Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

A carreta do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso

Bernardino José de Souza

Carreta é o nome dado ao veículo rural tirado por bois no Rio Grande do Sul, quer se trate do velho carro de origem lusa, crismado de carreta portuguesa, quer do carro modificado, de rodas raiadas e eixo fixo à mesa ou caixa [1].

O nome carreta não se circunscreve ao território rio-grandense: irradiou-se para o norte até São Paulo onde, em certos municípios, assim se denomina o carro de rodas de raios e eixo fixo de ferro; é ainda dominante no sul de Mato Grosso, cujos desbravadores principais foram os gaúchos que para ali emigraram em conseqüência das lutas civis travadas no Rio Grande, na primeira década republicana.

Se a carreta do Rio Grande do Sul é, em verdade, um veículo semelhante ao que acabamos de descrever sob o título de "carro de bois moderno", todavia merece especial e demorado registro.

Nascida na época colonial, cedo a sua estrutura se modificou e, com o andar do tempo, passou a ter particularidade que lhe impuseram as condições do meio, os objetos do transporte e até os materiais de sua construção. Mais ainda: a carreta sugere evocações do passado e da áspera vida do campo desde as origens do povoamento do continente de São Pedro. Ela é, do mesmo passo, uma expressão da conquista da terra e um elemento de lembranças históricas impagáveis.

Poetas e prosadores, escritores de todos os matizes, celebram-na amiúde em seus livros: foram, secularmente "errantes anéis de fileira que ligava vilas e cidades", "espalhando nos campos a abundância e suprimindo o deserto"; "seguiram a linha ascensional do povoamento" rio-grandense, e por muitos janeiros viajaram "as famílias gaúchas sob o colmo protetor da quincha tostada aos sóis e trabalhada dos minuanos". E ainda hoje, na verde e opulenta campanha do Rio Grande do Sul, como escreveu o inspirado Augusto Meyer:

"A carreta avança parada no tempo
Gemendo a mágoa da roda vagarosa
Verão e inverno, toldo curvo humildemente
Passivamente estrada fora"

Ou como cantou Vargas Neto, na sua lira de ouro:

"Lembrando a viagem constante da saudade
Carregando o passado pra o presente"

A carreta faz parte do patrimônio moral e histórico dos bravos lidadores dos pampas; a carreta e o cavalo, porque se este serve como disse Nogueira Leiria, ao homem do campo em todas as suas atividades, a carreta lhe terá sudo mais útil do ponto de vista coletivo e social.

Disso é prova irretorquível o desvelo, a diligência e até um quê de meiguice com que me responderam os gaúchos às perguntas do "inquérito" que lhes enviei para o exato conhecimento de sua estrutura e funcionamento.

Descrição da mesa e do rodado

A carreta rio-grandense consta de duas partes principais — a mesa e o rodado.

A mesa compreende o leito ou estrado sobre o qual se coloca a carga que se quer transportar e o cabeçalho (cubeçalho, como dizem os guascas).

A mesa propriamente dita, o tabuleiro da carreta, de regra de forma retangular, é constituída das seguintes peças: chedas — as duas guardas laterais e retilíneas da armação; cadeias, em número de quatro a seis — travessas de madeira que ligam as chedas entre si e ao cabeçalho, embebendo-se em furas retangulares abertas na face interna das mesmas chedas; recavéns dianteiro [2] e traseiro — semelhantes travessas, às vezes chamadas travessões, limitam a mesa na frente e atrás e se prendem ao cabeçalho por parafusos que se embutem nas chedas.

O cabeçalho é uma peça de madeira de lei, inteiriça e esquadriada, que constitui a longarina central da mesa, ficando parte ao centro do estrado e parte prolongada para a frente, até o comprimento necessário ao atrelamento da primeira junta de bois, chamada do coice; na extremidade dianteira do cabeçalho abre-se um furo vertical por onde passa a chavelha, que serve para segurar a canga do coice por meio de uma corda de couro chamada tamoeiro.

