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Basílio de Magalhães

Guilherme Santos Neves

Artigo publicado em A Gazeta, Vitória, por ocasião da morte de Basílio de Magalhães

 

E a ciência folclórica no Brasil, acaba de perder uma das suas mais eminentes figures, com o falecimento do venerando folclorista Basílio de Magalhães.

A notícia me foi dada através de um registro do meu prezado amigo Mesquita Neta, em sua seção “Hoje”, edição de 10 do corrente.

Nascido em Minas Gerais a 7 de julho de 1874, Basílio de Magalhães de há muito se vinha dedicando aos estudos do populário nacional que ele conhecia a fundo, como o comprova sua vasta obra reunida em livros ou dispersa em jornais e revistas. Seu livro mais conhecido nesse setor cultural é, sem dúvida, O folclore no Brasil (Rio de Janeiro, 1939), no qual publicando uma coleção de contos populares organizada por João da Silva Campos, lhe acrescenta inúmeras notas de marcante erudição, além do esboço histórico dos estudos do folclore em nosso país. Esse livro constitui, também, a primeira tentativa séria na divulgação da bibliografia folclórica brasileira, reunindo ali o maior rol de fontes nacionais em tal sentido.

Outra obra de Basílio de Magalhães é a que ele escreveu para a Coleção Brasiliana da Companhia Editora Nacional (5ª serie, volume 171), O café; na historia, no folclore e nas belas-artes. Na terceira parte desse interessante livro, estuda o consagrado autor: O café no lendário oriental, no lendário ocidental, no lendário americano e no lendário brasileiro. Este último capítulo compreende: Lendas de fundo histórico, Lendas políticas, O café na medicina e nas superstições, O café na poesia popular e o café no anedotário brasileiro.

Nas paginas da antiga  revista Cultura Política, divulgou Basílio de Magalhães na seção “O povo brasileiro através do folclore”, número inumerável de artigos, estudos e ensaios, focalizando vários aspectos do populário nacional: lendas e mitos, poesia e música do povo, coreografia folclórica, folclore místico-religioso, festas e folguedos populares, folclore do negro, folclore geográfico-econômico, folclore poético-político etc. etc. — as paginas que valorizavam sempre aquela revista (que o DIP infelizmente controlava).

Todo esse acervo de estudos folclóricos aí publicados — tão ricos de informações preciosas — bem poderiam ser reunidos em livro — sugestão que se deve em primeira mão, a mestre Câmara Cascudo, como nos informa o próprio Basílio de Magalhães (cfr. Cultura Política, abril de 1942, nº 4, p.208): “É bem provável que seja oportunamente atendido  Luís da Câmara Cascudo, quanto a serem estes meus artigos (naturalmente revistos e melhorados), compaginados em volume, como repositório de matéria-prima oferecida ao exame e crítica dos doutos em assunto que tão de perto fala às nossas tradições, isto é, as verdadeiras raízes da alma e do caráter do povo brasileiro”.

Infelizmente, não pôde o ilustre folclorista mineiro ver realizado esse desejo, o que não impede seja o valioso material aproveitado e publicado ainda, quer pela Editora Epasa (a que ele prestou sua colaboração inestimável), quer pelo Governo Federal, ou pelo Governo de Minas que, assim, prestariam a memória do insígne polígrafo brasileiro, a devida homenagem de sua reverência e gratidão.

Mas não apenas na seara do folclore era senhor e mestre Basílio de Magalhães.

Poliglota emérito, investigador, paciente e sábio de outros setores de nossa cultura dedicou ele muito de sua inteligência e do seu tempo, tendo publicado na Coleção Brasiliana, Expansão geográfica do Brasil colonial, Estudos da história do Brasil e História do comércio, indústria e agricultura.

Tal foi a importância que a crítica atribuiu ao primeiro desses livros, que, mais tarde, esgotada a edição, dela tirou outra, corrigida e ampliada, a Editora Enasa do Rio de Janeiro (1944), incluindo-a como volume V da Biblioteca Brasileira de Cultura.

A Basílio de Magalhães já havia sido conferida a direção dessa biblioteca, tendo ele apresentado e anotado os livros Viagem na América Meridional, de Condamine, Villegagnon, de M. T. Alves Nogueira, e Uma festa brasileira, de Ferdinand Denis.

Este o polígrafo que o Brasil acaba de perder, desfalcando-se, com o seu desaparecimento, os estudos históricos e demológicos de um dos seus mais cultos e eminentes mestres.

Ao registrarmos aqui esta breve nota sobre Basílio de Magalhães, queremos também prestar nossa reverência ao nome ilustre sob tantos títulos, ao mesmo passo que enviamos o nosso pesar a Comissão Nacional de Folclore, da qual era ele um dos mais queridos e preclaros integrantes.

 

(Neves, Guilherme Santos. "Basílio de Magalhães". A Gazeta. Vitória, 27 de dezembro de 1957)
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