Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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O cálculo dos meses

Malba Tahan

O folclorista potiguar Veríssimo de Melo, em seu livro Populário natalense (Natal, 1957), dedica um capítulo ao estudo das diversas e curiosas formas mnemônicas que o povo adoto para fixar o número de dias de cada mês.

As formas são apresentadas em versos, em rimas pobres, a métrica nem sempre correta, mas em termos tão simples que ficam até na lembrança das crianças.

Uma das mais simples e mais conhecidas é a seguinte:

Trinta dias tem setembro
Abril e junho e novembro
Fevereiro vinte e oito tem
Se for bissexto mais um lhe dêem
E outros, que sete são
Trinta e um todos terão

Apontemos outra forma, que é assinalada pelos folcloristas gaúchos e aparece citada no livro Poesias seletas, dos professores Odete F. Pitta e Daniel L. A. César:

Já meu avô me dizia:
"Doze meses o ano tem".
Que o seu tamanho varia,
Com ele aprendi também.

Trinta dias tem novembro,
Abril, e junho e setembro.
Vinte e oito terá um
Nos bissextos, tem mais um.

Há uma versão portuguesa (citada por Veríssimo de Melo) e que difere da brasileira, por ser apenas mais sintética:

Trinta dias tem novembro,
Abril, junho e setembro;
Vinte e oito terá um
E os demais trinta e um.

Apresenta esta forma muita semelhança com a variante mexicana, que é comentada pelo folclorista natalense:

Abril tiene treinta dias
Septiembre, noviembre y junho;
Febrero tiene veintocho
Y los demás treinta y uno

Anotaram os folcloristas a versão popular peruana, que é também interessante (Veríssimo, ob. cit., p.17):

Treinta trae noviembre,
con abril, junio y setiembre
todo el resto tiene 31;
Excepto febrero mocho
Que solo trae 28.

Observe o leitor a rima em par, nos dois últimos versos: mocho e ocho.

O professor Henri de Lanteuil, em seu livro Nouvelles leçons de francais (apud Veríssimo) apresenta-nos a forma do mesmo tema folclórico em francês:

Trente jours ont novembre
Avril, juin et septembre
De vingt-huit il en est un.
Les autres ont trente et un.

Num livro didático elementar de Butin-Vinhobs, foi o pesquisador potiguar colher a variante inglesa, que é bem mais precisa, em relação ao mês de fevereiro:

Thirty days has September,
April, June and November
All the rest have thirty-one;
February has twenty-eight alone,
Excepting Leap-year that's time
When february days are twenty-nine.

É muito conhecido, e também de origem anônima, acentuadamente folclórica, o processo de fixar, ou verificar, o número total de dias de certo mês, contando os meses pelas juntas dos dedos.

O artifício é o seguinte:

Com a mão esquerda fechada (o polegar para dentro) vamos enunciando, a partir da junta do dedo mínimo, os nomes dos meses, tocando a seguir com o indicador da mão direita, nas juntas e nos intervalos das juntas. Quando a contagem cair numa junta, o mês enunciado terá 30 dias. É preciso levar em conta o mês de fevereiro, que terá, apenas 28 ou 29 dias.

Observação: Chegando-se a junho (sétimo mês) a contagem irá cair sobre a junta do indicador da mão esquerda. Prossegue-se a contagem, voltando-se, novamente, a tocar na junta do dedo mínimo (agosto); seguem-se os últimos meses do ano; setembro (intervalo), outubro (junta), novembro (intervalo) e dezembro (junta).

Eis um curioso capítulo no qual o folclore interfere com a aritmética.

 

(Malba Tahan. "O cálculo dos meses". A Gazeta. São Paulo, 10 de dezembro de 1963)
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