Havia um homem muito preguiçoso que odiava trabalhar e vivia sem fazer nada, comendo e engordando.
Um dia veio um velho bater-lhe à porta, pedindo pousada; mas cansou-se de bater, porque o preguiço não se animava a levantar do lugar para vir abrir a porta.
Afinal desenganado, o velho avistou no quintal a dona da casa e entregou-lhe uma toalha, pedindo-lhe que a guardasse mas nunca a abrisse.
E seguiu se caminho, trôpego e abatido.
A mulher guardou a toalha, mas ao fim de alguns dias a curiosidade a mordeu com tanta força que ela não pôde dominar-se e desdobrou o pano.
Apareceu logo uma grande mesa servida com o que há de bom e melhor, coberta de peixes guisados, de frutas, de doces, de vinhos, e a mulher se regalou de quase não poder mais andar. Em seguida, ela dobrou a toalha e escondeu-a na gaveta da cômoda, bem no fundo. E, quando o velho reapareceu para buscar a sua toalha, ela deu-lhe outra igual, mas que não era a mesma, e o viu partir, rindo-se muito do logro que pregara.
Chegando o velho à sua casa, cheio de fome, mandou a toalha estender-se, e a toalha quieta!
— Estende-te, toalha! — gritou ele.
Mas o pano continuou imóvel. O velho calou-se, mas no outro dia voltou à casa do preguiçoso, levando uma cabra, e pediu à mulher que lha guardasse até ele tornar de uma pequena viagem que ia fazer. Somente recomendava muito, mas muito, que tivesse o cuidado de nunca dizer ao bicho: "Berra, cabra!"
E retirou-se.
Apenas sozinho, o preguiçoso e a mulher se entreolharam, desconfiados. Ali havia mistério, e mistério grande... Que novidade seria aquela? E o melhor era tirarem logo a história a limpo gritando bem alto: "Berra, cabra!"
Assim fizeram, e a cabra deitou a berrar, caindo-lhe da boca ouro e prata em quantidade.
Meu Deus! Que felicidade!
O próprio preguiçoso levantou-se do seu lugar, o que não lhe sucedia desde muito tempo, e ajoelhou-se com a mulher junto da cabra, com os olhos brilhantes, para ajudá-la a apanhar todo aquele ouro e toda aquela prata.
O que se tornava preciso era que aquela cabra maravilhosa nunca mais voltasse às mãos do seu dono verdadeiro. E logo a mulher saiu, comprou outra cabra e, quando o velho voltou, deu-lhe esta em lugar da primeira, que ficou escondida no fundo da chácara.
Chegando em casa, o velho mandou a sua cabra berrar, e ela quieta e calada. Compreendeu que tinham trocado a sua cabra por essa, mas não fez nada, calou-se. Mais tarde chamou um trabalhador da sua terra, deu-lhe um cacete e ordenou que fosse pedir pousada na casa do preguiçoso e ali deixasse o cacete para ir buscá-lo no dia seguinte.
O rapaz recebeu o pau e seguiu submissamente. Chegou à casa do preguiçoso, pediu rancho e deu o cacete para guardar.
Quem voltou lá foi o próprio velho, que reclamou o pau que seu empregado ali deixara.
Imediatamente a mulher apresentou um outro cacete em lugar do verdadeiro e, quando ela mal pensava, esse pau levantou-se e entrou a dar bordoadas de criar bichos no marido e na mulher. Puseram-se ambos a gritar com desespero, e o cacete a bater, a bater em cima deles.
A mulher por fim pôde dizer:
— Meu senhor! mande parar o seu cacete, que eu entrego tudo quanto me deu para guardar... Tudo, tudo!
O velho então exclamou:
— Pára, cacete! E venha já tudo para cá!
O pau logo parou e a mulher foi buscar lá dentro a toalha, a cabra e o verdadeiro cacete, que o velho tomou. Em seguida, como o preguiçoso e a mulher se lastimassem, gemendo e chorando, o velho lhes falou assim:
— É bem feito. Essa toalha e essa cabra seriam vossas, se me tivessem recebido bem. Mas o marido, de tão preguiçoso que é, nem se levantou para me abrir a porta, e a mulher ainda por cima me enganou e me roubou. Pois agora estão castigados. Estão bem moídos de pancadas e hão de viver na pobreza...
E o velho saiu, foi-se embora ganhar o mundo com a sua toalha, a sua cabra e o seu cacete.