantorias em torno do cadáver não passam de ardentes augúrios de felicidade na hora da despedida definitiva.