Na Carta do folclore brasileiro, expedida pela Comissão Nacional da UNESCO, sob a presidência do musicólogo Renato de Almeida e da secretária-geral, Cecília Meireles, aconselham "O estudo da vida popular em toda a sua plenitude". Essa carta, dentro dos seus vinte e quatro itens muito bem elaborados, lêem-se diretivas e sugestões de alto valor técnico. Como, por estas bandas, não é fácil promover-se uma pesquisa coletiva, dada a falta de elementos especializados no assunto, fazemo-la sob o controle imediato de alguns bons livros, revistas e correspondências.
Um dos folclores exóticos e pouco explorados da Bahia, é o da sentinela, ou guarda aos mortos.
Em Jussara, povoado de Pirangi, certo homem falecera devido ao coice de um burro. À hora da sentinela, como é costume, as "tiranas" eram improvisadas em torno do assunto com a mesma toada da reza:
— De que foi que este homem morreu!
A viúva, chorosa, responde também cantando voz fanhosa, de portamentos:
— Não foi da morte de Deu (Deus)
No pasto de Zé Calazans
Meu "irimão".
De um coice que o burro lhe deu...
E assim vão tirando as rimas, ora dialogadas, ora em coro, todas dentro do assunto do trabalho, da doença, da família, dos pertences do ultimado.
No povoado Riacho de Santana, em Bom Jesus da Lapa, no ano de 1935, um dos nossos alunos presenciou uma "fuzarca" de comes-e-bebes, pulos jocosos enguiçando o morto... Traziam às mãos garrafas de cachaça que iam emboreando... enquanto o "rapapé" avançava...
Em outras ocasiões, a sentinela muda a feição para algo burlesco, de festança comum. Um dos compadres observa que a viúva é ainda moça e bonita e improvisa.
— Minha comade, seu marido morreu.
E a senhora vai ficá sozinha...
Se a senhora resolve a se casá, minha comade,
A premera preferença é minha...
Naturalmente como era de esperar, o grupo fica assanhado e a viúva responde, também na toada:
— Meu compade, qui conversa é essa?..
Isso fica entre nós dois
Se eu resolve a me casá, meu compade.
Eu mando li avisá depois...
Essas velhas rezadeiras, fizera como as carpideiras orientais. Choram em angustiados prantos e a viúva tem obrigação de acompanhá-las com redobrado sentimento.
O compadre afoito com a ardência da "chanha" (cachaça) conclui que tudo é oportuno e continua, pretendendo ser discreto:
— Chora, minha comade,
Chora, chora, bem chorado.
Qui eu meco é bem medido
E carculo bem carculado..."
A essa espécie de desafio, o grupo torce e aplaude... Acontece que alguém querendo poupar à viúva desagrados maiores, dada a ênfase com que o compadre namorador vai improvisando numa toada sensível, muda repentinamente o assunto, dirigindo ao defunto, também na mesma toada:
— A missa do padre eterno
Tu não queria ouvi
Quando levantava a hóstia
Tu já queria saí...
Eu te dava meu jejum,
Tu não queria fazê...
Quando o dia ia maicendo
Tu já queria cama...
Eu te dava meu consolo
Tu não queria tomá
Eu te dava era pro bem
Tu tomava era pro má.
Com a mudança de "temperatura", cria-se uma espécie de pavor e piedade pelo destino da alma do morto... As rezadeiras, benzendo-se, ajoelham-se em roda de "heraje", — uma vez que os seus pecados mortais ficaram à mostra — e outras oferecem às pessoas da familia, por preço baratinho, a reza de tantos rosários... em favor da alma desgraçada.
* * *
Chega até à sala um cheiro dos acepipes que se preparam na cozinha... E daí a pouco, improvisam-se mesas, ali mesmo em redor do cadáver e começa uma comenzana regada a muito dendê e molho de pimenta. Depois de fartos, a conversa animada parece uma feira... Mas a comadre mais religiosa, persigna-se e canta:
"São Migueli, São Migueli.
Toma esta arma qui eu te dou século...
As horas parece cerco
Que esta arma já penou..."
Outra comadre, faz como se São Miguel respondesse:
"O de casa, o de fora,
O inferno istremeceu...
Eu vim buscá esta arma
Que é dá Virge mãe di Deu..."
Um desses gaiatos que sempre aparecem nessas ocasiões para cujos espíritos não existe, a serieda, puxa o xale de umas das velhas. E, cantando ela reclama:
— Diabo, sorta meu xale...
A companheira, alarmada, visto o nome do inimigo ser pronunciado no meio da reza, canta:
— Comadre, o que é isto?
Ela cantando, diz com a maior naturalidade:
— Eu faço assim pra não perdê o som da reza....
Na fazenda Santa Rosa, próximo a Jequié, morreu uma criança filha de um dos agregados. A sentinela "do anjo", dá a tristeza da família, começou lúgubre. Em dado momento, entra um compadre com um pandeiro e, em ritmo de samba, começa, dançando e cantando:
"A mãe do anjo é balaio de fulô.
É balaio de fulô
É balaio de fulô"
O pai repreende o velho mineiro, aborrecido com aquele disparate, e o homem desculpa-se assim:
— Lá em Minas, nós fais alegre a sentinela de anjo...
Na tribo dos kraós, no interior do Maranhão, a noite inteira de sentinela eles pranteam o morto, com muito mais seriedade que no sertão. Fazem uma roda com o cadáver nos braços e cantam, monótona e repetidamente:
"Acabou-se, acabou-se, não te vejo mais..."
Ainda no derradeiro quartel do século XVIII, os colonizadores ingleses, então sob a bandeira recente da independência viram-se a braços idênticos e interessantes costumes. Uma amiga norte-americana, relatou um caso que se passara com o seu pai quando menino: irlandeses vizinhos iniciaram certa noite um wake, isto é, uma sentinela e que no sul do Brasil também chamam de guardamento. Levado pela curiosidade infantil, o rapazito fugiu de casa para observar, de perto, a aglomeração barulhenta. O grupo começou cantando, depois bebendo e comendo, e em seguida levou o morto para o "seu último passeio". Colocando-o numa carroça, preso a uma cadeira e com um grande cachimbo à boca, a turma enorme redobra as cantinelas e os ditos chistosos, puxando o veículo até a disparada... Na metade do caminho, notaram que o morto não estava... Que medo sentiram os supersticiosos... O menino observara que o corpo tombara na estrada e somente agora, cessada a algazarra podia avisá-los. Pela madrugada, satisfeita a febril curiosidade, quando o menino voltou. O "rabo de tatu" que o esperava, completou a façanha...
Não se diga, pois, que essas usanças sejam apenas do povo brasileiro... O folclore vem de muito longe... pois até o maracatu, segundo o estudioso Roger Bastide, "é uma antiga dança de nações".
Vale o gosto da pesquisa mesmo não sendo uma fórmula essencialmente original. O estudo, pela sua natureza variada é atraente.