A mesa ainda contém as seguintes peças: assoalho, fueiros, cevas, muchachos, mata-boi e, às vezes, tolda.

Assoalho ou soalho é o enchimento do quadro da mesa, feito em geral com quatro tábuas, assentes longitudinalmente sobre as cadeias.

Fueiros são quatro a seis varas roliças de cada lado da mesa que se embebem em furos [3] abertos  nas chedas, no sentido vertical e que servem para amparar lateralmente as cargas, seja por si sós, seja porque se lhes prendem taipais chamados geralmente cevas.

As cevas são anteparos feitos de tábua, de cipó, de taquara rachada ao meio ou mesmo de palhas presas entre taquaras rachadas ao comprido, de modo que se improvise uma espécie de caixa necessária para o transporte de produtos miúdos ou a granel.

Os muchachos [4] são dois pontaletes de quase um metro de comprimento, de madeira roliça, que servem para escorar na frente e atrás a carreta daí haver o muchacho dianteiro e o traseiro; o dianteiro é conduzido preso por tentos de couro ao cabeçalho, junto à ligadura da canga do coice; o traseiro é preso ao meio da parte posterior da carreta. O primeiro tem grande e constante utilidade, pois sobre ele descansa o peso da carreta quando parada, aliviando-se desta maneira o pescoço dos animais; o segundo evita que a carreta empine; ambos servem para manter a carreta em posição horizontal, quando desatreladas as juntas ao fim do trabalho.

Mata-boi é a corda de couro ou o arame com que se amarra a mesa ao eixo [5].

Tolda ou toldo é uma cobertura que se superpõe à mesa da carreta. esta cobertura apresenta duas formas principais: ora em abóbada, ora em cumieira. No primeiro caso, constrói-se com arcos paralelos de madeira ou de ferro, atados às pontas superiores dos fueiros, correndo sobre eles delgadas ripas longitudinais; no segundo, quando a tolda tem a forma de um telhado de duas águas, a armação se faz por meio de traves de madeira que se ligam em ângulo na cumieira, correndo longitudinalmente sobre elas as mesmas ripas delgadas. A cobertura é feita mais comumente de capim santa-fé (Panicum prionitis Ness), usando-se ainda a tiririca, o sape, a tábua, o gerivá; ainda pode ser de couro, de lona e aá de zinco [6]. Os lados da carreta toldada são fechados com os mesmos materiais da cobertura ou ainda com tábuas e zinco. As carretas toldadas são as mais características e historicamente as mais antigas: são também as mais cômodas e as que mais protegem as cargas contras as intempéries [7]. Por isso mesmo as carretas toldadas eram e são as mais próprias para as longas viagens, enquanto as destoldadas são mais empregadas nos serviços diários das estâncias.

Rodado é termo muito freqüente no Rio Grande do Sul para denominar o que, no resto do Brasil, se chama mais comumente rodeiro ou rodeiros: o rodado da carreta compõe-se de duas rodas conjugadas e se formam das seguintes pecas: maça, buzina e contra-buzina, cambotas, raios e chapa.

Maça é a parte central da roda; é um bloco feito do cerne de uma madeira resistente de forma cilíndrica para onde convergem os raios que a ligam as cambotas e no qual se abre um furo para receber a ponta do eixo; não raro, se cobre o bordo exterior da maça com um anel de ferro de quatro a cinco centímetros de largura chamado arco de maça; é um reforço para a madeira.

Buzina é o orifício do cubo da roda ou maca onde se embebe a extremidade do eixo; quando este orifício se gasta pelo atrito, ficando o eixo com muita folga, e revestido internamente por um tubo de ferro fundido, de forma tronco-cônica, chamado contra-buzina. A contra-buzina serve, pois para proteger o interior da maça contra o atrito do eixo.

