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Ano IX - Edição 96
Novembro de 2006
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Tradições cuiabanas: O guaraná

Rubens de Mendonça

Arbusto sarmentoso da família das Sapanáceas (Paullinia cupana H.B.k.); massa consistente, com formas diversas, fabricadas pelos índios mauês, do Amazonas, com sementes desse arbusto; bebida feita com o pó dessa massa.

Assim vem o guaraná do Amazonas. Pega-se o bastão e rala-se em uma grossa lima de ferro ou língua de pirarucu (peixe de água doce, da família dos Osteoglossídeos Aripaima gigas), até tornar-se novamente pó. Coloca-se e um copinho de cristal, açúcar bem refinado (três ou quatro colheres de café), sobre ele ponha-se duas ou três colherinhas do pó de guaraná ralado e depois misture bem, até ficar cor de barro vermelho e então vá despejando água, aos pouquinhos, até dissolver bem o açúcar e o guaraná. É esta a primeira bebida que o cuiabano de duzentos anos toma pela manhã, às quatro horas, como se fosse uma primeira refeição.

A colher apropriada para o guaraná é uma colherinha de café, feita de prata, com um cabo medindo uns 18 centímetros, devendo a bebida ser servida, principalmente às visitas, em bandeja de prata.

Antigamente, para ser importado o guaraná era verdadeira tragédia.

Vinha por terra do Amazonas a Cuiabá. Em tropas ou lotes de burros. Nesse tempo, o maior importador desse produto era um negro que fora escravo e comprou com esforço próprio a sua liberdade. Chamava-se João Antunes Muniz, conhecido pela alcunha de João Guaraná, cuja casa comercial era à rua Barão de Melgaço, hoje nº524, onde residiu o seu filho, doutor Francisco Antunes Muniz, e atualmente reside o senhor João Eugênio Gonçalves Pinheiro.

No Rio de Janeiro, quando ainda capital da República, à rua São José, existia uma casa comercial que vendia guaraná em latas, já ralado. Na latinha vinha uma espécie de bula com a seguinte quadra:

Guaraná é um remédio
Fortificante colosso
Elixir de longa vida
Do povo de Mato Grosso

O professor Firmo Rodrigues, em uma das suas interessantes crônicas publicada em 1943, diz o seguinte: "A população desta cidade está alarmada com a elevação do preço do sal, condimento imprescindível à cozinha; mais impressionado fica, porém, o cuiabano, quando se eleva o preço do guaraná".

E prossegue o professor Firmo:

"O certo é que, de tempos em tempos, ele também sobe a preços formidáveis.

No entanto, o guaraná poderia ser cultivado em Mato Grosso, se se fizesse para aqui sua transplantação, como se fez da seringueira para o extremo oriente.

O presidente José Saturnino da Costa Pereira, que assumiu o governo desta província em 1852, fez uma tentativa nesse sentido, pedindo ao governo permissão para agregar à Comissão Langsdorff algumas pessoas daqui, com fim de receber do botânico Riedel, da mesma comissão, instruções sobre a cultura do guaraná que o mesmo botânico pretendia estudar, quando chegasse ao Pará.

Mas a idéia não passou de projeto, como também não logrou tornar-se realidade sua idéia de fundar em Cuiabá um jardim botânico.

Depois disso, em 1912, o comerciante Benedito Leite de Figueiredo tentou transplantar o guaraná para Cuiabá, trazendo do Pará duas mil mudas e um índio com a prática de sua cultura.

Infelizmente, ao chegarem a Montevidéu, as mudas morreram, porque ali fazia, então, um frio intenso.

E ninguém mais se lembrou de tentar pôr em prática a mesma idéia.

Neste momento, o preço do guaraná vai-se elevando de um dia para outro, prometendo em breve escapar às possibilidades da gente pobre, habituada com o uso da agradável bebida, cuja falta produz dores de cabeça a muitos".

E termina o cronista de Figuras e coisas da nossa terra:

"Um viajante, passando pela cidade de Livramento, notou com admiração que muitos habitantes traziam um lenço atado à cabeça. Estranhando o fato, perguntou a um transeunte, que também trazia um lenço atado sobre a testa (sinal de que sofria dor de cabeça):

— Patrício, está grassando aqui a epidemia de dor de cabeça?

— Não, senhor! É que há muitos dias não existe guaraná no comércio e a gente, sem ele, sofre dor de cabeça... teimosa."

Se eu fosse vereador à Câmara Municipal de Cuiabá, somente aprovaria um projeto de concessão de título de cidadão cuiabano nas seguintes circunstâncias: se o candidato à cidadania tomasse guaraná. Só considero cuiabano quem faz uso do guaraná ralado.

 

(Mendonça, Rubens de. "Tradições cuiabanas: O guaraná". Leão d'Oeste. Cuiabá, 02 de novembro de 1965)
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