Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 96
Novembro de 2006
Artigos deste mês em
Oficina
Vendedores ambulantes, por Jorge Americano

Tinturaria, por Saul Martins

Vassoura, por Maria Rita da Silva Lubatti



Veja também

Realejo

Rádio Realejo

Como vovó dizia

No Estradão

Amigos da Jangada
Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Tinturaria

Saul Martins

Nem seria fácil empregar na roça os modernos processos de coloração de panos, considerando-se naturalmente a complexidade da manipulação dos chamados corantes ou tintóis, o elevado preço aquisitivo, e, de modo particular, a distância muitas vezes grande que medeia entre o consumidor sertanejo e os negociantes que exploram o comércio de produtos dessa natureza. Vai daí utilizarem-se os barranqueiros de meios próprios para dar cor a seus tecidos e meadas, ou mudar-lhes a tonalidade. Valem-se aqui dos recursos que lhes proporciona a terra, retirando de frutos silvestres, de folhas, cascas ou raízes de certos vegetais a tinta para embelezar suas coisas.

Quando perdem um membro da família o luto se impõe, inexorável, a partir do sétimo dia após o desenlace. Por morte do pai ou mãe põem luto um ano, sendo fechado durante os nove primeiros meses, e aberto os três meses subseqüentes. Netos se vestem de preto seis meses por avô falecido. Perdendo o cônjuge, põe o companheiro luto fechado durante um ano e aberto enquanto durar o estado de viuvez. Entre as mulheres o luto compreende estampados escuros, ou combinaçõs muito sérias do branco, preto, azul e roxo. Para os homens ele se constitui duma fita preta no chapéu e de um tampo retangular da mesma cor, chamado frente, abotoado ou acolchetado à camisa, na parte não coberta pelo casaco.

Passado o transe, pois, cuidam as mulheres de empretecer a rouparia. E o fazem, após ferverem os panos numa infusão de cascas ou folhas de muçambé, ou de piúna, na lama dos pântanos, onde o capim canudo vegeta. Neste elemento devem permanecer as peças submersas vinte e quatro horas, pelo menos. Depois, da lama tiram as roupas, lavam-nas, em água corrente enxaguam-nas e, sem torcer, estendem-nas à sombra para secar.

Menos preferidas que as duas outras infusões, também empregam, vez por outra, cozimentos de pacari, braúna, cabelo-negro, bico de papagaio, cachaporra, entrecasco de jenipapeiro e outros mais.

As linhas para urdumes são levadas ao tear, já na cor desejada, em meadas ou troço de fios com aparência do número oito, assim ordenados em um par de moirões fincados no solo a dois metros um do outro. Com fios de cor natural preparam as meadas e nos corantes mergulham-nas em seguida. Tingem-nas de azul com folhas de anil-bravo, também chamado anil do mato. Dão-lhes cor vermelha com o urucu e amarela com o açafrão. Com este e folhas de anil-bravo obtêm o verde. O cozimento do muçambé, marrom, dá a cor pardo-escura em combinação com o pacari. O bico-de-papagaio ou o cabelo negro em mistura com o urucu dá o alaranjado. Deste modo variando-se as infusões obtém-se as mais diversas cores.

 

(Martins, Saul. "Tinturaria". Artes e ofícios caseiros; separata da Revista do Arquivo Municipal. São Paulo,1959)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005