Cambotas são as pinas que forma a circunferência da roda, em regra cinco a oito, ou seja em número proporcional ao tamanho da mesma roda; são feitas a serra, preferindo-se entre as madeiras empregadas o angico por ser mais fácil de trabalhar [8].

Raios são as peças de madeira de lei em número variável de doze a dezesseis [9], que ligam, em forma de leque a maça às cambotas, onde se embebem.

Chapa é o aro de ferro, de doze a quinze centímetros de largura por um e meio a dois de espessura que cinta toda a circunferência da roda, mantendo a coesão das cambotas e evitando o seu desgaste no atrito com o chão das estradas. Esta chapa é colocada a rubro: caldeado o aro, e deitado sobre uma fogueira, previamente preparada [10]; o ferro dilata-se ao calor e, quando em brasa, se adapta prestes ao camboteado, jogando-se-lhe imediatamente água fria para que o metal volte ao seu estado natural; assim se obtém o aperto necessário da chapa sobre as cambotas; a operação que exige boa prática, é contudo semelhante a da ferragem dos carros de bois do Nordeste [11].

O eixo é uma peça de madeira resistente que une as duas rodas; sobre ele descansam as chedas, que nesta parte são mais altas, em forma de munhões; termina por duas exrtremidades de forma tronco-cônica, para que se introduzam nas buzinas da maça, firmando-se às rodas por uma ou duas cavilhas de madeira ou de ferro, que atravessam em furos a parte excedente da maça. O eixo é fixo à mesa: na maior grossura das chedas, chamada peitos das chedas, abrem-se cavidades quadradas [12] para ajustar-se ao eixo, reforçando a junção cordas de couro, arame, até mesmo presilhas de ferro, passadas entre as cadeias e o corpo do eixo chamadas como já vimos — mata-boi. O comprimento do eixo varia com o tamanho da carreta: o de uma carreta inteira tem dois metros e sessenta e seis centímetros de extensão, sendo um metro e trinta e dois para a mesa, 0,45 para a maça, 0,06 para a cavilha e 0,08 para a ponta.

Para evitar o desgaste da parte do eixo introduzida no orifício da maça, quando esta é forçada pela contra-buzina, colocam numa ranhura aberta na parte inferior da madeira do eixo uma peça de ferro, ou aço, de 30 a 40 centímetros de comprimento por 3 a 4 de largura e 5 milímetros de espessura chamada cavilha. Também para proteger a cavilha de madeira que segura a roda ao eixo do desgaste colocam entre ela e a maça uma arruela de ferro; outras vezes para que se não desgaste a maça pelo atrito da cavilha, põe-se uma chapa de ferro chamada rondana.

Como se vê na descrição supra, a carreta do Rio Grande do Sul tem rodas radiadas e independentes, isto é, giram sobre as extremidades do eixo.

Madeiras empregadas na construção das carretas rio-grandenses

De acordo com as informações que recebemos de várias zonas do estado, as madeiras mais empregadas na feitura das suas diferentes peças são:

Cabeçalho, chedas, cadeias e recavéns: ipê ou piúva (piúna), angico, cabreúva, marmeleiro, guajuvira, batinga.

Assoalho: pinho e açoita-cavalos.

Fueiros: angico, amarilho, batinga, guajuvira.

Chavelha: angico, guajuvira (cerne) e ipê.

Muchachos: qualquer madeira.

Cambotas: principalmente angico, podendo ser de ipê.

Raios: ipê, angico, guajuvira.

Maça: ipê, principalemente.

Cavilha: ipê, angico.

Rixo: batinga (baitinga) principalmente, e depois grapiapunha, catiguá ou cataguá, angico branco, porque o vermelho esquenta muito, guabiju, pitangueira preta etc.

Dimensões, peso e preço

As carretas rio-grandenses dividem-se em quatro tipos quanto ao tamanho, designados pelos nomes de carreta inteira, carreta de três quartos, meia carreta e carreta um quarto.

