Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Novembro 2006 - Ano IX - nº 96


Sumário

Festança
A zabumba
Valdemar Valente

Congadas de Santa Isabel
Ruth Guimarães

Danças, festas e instrumentos musicais de origem bantu
Artur Ramos

Cancioneiro
História do bicho sete-cabeças
Minelvino Francisco Silva

Saci
Joaquim Queiroz Filho

O treno do beija-flor

Imaginário
Como a lua chegou ao céu

Quirino, vaqueiro do rei

O preguiçoso
Carmen Dolores

Colher de Pau
Memória e queijo
Guilherme Santos Neves

Tradições cuiabanas: O guaraná
Rubens de Mendonça

Versos de brindes
Afonso Cláudio

Oficina
Vendedores ambulantes
Jorge Americano

Tinturaria
Saul Martins

Vassoura
Maria Rita da Silva Lubatti

Palhoça
Cantando e dançando
Ademar Vidal

Ritos de morte
Alceu Maynard Araújo

O culto aos mortos
Adelino Brandão

Panacéia
Defuntos e almas do outro mundo
F. A. Pereira da Costa

Medicina popular
José Maria Tenório Rocha

Ontem, hoje e amanhã
Mário Melo

Veja o que foi publicado em cancioneiro
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Cancioneiro
Textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

O treno do beija-flor

Travesso colibri vi num jardim
Ruflando as asas junto à flor mimosa
Ali sorvendo o néctar do jasmim
Aqui em torno dum botão de rosa

Penas recurvas, a tremer, louco, febril
Qual se o alcançara traiçoeiro espinho
E depois, num adejo rápido, sutil
Entre a rosa e o botão pousou mansinho

Pende a rosa ao peso do tirano
Que o dorso lhe verga, e o botão erguido
No hastil, que o mantém altivo e ufano
Como que deixa escapar leve gemido!...

— Filho, sofres?... Alguma dor pungente?...
Indaga a rosa e o rebento lhe responde:
— Não vês como se queda este insolente
Que as suas intenções tão mal esconde?

Murmura o beija-flor: — Formoso entre formosos!
Se amas a quem te embalou no seu regaço
Ouve deste peito os sons angustiosos
Da confissão que sem malícia faço

De tua mãe vi as pétalas radiosas
Senti do seu aroma tal vertigem
Que abati as asas langorosas
Tal o nauta a vela, em meio da caligem

Do mar irado! Meus olhos se prenderam em seus contornos
No seu porte, meu manto e majestade
E disse a sós comigo: — De que valem os adornos
Que eu, mísero volátil, tenho por vaidade?

Chorei! Chorei! lágrimas de amargura!
Nascer, viver, morrer, com o triste fado
De curvar-me à lei da áspera Natura
Que exige que o comer seja regado

Com o suor de cada rosto! Cruel
Destino o meu!Se a vergôntea amiga
Acaricia o meu lábio revel
Brada uma voz: — Esta casa não te abriga!

Perdão vos peço de joelho, ó flores!
À fome e à sede morrerei exangue
Mas não direis que o menor dos voadores
Tingiu as vestes em inocente sangue!

 

O treno do beija-flor é uma poesia sem par na lírica espírito-santense e uma das mais belas da lírica brasileira, pela delicadeza, colorido e graça, quer da concepção quer da execução.

Quem o escreveu? É o que se ignora ainda hoje na ex-província; sem embargo disso, é crença minha que só poderia ter saído do estro do padre Marcelino Duarte, o maior poeta lírico que já teve o Espírito Santo. Só o mavioso cantor serrano, no começo do século XIX, possuía as galas e pompas de estilo e a riqueza de forma que recomendam o Treno e os versos que se lhe seguem, isto é, as Vibrações d'alma e Ao luar, também sem autoria conhecida.

Em minha História da literatura espírito-santense, fiz a esse nobre espírito a justiça que os seus contemporâneos lhe denegaram; folgo de ir aos poucos recolhendo provas de que não me enganei no juízo que emiti acerca da beça figura de Marcelino Duarte como poeta e revolucionário.

(Cláudio, Afonso. Trovas e cantares capixabas. 2ª ed. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura; Fundação Cultural do Espírito Santo, 1980, p.33-34; 110)

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