Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 96
Novembro de 2006
Artigos deste mês em
Oficina
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Vassoura, por Maria Rita da Silva Lubatti



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Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Vassoura

Maria Rita da Silva Lubatti

A venda de vassoura é feita em geral por desempregados e aposentados, por homens cegos ou que passam por cegos para vender.

No século XIX, os vassoureiros eram originários de Portugal, hoje vêm praticamente de todas as regiões do Brasil. há, no entanto, descendentes de espanhóis e de italianos. Essa atividade vem sendo desenvolvida há mais de um século no Brasil, por indivíduos de sexo masculino. Por volta de 1860, época que provavelmente teve início a atividade, os vassoureiros eram empregados de fábricas, raramente trabalhavam por conta própria. Hoje, o vendedor ambulante de vassoura, rodo e espanador de pó, trabalha por conta própria; a grande maioria faz dessa atividade um bico, isto é, trabalho extra.

A venda de vassoura difere das demais vendas feitas pelas ruas e de porta em porta, porque o vassoureiro não precisa apregoar o produto, mas transportá-lo e exibi-lo de maneira visível, pois os artigos não tem substitutos similares. O transporte é feito de maneira simpática e criativa, às costas, nos ombros e braços. Os vendedores carregam sempre um feixe de vassouras na mão direita: ele é usado à guisa de mostruário e de bastão, pois servem de apoio nas paradas diante das casas ou pela rua, para descansar.

Segundo informam alguns vendedores, o motivo que os leva a usar o próprio corpo, para transportar e expor a mercadoria é facilitar a venda, atrair compradores e principalmente não serem confundidos com assaltantes, quando batem à porta das residências.

O vassoureiro José Antonio Nunes, que vende pelas ruas de São Paulo há dezoito anos explica: "Para vender esse artigo, precisa ser esperto, pois as mulheres estão com um medo desesperado de abrir a porta, por causa de ladrão, Por isso quando ele pára diante de uma casa, esparrama bem a sua mercadoria e vai logo dizendo: "Vendedor de vassoura, madame. Tenho vassoura espanador, rodo etc. Mesmo assim, agora não é fácil vender mercadoria de porta em porta, porque além do medo das mulheres às vezes, é preciso vender um pouquinho mais caro que os supermercados, para compensar dias fracos em vendas. Mas, para o sujeito vender alguma coisa tem que ser educado e nunca confiado, pois ele trata tanto com empregadas domésticas como com donas-de-casa. É necessário tratá-las de maneira idêntica, para fechar negócio e também porque são elas que garantem o pão de nossos filhos. Muitas vezes, o coitado do vendedor simpatiza com uma danada de uma empregada jeitosa, mas ele não pode demonstrar tal interesse pela criatura, para não atrapalhar o negócio. Percebe como é difícil a nossa vida? Eu graças a Deus, tenho um trabalho fixo e esse é para garantir mais comida, remédio e roupa para as crianças, mas há coitado que vive só disso".

Freguês

Os compradores de vassoura são homens e mulheres, proprietários de bar, padaria, açougue, restaurante e donas de casa em geral. Todavia, os fregueses fidedignos dos vassoureiros são empregadas doméstica, donas-de-casa da classe média e proprietários de bares dos bairros periféricos de São Paulo e do centro da cidade.

José Nunes vende vassouras em bairros residenciais ricos, populares e em favelas. Confessa gostar mais de vender nos bairros populares, porque nesses locais é recebido com simpatia, as pessoas compram mais e costumam fazer encomenda. Gosta ainda de vender para zeladores de prédios e para pessoas que circulam de carro pelas ruas e avenidas de grande movimento.

Em suma, os compradores são gente de ambos os sexos e pertencentes a todas as camadas sócio-econômicas. Os menos abastados compram com freqüência, e os ricos ocasionalmente.

Técnica de venda

Vendedores de vassouras perambulam pelas ruas, indo de porta em porta oferecer seu produtos. A técnica de abordar e oferecer a mercadoria é ingênua e singela. No entanto, dá bom resultado, tanto é que centenas de pais de família tiram o alimento dos filhos desse trabalho.

As técnicas de vender aplicadas pelos vassoureiros são muitas, mas as mais relevantes são duas. A primeira refere-se a dois indivíduos que se apresentam nas casas com vassouras, espanador e escova. Um é o cego ou faz papel de cego e o outro acompanhante. O cego posta-se diante da porta e toca a campainha de modo que quem abrir sinta a sua presença e não a feche, mas indague o que deseja. O vendedor oferece a mercadoria. Enquanto o cego conversa com o possível freguês, o acompanhante exibe o acervo, fornece preços e ilustra as qualidades dos produtos. Realizada a venda, recebido o dinheiro, os dois vendedores retiram-se agradecendo e dizendo: "Deus lhe pague e dê muita saúde e sorte a senhora e a toda a sua família, por ter ajudado um pobre cego".

Não há dúvida que haja, dentre os vendedores de vassoura, cegos e portadores de outros defeitos físicos, mas é certo que há homens sadios fingindo serem cegos, para conseguir vender determinados produtos. Tal fato foi constatado, após conversas com muitos vassoureiros, após segui-los pelas ruas e observá-los durante cinco anos. Muitas vezes, a autora os seguiu a distância, para ver como abordavam, ofereciam e dirigiam-se aos compradores e para ouvir a conversa deles, antes e depois de realizada a venda. Notou, entretanto, que alguns vendedores de vassouras apresentavam dificuldade em caminhar e outros, logo que deixavam a casa onde haviam efetuada ou procurado efetuar uma venda, tiravam os óculos escuros e começavam a gracejar e rir. Outros ainda encontravam facilmente a campainha das casas e caminhavam pelas ruas com muito desembaraço.

Em suma, os vendedores de vassoura, como os demais homens que fazem desse tipo de trabalho um meio de ganhar a vida, precisam utilizar meios artificiosos para vender.

Uma outra técnica muito praticada por esse tipo de vendedor ambulante consiste em ir de bar em bar, restaurante etc., oferecer a sua mercadoria. Esta é sempre transportada às costas, quer ele a venda nas casas comerciais, quer nas residenciais.

Segundo José Antonio Nunes, vender esse tipo de mercadoria hoje, "não é difícil, também não é fácil", porque é um artigo durável e a única vantagem que pode oferecer aos fregueses é o de entregar o produto em casa no ato da compra.

 

(Lubatti, Maria Rita da Silva. Vendedor ambulante, profissão folclórica. São Paulo, 1982)
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