Segundo as informações do senhor Heitor Domingues, embora não haja bitolas standard, pode-se caracterizá-las do seguinte modo:

Carreta inteira: pesa 450 quilos, tem uma capacidade de carga ate 1.500 quilos, com 16 palmos de comprimento, por seis de largura e dez de altura; suas rodas têm oito palmos de diâmetro, por vinte e seis de circunferência; custa mais o menos mil a mil e duzentos cruzeiros, conforme a madeira e o apuro da obra.

A carreta três quartos, também chamada por alguns carretão, a mais usada pesa 375 quilos e tem uma capacidade de carga até 1050 quilos; tem 14 palmos de comprimento, seis de largura e nove de altura; suas rodas têm sete palmos e meio de diâmetro; custa mais ou menos oitocentos cruzeiros.

A meia carreta pesa 300 quilos e pode carregar até 750 quilos; tem 12 palmos de comprimento, cinco de largura e cinco de altura; o diâmetro das rodas é de seis e meio palmos; custa mais ou menos setecentos cruzeiros.

A carreta um quarto pesa 225 quilos e pode carregar até 450 quilos; tem dez palmos de comprimento, por cinco de largura e cinco de altura [13]; o diâmetro das rodas é de cinco e meio a seis palmos; custa mais ou menos seiscentos cruzeiros.

É de uso ainda no estado uma carreta pequena chamada carretinha, de regra puxada por uma só junta de bois dirigidos por meio de rédeas denominadas rejeiras ou sejam sovéus de couro torcido com ou sem pêlo, amarrados em volta de uma aspa e da orelha externa dos animais. Estas carretinha são freqüentes nas vilas e povoados para o transporte de lenha, carvão e legumes tendo, neste caso, uma caixa de tábuas de pinho [14].

A carreta rio-grandense domina como veículo rural no sul de Mato Grosso e no território de Ponta-Porã: de feito, ao sul da linha leste-oeste assinalada pelos trilhos da Noroeste do Brasil, ou seja nos municípios de Corumbá, Miranda, Aquidauana, Campo Grande, Ponta-Porã, Bela Vista, Martinho etc... quase só se vê rodando pelas estradas ou no serviço interno das fazendas, a carreta gaúcha. Para o norte desta linha reina o velho carro de bois, tipo mineiro. Nos municípios mato-grossenses de Três Lagoas, Campo Grande, Aquidauana e Corumbá encontram-se os dois tipos de veículos tirados por bois — o carro cantador e a carreta. Na faixa fronteiriça com o Paraguai, em terras do território de Ponta-Porã, aparecem também as carretas paraguaias, distintas das rio-grandenses por certos característicos na estrutura e pelo seu atrelamento.

A presença da carreta gaúcha nessa região explica-se pelo fato de haver sido penetrada por grande número de rio-grandenses logo após a luta civil que lavrou no Rio Grande de 1893 a 1895. Rezam as crônicas dessa emigração, determinada por motivos políticos, que muitas famílias desse estado se transportaram para o sul do Mato Grosso em suas próprias carretas, varando dezenas e dezenas de léguas.

Nas descrições da carreta que nos enviaram os patrícios de Ponta-Porã, de Bela Vista e da região chamada Nhecolândia no município de Corumbá, verifica-se a semelhança entre uma e outra: há, entrentanto, diferenças notando-se, ademais, a influência paraguaia em sua nomenclatura.

Exemplifiquemos:

Enquanto no Rio Grande do Sul o eixo da carreta é geralmente de madeira, no sul de Mato Grosso é mais comum o de ferro. O eixo, informa-nos o digno fazendeiro Mario Mendes Gonçalves, é uma só peça de ferro, sobre a qual se fixa a mesa da carreta, sendo de formato quadrado, com a grossura de 5 x 5 centímetros, pouco mais ou menos, com as duas extremidades redondas, que se afinam à medida que alcançam as pontas. O eixo é introduzido nas buchas, as quais têm o mesmo formato das pontas do eixo, isto é, afuniladas. Nas partes em que o eixo começa a arredondar-se, e nas pontas, colocam-se também duas peças de ferro chamadas redondelas. Finalmente, na ponta do eixo, há um furo onde se coloca outra peça de ferro chamada tarugo ou cunha; esta peça firma o conjunto do rodado ao eixo sendo que as duas redondelas, uma interna e outra externa à maça, forçam o rodado a girar num só lugar”.

