Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Novembro 2006 - Ano IX - nº 96


Sumário

Festança
A zabumba
Valdemar Valente

Congadas de Santa Isabel
Ruth Guimarães

Danças, festas e instrumentos musicais de origem bantu
Artur Ramos

Cancioneiro
História do bicho sete-cabeças
Minelvino Francisco Silva

Saci
Joaquim Queiroz Filho

O treno do beija-flor

Imaginário
Como a lua chegou ao céu

Quirino, vaqueiro do rei

O preguiçoso
Carmen Dolores

Colher de Pau
Memória e queijo
Guilherme Santos Neves

Tradições cuiabanas: O guaraná
Rubens de Mendonça

Versos de brindes
Afonso Cláudio

Oficina
Vendedores ambulantes
Jorge Americano

Tinturaria
Saul Martins

Vassoura
Maria Rita da Silva Lubatti

Palhoça
Cantando e dançando
Ademar Vidal

Ritos de morte
Alceu Maynard Araújo

O culto aos mortos
Adelino Brandão

Panacéia
Defuntos e almas do outro mundo
F. A. Pereira da Costa

Medicina popular
José Maria Tenório Rocha

Ontem, hoje e amanhã
Mário Melo

Veja o que foi publicado em Oficina
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Oficina
Textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Tinturaria

Saul Martins

Nem seria fácil empregar na roça os modernos processos de coloração de panos, considerando-se naturalmente a complexidade da manipulação dos chamados corantes ou tintóis, o elevado preço aquisitivo, e, de modo particular, a distância muitas vezes grande que medeia entre o consumidor sertanejo e os negociantes que exploram o comércio de produtos dessa natureza. Vai daí utilizarem-se os barranqueiros de meios próprios para dar cor a seus tecidos e meadas, ou mudar-lhes a tonalidade. Valem-se aqui dos recursos que lhes proporciona a terra, retirando de frutos silvestres, de folhas, cascas ou raízes de certos vegetais a tinta para embelezar suas coisas.

Quando perdem um membro da família o luto se impõe, inexorável, a partir do sétimo dia após o desenlace. Por morte do pai ou mãe põem luto um ano, sendo fechado durante os nove primeiros meses, e aberto os três meses subseqüentes. Netos se vestem de preto seis meses por avô falecido. Perdendo o cônjuge, põe o companheiro luto fechado durante um ano e aberto enquanto durar o estado de viuvez. Entre as mulheres o luto compreende estampados escuros, ou combinaçõs muito sérias do branco, preto, azul e roxo. Para os homens ele se constitui duma fita preta no chapéu e de um tampo retangular da mesma cor, chamado frente, abotoado ou acolchetado à camisa, na parte não coberta pelo casaco.

Passado o transe, pois, cuidam as mulheres de empretecer a rouparia. E o fazem, após ferverem os panos numa infusão de cascas ou folhas de muçambé, ou de piúna, na lama dos pântanos, onde o capim canudo vegeta. Neste elemento devem permanecer as peças submersas vinte e quatro horas, pelo menos. Depois, da lama tiram as roupas, lavam-nas, em água corrente enxaguam-nas e, sem torcer, estendem-nas à sombra para secar.

Menos preferidas que as duas outras infusões, também empregam, vez por outra, cozimentos de pacari, braúna, cabelo-negro, bico de papagaio, cachaporra, entrecasco de jenipapeiro e outros mais.

As linhas para urdumes são levadas ao tear, já na cor desejada, em meadas ou troço de fios com aparência do número oito, assim ordenados em um par de moirões fincados no solo a dois metros um do outro. Com fios de cor natural preparam as meadas e nos corantes mergulham-nas em seguida. Tingem-nas de azul com folhas de anil-bravo, também chamado anil do mato. Dão-lhes cor vermelha com o urucu e amarela com o açafrão. Com este e folhas de anil-bravo obtêm o verde. O cozimento do muçambé, marrom, dá a cor pardo-escura em combinação com o pacari. O bico-de-papagaio ou o cabelo negro em mistura com o urucu dá o alaranjado. Deste modo variando-se as infusões obtém-se as mais diversas cores.

(Martins, Saul. "Tinturaria". Artes e ofícios caseiros; separata da Revista do Arquivo Municipal. São Paulo,1959)

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