Às cinco passou o entregador de jornais. Faz a entrega e a venda avulsa. Esta! Correio! Comércio!
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Às 6 horas da manhã bateu à porta seu José leiteiro. Trazia às costas a lata de leite das vacas do estábulo, um funil e uma colher redonda, para tirá-lo da lata e despejar na garrafa que o freguês trouxesse. Vinham também duas vacas e dois bezerros. Narcisa trouxe de dentro o copo de vidro graduado e o caldeirão. Seu José fez o bezerro chupar a teta da vaca, e se pôs a mondá-lo, jorrando o leite no copo graduado. Encheu um litro no copo, que Narcisa despejou no caldeirão, disse "até amanhã" e foi fazer ferver.
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De repente escuta-se um badalo como de madrinha de tropas. São seis cabras amarradas umas às outras pelo pescoço repuxando-se em todas as direções, uma com campanela pendurada, todas com os ubres cheios, trazidas por um menino.
Em nossa casa não se toma leite de cabra. O rapaz que as conduz pára no vizinho. A criada vem à porta com dois copos. Enche-os e os entrega à patroa que veio à janela. Ela bebe um copo e leva o outro para dentro, para o marido, que deve estar lendo o jornal.
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Vem vindo a carrocinha de verduras, de duas rodas e dois varais empurrados pelo verdureiro. Pára em cada casa, a patroa vem à janela e orienta a criada. Alface, couve, cenoura, abobrinha, cheiro (salsa e cebolinha), tudo por dez tostões.
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A carrocinha do padeiro deixa oitocentos réis de pão.
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Agora o carro do gelo. Deixa cinco quilos, cortados a olho, que a empregada leva à geladeira, que abre por cima para pôr o gelo, e tem a porta pela frente, para guardar o que se quer conservar.
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Agora seu Domingos, com ovos a dez tostões a dúzia e galinhas a dois mil réis.
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O fruteiro, com duas cestas nos braços: banana-maçã, seis por um tostão, banana-ouro, cinco por um tostão, banana-italiana ou nanica, oito por um tostão. Laranjas, 400 réis a dúzia. Maçãs, dez tostões a dúzia, uvas a 1.500 o quilo.
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Salvador peixeiro traz sobre os ombros um pau roliço de cujas pontas pendem dois cestos, a modo dos peixeiros da China: tainha (peixe ordinário), badejo, garoupa, robalo, camarões. Um robalo grande (para o casal e quatro filhos e mais três empregadas), por 1.500, com camarões de graça, para contrapeso.
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Ouve-se um assobio e o pregão: "Amolador!" Um homem empurra um carrinho de varais e roda dianteira. Pára e baixa os varais, fazendo encostar duas pernas de madeira no chão. Propele com o pé a roldana que faz girar a pedra de amolar. Recebe facas, facões, tesouras, e canivetes. O preço varia conforme o tamanho da peça, entre um e cinco tostões.
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Há um som metálico de colher batida contra caçarola. É o "folheiro". Conserta com estranho objeto de folha de Flandres, aquecendo ferros num fogareiro. Põe fundos novos de panelas, faz aderir bicos soltos em cafeteiras de cozinha e obtura furos.
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Vem outro peixeiro. É um caipira que andou pescando uma dúzia de bagres no Tietê. Está descalço, e traz os peixes enfiados pela guelra num cipó.
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O carteiro. Quando chegar o fim do ano deixará um cartão de boas festas tendo impresso um raminho de flores e receberá uma gorjeta de dez tostões.
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Os diversos vidros e potes de farmácia, dos remédios consumidos durante o mês, já foram entregues ao farmacêutico, que descontou 1.200 réis na conta.
Sobraram garrafas de vinagre, de espírito de vinho, de cerveja e de água mineral, à espera do garrafeiro. Conforme ele as pode revender melhor, paga a um tostão cada uma, ou duas por um tostão. Não compra garrafas de vinho porque não há produção de vinho em São Paulo. Também não compra garrafas de champanha. Paga, pelo que separou, 800 réis. Vai deixar o resto.
— A senhora quer que leve estes também, para não ocupar lugar?
— Quero.
Ele leva tudo.
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Escuta-se a trompa do lado da esquina. É o tintureiro. Tinge e compra roupas usadas. A tintura não é grande coisa. Qualquer fazenda tingida descora na roupa branca, e o que não pôde fixar-se na peça que se tingiu fixa-se agora definitivamente na camisa branca.
Não existe lavagem a seco. As manchas tiram-se em casa, e quando não saem, tinge-se a roupa, no tintureiro.
Temos um terno velho. O tintureiro examina, examina. Levanta a calça contra o sol, e vê que está puída atrás, nos joelhos e nos cotovelos.
— Dou três mil réis.
Discute, discute, e leva por cinco. Vende mais adiante por doze.
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Parou à porta uma carrocinha de duas rodas, puxadas por um burro e conduzida por um homem. É o lenheiro. Traz meio metro cúbico de lenha (a carroça mede um metro de comprimento, por um de largura e meio de altura).
A lenha vem colocada de modo a comportar o menor número de paus no maior espaço. O preço é 4.500 réis. Em regra, o carroceiro não recolhe a lenha. Poucos minutos depois passa um menino de quinze anos e se oferece para recolher, por 500 réis. A lenha foi recolhida, e dura uma semana.
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Ouve-se ao longe um pregão fanhoso que não se entende. Não se percebe ao longe ninguém que tenha aspecto de apregoar qualquer coisa. O som se aproxima. "Empalhador!" "Empalhador!" O homem não se distingue dos outros. Ah! Agora distingue-se. Traz na mão um feixe de palhinha de vime.
Quem conheceu o estilo de cadeiras Luís XV, ou Luís XVI, com trançado de palhinha, sabe do que se trata. Quem conheceu também as cadeiras "austríacas" (madeira de três quartos de polegada, flexível, recurvada em água) sabe do que se trata.
Em quase todas as casas havia cadeiras de palhinha. Especialmente as de balanço. Envelhecidas e ressecadas, furavam. Com os pés das crianças, também furavam.
O empalhador era chamado, entregava-se-lhe a cadeira, ele começava o trabalho.
Arrancava a palha inteira. Fixava em certos furos da cadeira o vime novo. Depois, em outros furos, fixava outros fios trançados sobre os primeiros. Enfim, nos terceiros furos, outros fios, que cruzava sobre os demais. Ficavam uniformes os trançados formando buracos hexagonais. Estava pronto. Não estou certo, mas parece que cada assento novo de cadeira custava 3 mil réis.
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Vem vindo Querubim, baleiro. Era um menino de 15 anos. Eu teria 16 nesse tempo. Querubim não vende qualquer bala ordinária. Umas moças de família faziam queimados (água, açúcar, que engrossava e dourava ao fogo, por evaporação) e balas de coco. Seis por um tostão.
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Escutava-se de repente: "Olha trinta! Olha trinta por um tostão!"
Outro baleiro. As balas eram de um terço do tamanho das do Querubim. Não sei de onde vinham.
O homem que gritava tinha acento itálico.
— Não é possível vender trintas balas por um tostão! Só se ele chupa as balas e as enrola no papel outra vez.
Mas ele vendia as balas.
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Sorvete! Sorvete! Creme! Creme! Abacaxi! Abacaxi!
A tarde estava quente, dessas raras tardes quentes de São Paulo, em que voam içás.
Estava escurecendo.
— Mamãe! Sorvete! Mamãe! Sorvete!