De acordo com as minuciosas informações do mesmo fazendeiro, confirmadas pelas do dr. Aral Moreira, ilustre advogado e também ervateiro na mesma região, o cabeçalho ou varal da carreta, é, não raro, denominado pértigo ou pértico; o aro de ferro que cinge o camboteado e chapa é dito lhanta (em Corumbá – janta); as peças de ferro de forma cilíndrica que formam os orifícios das maças se dizem buchas, falando ainda o primeiro em quartilhas – duas varas de cerne de madeira, roliças, com mais ou menos oito centímetros de circunferência que se colocam de cada lado do varal, amarradas à mesa da carreta e na canga, por cordas de couro, e cuja a utilidade é firmar a junta do coice [15].

Aral Moreira fala de carretas inteiras de capacidade até para duas toneladas de carga, e de meias carretas, com capacidade de 750 quilos. Entre esta da notícia das que apelidam carreta chiqueiro, ou seja uma meia carreta fechada por um gradil, tendo na culatra uma espécie de corrediça, própria para a condução de animais vivos (carneiros, porcos, aves etc.); às vezes se lhe adapta uma divisão horizontal, formando dois andares; põem cachos para água e alimentação dos animais transportados, no caso de viagens longas.

Por sua vez Gastão de Oliveira, proprietário da fazenda Berenice, no município de Corumbá (Mato Grosso), informa-nos que a carreta usada em sua zona é, às vezes, crismada de carreta pantaneira, em virtude das suas rodas muito altas geralmente de dois metros de diâmetro, o suficiente para atravessar as águas do pantanal e dos corizos. E nos manda as seguintes dimensões de uma carreta pantaneira típica:

Comprimento da mesa: 3 metros, sendo o cabeçalho livre de 2,75 m

Altura das rodas: 2 metros

Largura das cambotas: 0,10 x 0,07 cm.

Largura do ferro ou janta: 0,07 1/2 x 0,01cm

Maça: 0,30 x 0,55cm

Cheda: 0,16 x 0,05 cm

Cabeçalho: 0,15 x 0,11cm

Dando-nos substanciosas informações a respeito dos veículos tirados por bois no município de Campo Grande, um dos mais prósperos do grande estado central, o engenheiro Carlos Martins Costa nos enviou os seguintes dados sobre as dimensões do tipo usual da carreta e sobre o material empregado na oficina de carretas da cidade:

Dimensões

Comprimento: 5,8 m (3 m de mesa e 2.80 de cabeçalho)

Largura: 2,20 de ponta a ponta do eixo

Altura: 1,50 inclusive a ceva (0,80) sem tolda

Peso: 400 a 500 quilos

Mesa: 3 metros por 1,40 de comprimento e largura

Rodas: 1,70 m de diâmetro

Chapas: 3” por 1/2 de largura e espessura (polegadas)

Eixo: 23/4 quadrado (polegadas)

Material

Chapas e eixo: ferro batido

Buzina: ferro fundido

Cambotas, raios e mesa: ipê

Maça: cambaru

O preço é de mil e quinhentos e dois mil cruzeiros para o tipo usual.

Este mesmo ilustre colaborador sintetizou nos seguintes itens as vantagens da carreta sobre o carro de boi típico:

a) é muito mais leve;
b) é mais barata;
c) é mais econômica, podendo ser tirada até por uma só junta de bois;
d) oferece mais possibilidades de reparos apressados;
e) sendo mais leve, em caso de tombamento pode ser levada facilmente à posição normal;
f) por ser mais leve, conserva melhor o material dos arreios que pouco se partem;
g) ao contrário do carro, que exige um carreiro de pé, pode ser dirigida não só a pá como a cavalo e dentro da mesma;
h) os bois da carreta não estranham geralmente a troca dos carreiros;
i) a carreta pouco estraga as estradas.

