Para ao menos nos distrairmos um pouco e escapar um tanto aos mil aborrecimentos da Armação travamos relações com os numerosos pescadores, que duas a três vezes por semana vinham até cá para nos abastecerem do que o mar oferece de saboroso, e acabamos por prometer de visitá-los em suas aldeias. Com três amigos em igual disposição montei a cavalo nesse propósito e nos encaminhamos para uma baía que nos fora indicada a 3 léguas (as cartas não a mencionam), onde havia diversos ranchos dispersos, que em parte serviam de morada a nossos novos conhecidos. Desconhecendo o caminho e retardados pela estrada íngreme, que tínhamos que ir trepando, só chegamos a destino depois da meia-noite. Sem cerimônia batemos à primeira porta, dissemos que éramos oficiais alemães e gracejando pedimos que nos abrissem ou então nos indicassem a casa do pescador aqui residente, cujo nome declinamos. Por acaso o rancho era do filho desse homem que procurávamos, e o rapaz, declarando estar a par dos nossos heroísmos (coisas de que não sei) não nos deixou em paz enquanto não apeamos e nos dispusemos a passar o resto da noite em casa dele. A jovem esposa, em adiantado estado de gravidez, imediatamente teve que cozinhar e assar peixes para nós — como vamos ver alimento exclusivo dessa gente — e trazer a competente aguardente de cana; e o marido como possesso foi percorrer as outras casas, a despertar os moradores e convidá-los a irem passar a noite a bailar na casa dele.
Não decorrera meia hora, começaram a aparecer homens, mulheres e raparigas, todos em traje noturno, com muitas fitas multicores e todos ao que parece muito contentes com a nossa visita noturna. Por fim regressou também o dono da casa, acompanhado dumas dez raparigas levianas e levemente vestidas e um espanhol desgarrado, no qual bem se adivinhava pelos olhos a nadarem num luar escuro o alcoviteiro e bandido. Trazia ele um velho mandolim francês, muito remendado, com o qual pretendia depois acompanhar o canto, ou antes o choro das mulheres velhas, durante as danças.
A princípio tudo estava meio rígido e cerimonioso, somente nós alemães palestrávamos e nos distraíamos desembaraçadamente com o sexo às vezes não belo; os brasileiros se conservavam "como se não soubessem abrir a boca e não quisessem dar palavra ao próximo". Mas depois de esvaziadas diversas garrafas de cachaça, repentinamente desembaraçou-se a língua aos homens e à mulheres, de tal maneira que ao mais calmo observador pareceria que queriam depressa ressarcir o tempo perdido. Devia começar o baile: convidou-se o espanhol naufragado a que afinasse o seu instrumento, mas oh! desgraça! ou felicidade — faltavam dois terços das palradoras cordas. Enxameiam imediatamente emissários por toda a aldeia à cata de cordas, inteiras ou não, de todas as guitarras, e com isso acabou-se por arranjar uma coisa que quase possuía os sons de instrumento musical. A falar em voz alta, exultantes, os convivas se dispõem em duas fileiras e começa o baile mais indecente que jamais eu tive a honra de ver, ao som harmonioso daquele infernal moinho de café, acompanhado por palminhas das damas e seu cantante vozerio. As mais repugnantes contrações musculares, obscenidades murmuradas em voz baixa ou cantadas alto ao compasso da música, contatos cadenciados e nojentas concretizações de atitudes dos mais lúbricos desejos, caracterizavam todos os movimentos. Uma européia teria corado de vergonha à contemplação de tais cenas, mas as nossas belas, divertidas filhas de pescadores, parece que não achavam, apenas sentiam extraordinária cócega e grande prazer naquele folguedo reles. Naturalmente não tardou que nós nos sentíssemos em extremo entediados com a coisa, pois nenhum de nós se sentia tentado a tomar parte naquele divertimento imoral, naquele barbaresco dispêndio de esforços, além de que nos sentíamos muito fatigados da penosa cavalgada. Por isso pela madrugada nos estendemos sobre a grande cama de casal existente na sala do baile e sem embargo do barulho dormimos ainda alguns minutos bem descansadamente. Estava alto o sol quando nos despertaram para tomar café e o louco escândalo continuou até que fosse servido almoço, que, como o jantar e a ceia, era constituído unicamente de peixe.
De como estes “inocentes filhos da natureza” têm cordial prazer de dar o pouco que possuem prova-o o fato de que depois de cada um de nós ter tomado a custo cinco xícaras de café, ainda nos obrigam a tomar mais outra. Verdade é que o café e o açúcar, a cachaça e o peixe, tudo eram artigos de que cada qual plantava ou colhia quanto necessitasse e que não lhe custasse dispêndio de dinheiro — coisa aqui inexistente — contudo a presteza com que ofereciam tudo quanto possuím era segura da sua hospitalidade, traço essencial do caráter desses felizes praieiros.
Apesar da gentileza dessa boa gente não podíamos ocultar mutuamente que tínhamos saído da chuva para o aguaceiro, pelo que ardentemente almejávamos uma oportunidade de sair da sala sem sermos vistos e irmos embora. Mas perceberam nossos olhares, adivinharam nossos pensamentos.
