Os pais transmitem aos filhos o difícil manuseio do “canivete de roca” e do enxogoiva no litoral norte de São Paulo.
Até há poucos anos era o artesanato, principalmente o de Ubatuba, uma indústria caseira. Fabricavam os artesãos exclusivamente os utensílios que tivessem utilização doméstica. Quando muito produziam algumas peças pedidas para amigos ou turistas.
Hoje [1964], contudo, graças ao serviço de artesanato da Prefeitura de Ubatuba, os artesãos se dedicam à fabricação de samburás, redes, balaios, jacás, peneiras, gaiolas, abajures, pilões, floreiras, castiçais, gamelas, tipitis, miniaturas, oratórios, chapéus, cestas, auferindo bons lucros.
Os objetos expostos no Serviço de Artesanato traduzem, inequivocadamente, a grande habilidade dos habitantes das praias e dos sertões do litoral, revelando verdadeiros artistas.
Isolados em regiões inóspitas estes caiçaras-artistas não sofreram a influência da industrialização. Mantiveram seus costumes e graças ao anonimato, sua arte é de fato popular. O serviço de Artesanato mantém acertadamente os artesãos no anonimato, para que não percam esta pureza folclórica evidenciada nos seus trabalhos, embora assista e incentive os valores artísticos.
Um artista
Se o anonimato preserva a pureza dos artesãos, um deles atrai a atenção de todos que visitam o distante bairro de Sertão da Quina. Além de ser um grande artífice e o símbolo dos artesãos de Ubatuba. Chama-se Vicente. Devido a uma enfermidade, quando ainda ensaiava os primeiros passos, não cresceu. Mede uns 80 centímetros. Suas pernas, os braços e o próprio tronco não tiveram desenvolvimento normal.
Isso confinou-o a viver em uma pequena cama de onde nunca sai. O pai de Vicente era um grande artesão e lhe ensinou a arte. Este, deitado trabalha de manhã à noite confeccionando chapéus, esteiras, redes, samburás, castiçais e vários outros objetos, que são disputados pelos turistas. De modo particular os chapéus de timbopeva, são de uma perfeição e beleza digna de nota.
Materiais
Com as madeiras caxeta, guirana, urucurana e ubá, fazem gamelas, pilões, miniaturas e figuras. Com as fibras de bananeira, de timbopeva, taquarassu, taquara penina, tiririca, palha de costeira, imbé e brejaúva, fabricam chapéus, samburás, peneiras, redes, esteiras, jacás e muitos outros utensílios. Usam ainda conchas, xaxim, ferro e barro para produzirem os mais variados objetos.