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Novembro 2005 - nº 84 - Ano VIII


Sumário

Festança

Festejos de pescadores
Carl Seidler

Foiçada

Quermesse de partido
C. Nery Camelo

Cancioneiro

Trovas funerárias ciganas (Merendis), colhidas por Melo Morais Filho

O preguiçoso, duas versões do folclore sergipano

Milho cozido
Afonso A. de Freitas

Imaginário

Novos casos do Romualdo
João Simões Lopes Neto

Divindades, bichos e assombrações da ribeira
Wilson Lins

O cágado e o gambá
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Da pesca do Piri
Yves d'Evreux

Fabrico do vinho
Antônio Egídio Martins

A mandioca
Marina de Andrade Marconi

Oficina

Mascates
Mário Sette

A armação das baleias
Carl Seidler

Artesanato caiçara recobra suas forças

Palhoça

A carreta do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso
Bernardino José de Souza

Da nudez dos índios tupinambás e dos enfeites que usam algumas vezes
Claude d'Abbeville

Os barranqueiros do São Francisco
Joaquim Ribeiro

Panacéia

O mundo mítico dos sertanejos
Joaquim Ribeiro

Epitáfios folclóricos
Luiz R. de Almeida

Da morte e dos funerais dos índios
Yves d'Evreux

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Quermesse de partido

C. Nery Camelo

O professor José de Alencar Bezerra, homem dotado de brilhante inteligência, embora privado do sentido da visão, e também um fervoroso adepto do nosso folclore. Ele ouve sempre com muita atenção e grande interesse, tudo o que qualquer estudioso, ou, mesmo, simples observador, lhe transmite, em palestras, a respeito dos costumes do nosso povo, das nossas tradições, usos, linguajar, gíria etc.

Victor Hugo — o homem de Deus, como chamou Carlos Cavaco — disse: "Nós temos o olho visível que é a pupila e o olho invisível que é o espírito.

Pois é através desse olho invisível que Alencar Bezerra vê, fixa e descreve, todas essas coisas belas que dizem respeito ao nosso folclore, focalizando-as depois de uma maneira precisa e admirável.

Uma prova irrefutável do que afirmamos está na descrição que ele faz da quermesse de partido, trabalho modesto, mas sincero e que, honestamente, apresenta ao V Congresso Brasileiro de Folclore, ora reunido em Fortaleza.

A quermesse é uma tradição que nos legou Portugal, onde ainda hoje tem o sentido de festa de caridade ao ar livre conforme nos ensina Ajime de Seguier, no seu Dicionário prático ilustrado.

Essas festas, com todas as características que encontramos na descrição do professor Jose de Alencar Bezerra realizam-se, em geral, no adro das igrejas, durante o Novenário em honra do padroeiro ou de qualquer outro santo, nas cidades do interior nordestino. Têm a denominação de Quermesse. O acréscimo dos termos — de partido, não é generalizado, circunscrevendo-se, certamente, a área visitada pelo confrade Alencar Bezerra, na região limítrofe do Ceará com o Piauí, abrangendo os municípios de Campos Sales, Pio IX e outras.

O certo porém, é que nessas quermesses, formam-se realmente, partido azul, partido encarnado — cujos adeptos chegam até a eleger suas rainhas.

Conforme acentua o professor Alencar todas as camadas sociais tomam parte na festa. Os grandes comerciantes e fazendeiros compram prendas nas barracas ou tomam parte nos restaurantes. As senhoras geralmente tomam parte em bancas de comidas, bolos, doces e guloseimas. As moças e rapazes participam confeccionando bandeiras e emblemas e desfilando, fantasiadas no cordão. O povo em geral veste a sua melhor roupa.

Não resta a menor dúvida de que o trabalho do professor José de Alencar Bezerra, cego como Aderaldo, do qual muito nos orgulhamos, representa uma interessante contribuição a este V Congresso Brasileiro de Folclore, merecendo por isso, a atenção dos ilustres membros desse magnífico conclave, que, ora, se realiza em nossa capital.

Camelo, C. Nery. "Quermesse de partido". Unitário. Fortaleza, 28 de julho de 1963)
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