A carretilha

Roque Callage, dentre os maiores escritores regionalistas do Rio Grande do Sul, no seu Vocabulário gaúcho (2ª edição, 1928) registra o termo carretilha, definindo-o: “pequena carreta toldada, coberta de zinco, mais ou menos bem pintada e puxada por uma só junta de animais que serve para a condução de famílias na campanha”.

Luís Carlos de Morais, no seu Vocabulário sul-riograndense, limita-se a dizer que é uma pequena carreta para transporte de pessoas.

Falando do passado gaúcho, Severino de Sá Brito, em seu interessante livro Trabalhos e costume dos gaúchos escreve à página 9: “As famílias da campanha daquele tempo viajavam em carretilhas de bois, que representavam um pequeno aposento fechado, com porta atrás e janelas laterais”.

Não desafinam destas referências as informações que recebemos dos nosso colaboradores do Rio Grande: a carretilha é uma espécie de carreta típica, feita especialmente para o transporte de pessoas e famílias na campanha. Seus traços característicos são: tolda de palha, ou mais comumente, de zinco, fechada nos quatro lados por tábuas, nas quais se abrem dianteira e lateralmente pequenas janelas corrediças, tendo na parte posterior uma porta de entrada, no interior há bancos, colchões ou pelegos para a acomodação dos passageiros; em regra a caixa era pintada de azul ou vermelho (tintas baratas), algumas ostentando desenhos ornamentais; puxada por uma ou mais juntas de bois.

Honrando-nos com os valores de seu conhecimento a respeito das coisas do Rio Grande do Sul, A. A. Borges de Medeiros escreveu-nos o seguinte sobre a carretilha: “Até meado do século XIX usava-se a carretilha no transporte de famílias ou de doentes, e só desapareceu quando se tornaram vulgares os carros de duas a quatro rodas puxados por muares ou animais cavalares.

A carretilha tinha a mesma forma da carreta, com a diferença de que a construção e o material eram mais esmerados. Com efeito, a tolda e os lados se faziam de tábuas bem aparelhadas e ajustadas que formavam seguro abrigo contra as chuvas e ardentias. Janelinhas laterais permitiam a entrada da luz e ar, e a portinhola de duas folhas podia ser aberta ou fechada, à vontade. A carretilha era pintada de cores vivas”.

Com a introdução dos novos meios de transportes, foram rareando as carretilhas nas estâncias de cuja paisagem fizeram parte por tantos janeiros. Ainda no fim do século XIX rodaram nos campos do Rio Grande do Sul, dezenas de carretilhas: visitas, carreiradas, festas nas povoações e cidades, viagens de todo o gênero, mobilizaram, até há poucos anos as garridas carretilhas gaúchas [16].

 

Notas

1. Segundo informação do engenheiro João Protásio Pereira da Costa, são raras no estado as carretas de eixo rolante — cantadoras. Talvez hoje somente sejam encontradas no município de Torres.

2. Na região fronteiriça com o Uruguai o recavém dianteiro tem o nome de pórtico — alteração de pértigo, nome do cabeçalho no Uruguai e na Argentina. Informação do agrônomo Paulo Annos Gonçalves. Ver o Vocabulário de la carreta criolla, de Bartolomé J. Ronco.

3. O prefeito de Itaqui, município fronteiro à Argentina, informou-nos que esses furos das chedas são em sua zona chamados escopladura pelos carpinteiros. Mais uma palavra castelhana, ou seja — escopleadura  ou escopladura, que atravessou a fronteira e, aportuguesada, passou a dominar em território brasileiro.

