Os índios kaingangs da reserva de Xanxerê reviveram uma velha prática cultural da nação a que pertencem, trata-se do fandango ou kiki como eles a denominam e que é uma homenagem aos mortos praticada através de danças, ritos e orações.
Numa noite fria de inverno, dezenas de índios se reuniram durante 24 horas para ressuscitarem o ritual do
kiki e de outras práticas culturais. Estas culturas nunca foram revividas face à presença dos intrusos em seu território e que sempre cercearam o desejo dos índios de homenagear os seus mortos. E isto só é possível com a ajuda do Conselho Indígenista Missionário – Cimi, órgão da
igreja católica que ofereceu ao índio todas as condições para que ele pudesse relembrar seus antepassados.
Cultura morta
A afirmação de que a cultura do kaingang estava morta e que já não mais possuía os laços culturais e sociais que o caracterizavam como um povo diferente dentro da sociedade brasileira, está sendo desmentida por antropólogos e sociólogos que afirmam que o elemento religioso continua sendo ainda o suporte para a manutenção da cultura herdada de seus antepassados. Esta suposição era baseada no fato de que que a sua submissão ao elemento branco invasor de suas terras, envolvendo zombarias, humilhações e trabalho forçado, estava, inconscientemente, levando o índio a perder a sua própria cultura e sua identidade étnica.
Essa tomada de consciência dos índios para renascer a sua cultura foi fruto do trabalho dos missionários do Cimi e de uma equipe pastoral indígena da paróquia de Xanxerê, apoiados pela direção do posto.
Na aldeia do Pinhalzinho, os índios iniciaram os contatos para localizar os elementos necessários à realização do ritual. Após um levantamento feito entre os sacerdotes da tribo, foram realizadas várias reuniões a fim de ultimar os detalhes para a realização do
kiki.
O que é o kiki
O ritual do kiki era feito pelos índios anualmente durante a época da colheita do milho verde e início do amadurecimento dos pinhões. A iniciativa de sua realização sempre partia das famílias, principalmente quando algum membro havia falecido naquele período. Então toda a comunidade se reunia e rezava para que o espírito do falecido alcançasse "um bom destino" e se afastasse do seio indígena "para não fazer mal às pessoas".
Para que isso fosse feito, os índios faziam a limpeza do cemitério, e em seguida realizavam o cerimonial com danças e orações colocando um ramo de pinheiro nos túmulos de seus antepassados. Durante a noite, os sacerdotes iam ao encontro das turmas que chegavam de outros lugares dividindo-se, em seguida, em duas equipes denominadas Kamê e Hanhru e se dirigiam para o local onde se encontravam acesos os
pi (fogos). Durante esse percurso, os sacerdotes cantavam orações e ao chegar ao local faziam círculos ao redor do fogo. Cada metade das turmas recebia uma determinada quantia de tochas acesas. Esta divisão era feita através de folha de xaxim e que também servia de assento aos índios. Durante toda a noite, eram feitas algumas orações intercaladas, sob forma de desafios. Os fogos também eram aproveitados para assar pinhão e milho verde. No dia seguinte os índios retornavam ao cemitério onde era feita novamente uma dança ao redor do fogo no qual os participantes se enfeitavam e carregavam galhos de árvores.
Guarapa kiki
A guarapa é uma bebida de grande importância para os índios e toda a sua expressão cultural é baseada nesse nome. A guarapa kiki é feita da seguinte forma: ao tomar-se um tronco de pinheiro, cava-se a sua parte interna formando um cocho onde são depositados o goio (água) e o mel, deixando-se fermentar durante 30 dias. Atualmente face à carência de mel silvestre na região, os índios utilizam açúcar adicionando um pouco de cachaça. Essa bebida de pequeno teor alcoólico, traz a alegria e animação de todos os índios.
O kiki é servido em quantia moderada no caminho para o cemitério e em grande quantidade quando os índios chegam ao seu local. Ali mesmo os indígenas ingerem toda a bebida até chegar a "sagrada embriaguês" que é uma reação coletiva contra o poder sobrenatural dos defuntos. O fandango (denominação popular dada ao
kiki) só termina quando acabar a bebida. A duração do kiki depende da quantidade de bebida ingerida e do número de pessoas participantes. E para a realização desse ritual na aldeia do Pinhalzinho, foram utilizados aproximadamente 1.600 litros de água.
Sentido social
A prática do ritual do kiki significa para o índio um momento de confraternização entre os kaingangs que se deslocam de vários locais para permanecerem juntos durante as orações, danças e ritos.
Para os antropólogos esses sentimentos aparentemente contraditórios, com desafios de um lado e gesto de solidariedade de outro, fazem parte da própria estrutura do kiki. São por exemplo, o comportamento do pej integrante de uma equipe que serve os componentes da outra, o mesmo acontecendo durante a procissão para o cemitério, quando os kame carregam as cruzes e depois limpam os túmulos dos kanhru e vice-versa.
Na opinião de alguns índios, essas práticas culturais são realizadas com a finalidade de "desabafar no próprio idioma, todas as opressões e explorações a que somos submetidos pelo branco invasor de nossas terras, isto é uma prova de que as nossa tradições ainda estão vivas, apesar de tudo o que sofremos".
Repercussão
Segundo os missionáros do Cimi, "já no período de preparação do ritual kiki em Pinhalzinho, notou-se um ambiente de muito entusiasmo levando as pessoas dessa comunidade a se unirem em torno dessa realização. Na medida em que iam se desenvolvendo os preparativos para o ritual, os índios com idade inferior a 20 anos, manifestavam grande curiosidade pela festa, já que não chegaram a prática do kiki, enquanto que os mais velhos aguardavam com muita expectativa, os momentos de reviverem com seus patrícios, as alegrias do ritual".
Outro motivo que muito nos chamou a atenção, foi a vinda de aproximadamente sessenta índios do posto indígena de Palmas, que se uniram em confraternização, o que aliás sempre foi o objetivo do kiki: o encontro dos índios de diversos lugares para juntos conversarem sobre sua vida, seus problemas e rezarem pelos seus mortos, através de danças e canções.
Salientaram que "o ressurgimento desta prática cultural está motivando os indígenas de outros postos a reviverem a prática do kiki. Assim é que os indígenas dos postos de Chapecó e Palmas já anunciaram o desejo de reviverem suas tradições culturais o que poderá ocorrer ainda este ano".