No século XIX, os vassoureiros eram originários de Portugal, hoje vêm praticamente de todas as regiões do Brasil. há, no entanto, descendentes de espanhóis e de italianos. Essa atividade vem sendo desenvolvida há mais de um século no Brasil, por indivíduos de sexo masculino. Por volta de 1860, época que provavelmente teve início a atividade, os vassoureiros eram empregados de fábricas, raramente trabalhavam por conta própria. Hoje, o vendedor ambulante de vassoura, rodo e espanador de pó, trabalha por conta própria; a grande maioria faz dessa atividade um bico, isto é, trabalho extra.
A venda de vassoura difere das demais vendas feitas pelas ruas e de porta em porta, porque o vassoureiro não precisa apregoar o produto, mas transportá-lo e exibi-lo de maneira visível, pois os artigos não tem substitutos similares. O transporte é feito de maneira simpática e criativa, às costas, nos ombros e braços. Os vendedores carregam sempre um feixe de vassouras na mão direita: ele é usado à guisa de mostruário e de bastão, pois servem de apoio nas paradas diante das casas ou pela rua, para descansar.
Segundo informam alguns vendedores, o motivo que os leva a usar o próprio corpo, para transportar e expor a mercadoria é facilitar a venda, atrair compradores e principalmente não serem confundidos com assaltantes, quando batem à porta das residências.
O vassoureiro José Antonio Nunes, que vende pelas ruas de São Paulo há dezoito anos explica: "Para vender esse artigo, precisa ser esperto, pois as mulheres estão com um medo desesperado de abrir a porta, por causa de ladrão, Por isso quando ele pára diante de uma casa, esparrama bem a sua mercadoria e vai logo dizendo: "Vendedor de vassoura, madame. Tenho vassoura espanador, rodo etc. Mesmo assim, agora não é fácil vender mercadoria de porta em porta, porque além do medo das mulheres às vezes, é preciso vender um pouquinho mais caro que os supermercados, para compensar dias fracos em vendas. Mas, para o sujeito vender alguma coisa tem que ser educado e nunca confiado, pois ele trata tanto com empregadas domésticas como com donas-de-casa. É necessário tratá-las de maneira idêntica, para fechar negócio e também porque são elas que garantem o pão de nossos filhos. Muitas vezes, o coitado do vendedor simpatiza com uma danada de uma empregada jeitosa, mas ele não pode demonstrar tal interesse pela criatura, para não atrapalhar o negócio. Percebe como é difícil a nossa vida? Eu graças a Deus, tenho um trabalho fixo e esse é para garantir mais comida, remédio e roupa para as crianças, mas há coitado que vive só disso".
Freguês
Os compradores de vassoura são homens e mulheres, proprietários de bar, padaria, açougue, restaurante e donas de casa em geral. Todavia, os fregueses fidedignos dos vassoureiros são empregadas doméstica, donas-de-casa da classe média e proprietários de bares dos bairros periféricos de São Paulo e do centro da cidade.
José Nunes vende vassouras em bairros residenciais ricos, populares e em favelas. Confessa gostar mais de vender nos bairros populares, porque nesses locais é recebido com simpatia, as pessoas compram mais e costumam fazer encomenda. Gosta ainda de vender para zeladores de prédios e para pessoas que circulam de carro pelas ruas e avenidas de grande movimento.
Em suma, os compradores são gente de ambos os sexos e pertencentes a todas as camadas sócio-econômicas. Os menos abastados compram com freqüência, e os ricos ocasionalmente.
Técnica de venda
Vendedores de vassouras perambulam pelas ruas, indo de porta em porta oferecer seu produtos. A técnica de abordar e oferecer a mercadoria é ingênua e singela. No entanto, dá bom resultado, tanto é que centenas de pais de família tiram o alimento dos filhos desse trabalho.
As técnicas de vender aplicadas pelos vassoureiros são muitas, mas as mais relevantes são duas. A primeira refere-se a dois indivíduos que se apresentam nas casas com vassouras, espanador e escova. Um é o cego ou faz papel de cego e o outro acompanhante. O cego posta-se diante da porta e toca a campainha de modo que quem abrir sinta a sua presença e não a feche, mas indague o que deseja. O vendedor oferece a mercadoria. Enquanto o cego conversa com o possível freguês, o acompanhante exibe o acervo, fornece preços e ilustra as qualidades dos produtos. Realizada a venda, recebido o dinheiro, os dois vendedores retiram-se agradecendo e dizendo: "Deus lhe pague e dê muita saúde e sorte a senhora e a toda a sua família, por ter ajudado um pobre cego".
Não há dúvida que haja, dentre os vendedores de vassoura, cegos e portadores de outros defeitos físicos, mas é certo que há homens sadios fingindo serem cegos, para conseguir vender determinados produtos. Tal fato foi constatado, após conversas com muitos vassoureiros, após segui-los pelas ruas e observá-los durante cinco anos. Muitas vezes, a autora os seguiu a distância, para ver como abordavam, ofereciam e dirigiam-se aos compradores e para ouvir a conversa deles, antes e depois de realizada a venda. Notou, entretanto, que alguns vendedores de vassouras apresentavam dificuldade em caminhar e outros, logo que deixavam a casa onde haviam efetuada ou procurado efetuar uma venda, tiravam os óculos escuros e começavam a gracejar e rir. Outros ainda encontravam facilmente a campainha das casas e caminhavam pelas ruas com muito desembaraço.
Em suma, os vendedores de vassoura, como os demais homens que fazem desse tipo de trabalho um meio de ganhar a vida, precisam utilizar meios artificiosos para vender.
Uma outra técnica muito praticada por esse tipo de vendedor ambulante consiste em ir de bar em bar, restaurante etc., oferecer a sua mercadoria. Esta é sempre transportada às costas, quer ele a venda nas casas comerciais, quer nas residenciais.
Segundo José Antonio Nunes, vender esse tipo de mercadoria hoje, "não é difícil, também não é fácil", porque é um artigo durável e a única vantagem que pode oferecer aos fregueses é o de entregar o produto em casa no ato da compra.