4. Muchacho é vocábulo castelhano que, como tantos outros, atravessou, a fronteira para designar o mesmo acessório da carreta. Como no Rio Grande do Sul, na Argentina e no Uruguai há o muchacho delantero e o trasero. Ver Bartolomé J. Ronco. Op. cit. Valter Spalding afirma que na região serrana não é conhecida a palavra muchacho; chamam pontalete.

5. Mata-boi é platinismo. [...] Mata-boi em outros estados do Brasil tem sentido inteiramente diferente.

6. Consultados vários confrades do Rio Grande do Sul a respeito da cobertura da carreta, tivemos informes discordantes; Valter Spalding diz que lona e tábua só se usam nas colônias estrangeiras e que a cobertura de zinco é luxo pouco usado e bem moderno; Luís Carlos de Morais, entretanto, diz que não é raro o fato de ser a carreta coberta com zinco, sendo esta muito comum na região missioneira, onde essas carretas são empregadas no transporte de erva-mate. Confirmando este informe, escreveu Contreiras Rodrigues: "Na fronteira do Sul são mais comuns as toldas de zinco, que conheço desde a infância. Ali não há tolda de lona para a carreta e sim para grandes carroças puxadas por cavalos, em geral dez

7. Primitivamente as toldas eram de couro, como de couro eram as portas das casas e quantos outros utensílios.

8. Entretanto tivemos informação de que o angico é preferido porque tais arcos de circunferência se moldam mais facilmente nas voltas naturais da madeira.

9. Contreiras Rodrigues informa que se pode considerar doze raios como o máximo e que dezesseis é exagerado.

10. A chapa, na fronteira do Sul, se chama também joato, por influência platina. 

11. Segundo informam L. Carlos de Morais e Contreiras Rodrigues o combustível mais usual na Campanha para esse ofício é o excremento bovino ou eqüino bastante seco o qual produz muitas calorias.

12. Denominam estas cavidades empulgueiras ou impulgueiras.

13. As alturas aqui referidas são de carretas destoldadas.

14. A propósito do termo carretinha, informou-nos Contreiras Rodrigues: carretinha, no sul do Rio Grande, significou, principalmente no tempo das diligências, antes dos breques, uma carruagem feita de tábuas, toda fechada, com duas janelas de guilhotina de cada lado, com assentos laterais fronteiros, de duas rodas, dois cabeçalhos paralelos, entre os quais se atrelava um cavalo. Servia para condução particular das famílias dos estancieiros. Depois apareceram os breques de quatro rodas, toldados e forrados de couro da Rússia (sola preta). Alguns chamavam carretilha a esse veículo puxado por cavalos, geralmente três e, em grandes viagens, com mudas por diante. Provavelmente é a uma dessas carretilhas a que se refere Valter Spalding quando diz que o bravo general Osório, na guerra do Paraguai, usava uma delas e que teve oportunidade de ver uma toda revestida de madeira e pintada que pertencera à família do grande brasileiro. O nome carretinha designa, no sul da Mato Grosso, uma carroça puxada por um só boi colocado entre dois varais. (Informação de Aral Moreira, de Ponta-Porã)

15. Os nomes pértigo, lhanta e bucha são platinismos registrados no Vocabulário de la carreta criolla, de Bartolomé J. Ronco.

16. Observou Contreiras Rodrigues que as carretilhas foram substituídas pelos breques e carrinhos de quadro rodas. A multiplicação das diligências, que só eram usadas por empresas de transporte de passageiros, também contribuiu para o desaparecimento das carretilhas que eram veículos particulares. A diligência era uma carretilha grande, forrada e ladeada de tábuas, com janelinhas, estribo para subir e assentos laterais fronteiriços. Só diferia era que em vez de duas rodas, tinha quatro e em vez de varas, tinha lança e era puxada por dez cavalos e um quarteador na frente para dar-lhe a direção.

 

(Souza, Bernardino José de. "A carreta do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso". Província de São Pedro. Porto Alegre, Livraria do Globo, nº 6, 1946, p.25-30)
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