Narrada por Mayuluaípu, índio taulipangue. Esta lenda foi publicada pela primeira vez em 1917, em alemão, na obra de Theodor Koch-Grünberg, Mitos e lendas dos índios taulipangue e arekuná.
Antigamente, Kapéi, a lua, não estava no céu, mas na terra. Aqui tinha uma casa. Ela pegou a alma de uma criança e a botou dentro duma panela, que ficou virada no chão. Então a criança ficou doente. Os pais chamaram um médico-feiticeiro e mandaram que ele soprasse [1] a criança, à noite. Kapéi havia brigado com aquela gente. De noite o feiticeiro soprou a criança.
Kapéi vivia com duas filhas já crescidas [2]. Ele tinha mais uma panela grande e escondeu-se nela, mandando que suas filhas a emborcassem no chão. Disse às filhas: "Não mostrem onde estou, quando chegar o médico-feiticeiro! Também não digam onde está a crianças!" A criança era bonita e ele queria ficar com ela.
Então o médico-feiticeiro chegou na casa e perguntou pela alma da criança. As filhas nada disseram. O médico-feiticeiro tinha um cacete. Entrou na casa e quis ver o que estava na panela. Sabia que a alma da criança estava naquela casa. Quebrou a panela com o cacete. Depois quebrou também a outra panela. Assim achou a alma da criança.
Achou também Kapéi, que estava escondido na panela. Depois de pegar Kapéi, mandou um Ayúg [3], que tinha vindo com ele, levar de volta a alma da criança, mas outros Ayúg, que ele também tinha trazido, ficaram. Surrou Kapéi e expulsou-o da casa, dizendo-lhe: "Não fiques mais aqui" Vai embora!" Então o médico-feiticeiro voltou para sua casa.
Kapéi ficou pensando em que iria se transformar. Ele disse: "Cutia se come! Anta se come! Porco do mato se come! Todos os animais de caça são comidos! Será que me devo transformar numa ave? Num mutum? Num cujubim? Num inambu? [4] Também estes são comidos! Vou para o céu! Lá é melhor do que aqui! Vou iluminar de lá os meus irmãos! [5] Vamos, minhas filhas, para o céu!"
Com um cipó, Kapeienkumá(x)pe [6], a lua e as filhas fizeram uma escada e mandaram um pequeno pássaro levar o cipó para cima e amarrá-lo no céu. O pássaro pegou uma ponta do cipó e o levou consigo, amarrando-o na entrada do céu. Kapéi e as filhas treparam pela escada para as alturas e chegaram ao céu.
Kapéi disse: "Ficarei aqui no céu! Vocês vão adiante, mais para cima, para iluminar o caminho! Ficarei aqui para iluminar os meus irmãos lá embaixo! Vocês devem iluminar o caminho [7] dos que morrem, para que a sua sombra [8] não fique no escuro!" Mandou uma das filhas mais para cima, para um céu mais alto. Mandou a outra filha para um céu ainda mais alto. Ele mesmo ficou no céu que está acima de nós [9].
E aqui termina esta história.
Notas
1. Quer dizer, para curá-la.
2. "Estas moças eram filhas de duas mulheres (planetas) com as quais ele
andava. De cada uma ele tivera uma filha", explicou o narrador.
3. Ayúg é a sombra, a alma, de uma árvore, um dos mais fortes auxiliares dos
feiticeiros nas curas.
4. Ave galinácea.
5. "Ele chama a gente de irmãos", explicou o narrador.
6. Planta trepadeira esquisita, parecendo uma escada, que se encontra pendurada
nas árvores. Através dela o feiticeiro sobre para o céu, quando cura um
doente. O nome desta trepadeira, Kapéi-enkuma(x)pe, significa: "A lua
subiu nela".
7. A Via Láctea, o caminho dos mortos; representado por estrelas.
8. A alma dos mortos.
9. Por cima do nosso céu existem, na crença dos taulipangue, mais dez céus,
um sobre o outro.