Quase chorando o ultra-amável dono da casa nos pediu que pelo menos este dia ainda passássemos em sua humilde choupana, principalmente porque ainda não víramos seu velho pai, por quem afinal de contas tínhamos empreendido a viagem; toda a companhia secundou a sua súplica, lamentando que não tivessem podido obsequiar-nos com melhores comidas e bebidas; e diversos moços se ofereceram para ir imediatamente à povoação mais próxima, distante quatro léguas em busca do que desejássemos. Em resumo, para nos mostrarmos cristãos, como a desculpa de que o serviço reclamava nossa presença não merecia crédito, tivemos que tomar a heróica resolução de acompanhar a pagodeira até ao outro dia. Demais, tinham usado de um ardil, enquanto se discutia se ficaríamos ou não: tiraram nossos cavalos da estrebaria e levaram-nos para local que ignorávamos, de modo que ficamos sem meios para fugir secretamente.
Depois do almoço apareceu finalmente o muito esperado velho; vinha endomingado e em companhia de diversas raparigas enfeitadas festivamente e visivelmente ansiosas de amor. Recomeçou a bacanal e por mais que pretendêssemos novamente ser meros espectadores do mistério, fomos ostensivamente provocados pelas damas pescadoras, dentre elas algumas ondinas bem tentadoras, e mais não pudemos resistir a também tomar parte. Havíamos de parecer divertidos ao girarmos em uniforme imperial no meio das raparigas meio nuas, a imitar os movimentos e as gesticulações simiescas dos brasileiros; e por mais desajeitados que fôssemos nos, diversos jeitos e trejeitos do corpo, parece que as suarentas brasileiras muito se agradavam de nós, pois quase todas ao mesmo tempo queriam dançar conosco. O espanhol tratava seu mandolim inválido com uma modelar resistência; a terra tornou-se mar e no turbilhão da ebriedade poduzida pela cachaça as sereias do meio dos caniços subiam ao carro de coral a puxar para o fundo, ao voluptuoso leito, o ansioso cavaleiro.
Pelas onze horas o velho insistiu que o acompanhássemos à casa dele para lá tomarmos outro almoço. Sabíamos de antemão que consistiria de peixe e cachaça, e cachaça e peixe, mas de bom grado acedemos para pelo menos por algum tempo escaparmos ao calor sufocante, à nuvem de pó e de fumaça de cigarros que na acanhada sala produzia obscuridade egípcia. Mal de regresso desse almoço, já era posta a gigantesca mesa para o jantar na casa do nosso anfitrião, onde novamente nos apresentaram talvez umas vinte variedades de peixes e moluscos, mas nenhum legume, e em vez de pão um pouco de farinha de mandioca. Não nos era possível comer coisa alguma, o que porém não atribuíam à grande quantidade que já comêramos, mas sim ao nosso delicado paladar, que, como diziam, estava mal habituado com lagarto e carne de rês. Os brasileiros em geral são muito comedores e depois duma refeição mal gastam uma hora para digestão, para poderem recomeçar; o mesmo esperavam de nós e por isso sem cessar lastimavam que não pudessem melhor regalar-nos (sic).
Para horror nosso logo depois da mesa começou de novo a dança de São Guido e às quatro em ponto outra vez a. horrível festa da consumação.
Sob incessante comer, beber, palrar, namoriscar, tontura, enjôo e dança prosseguiu essa orgia transatlântica, até que no outro dia soou a hora da redenção. Grande parte dos convivas, tendo cozinhado a bebedeira com nova bebedeira, nos acompanharam boa meia légua, e especialmente entre o pessoal feminino notamos muitas que à despedida tinham os olhos escuros rasos d’água. Pobres ondinas!
Todos os homens nos prometeram que brevemente com suas filhas nos retribuiriam a visita e ainda nos gritaram um “Deus guarde os senhores!” (sic); cravamos as esporas nos flancos dos cavalos e como relâmpagos desaparecemos atrás dos montes. Depois continuamos a princípio lentamente e calados, cada qual tinha bastante que refletir sobre o que acabara de passar; mas depois, de repente, como se tivéssemos combinado, explodimos em gargalhadas, cada um contando suas conversas com as damas pescadoras, em geral bastante ridículas, e só quando mais tarde avistamos de novo a residência dos ratos, pulgas e bichos de pé, dissipou-se o nosso bom humor, substituído pelo pressentimento angustiante do tédio.
[1824-1834]
Nota de Rubens Borba de Morais à terceira edição de Dez anos no Brasil:
"Entre os livros estrangeiros sobre o nosso país existem alguns que foram escritos mais com o intuito de atacar e desmoralizar que criticar imparcialmente o Brasil. Muitos já foram traduzidos e publicados e não deixaram de provocar, como é compreensível, uma certa reação da parte do grande público nem sempre possuidor de serenidade e espírito crítico suficiente para ouvir uma opinião maldosa, analisá-la e destruí-la com argumentos sérios e desapaixonados. O próprio do homem superior, isento de complexo de inferioridade, é ouvir a crítica, mesmo infundada, sem se alterar.
Muitos desses livros não deixam de ter o seu interesse. Nem tudo neles é diatribe. Há sempre muito ensinamento útil e, quando escritos no século passado, retratam usos abolidos, hábitos e situações posteriormente corrigidas. São documentos históricos que, comentados com critério, têm um valor muito grande para o estudo da nossa evolução.
O livro de Carl Seidler cabe, certamente, nessa categoria. O seu autor, aventureiro alemão, vindo ao Brasil com intuito de fazer fortuna rápida, aqui chegando viu seus sonhos desfeitos. De volta à terra natal escreveu um livro cheio de animosidade sobre o país que não o tornara milionário…
Mas nem tudo no livro de Seidler é mentira e animosidade. Muita cousa há que, vista hoje em dia, com a perspectiva de um século, retrata a época tumultuosa da formação de nossa nacionalidade. É preciso, entretanto, que seja criticado com conhecimento dos fatos relatados e traduzidos com exatidão (…)"