De muitos modos e maneiras o povo exprime a sua reverência aos mortos. Pobres e ricos, nas cidades populosas como nos lugarejos perdido do interior partilham das mesmas crenças e práticas, umas propiciatórias da última viagem, como o banho e, para os mais sofisticados, o embelezamento do morto, outras destinadas à preservação do cádaver com os pés na direção da porta da rua e a limpeza da casa logo após a saída do caixão – ou da rede. Mas, se o velório, a vigília à moda católica, tem apenas rezas, choros e bocejos, a guarda do morto, nas formas populares, tem a acompanhá-la cânticos especiais, quando não passatempos coletivos, a que não falta cachaça e café. Celebram-se ofícios fúnebres, desvinculados do catolicismo, para o defunto recente e para os mortos em geral, sem contar a festa muçulmuna de Penedo, Alagoas, descrita por Melo Morais Filho em começos do século, e hoje desaparecida. Procissões e cerimônias nos cemitérios à meia-noite, antecipam e multiplicam a romaria de Finados.
Costumes portugueses e africanos garantem aqueles que se foram desta para melhor. "Uma excelência / entrou no
paraíso..." E, se a "excelência" pertencia a algum candomblé, penetra na última morada dançando – o caixão em ziguezague, dois passos para a frente, um passo para trás, pois se sabe que voltará em breve com egun, materialização dos ancestrais do povo nagô, a participar da sociedade dos vivos.
Excelências e benditos
A guarda do defunto, em arraiais e vilas do Nordeste (de Alagoas ao Rio Grande do Norte) e do Centro-Sul (São Paulo), reúne parentes e amigos desde os primeiros momentos da agonia até a saída para o cemitério.
Um rezador ou uma rezadeira comanda as orações, que, além de terços e ladainhas, envolve excelências (incelenças) e benditos e, no caso de agonia prolongada, rezas de ajudar a morrer.
Para cantar as excelências, o rezador coloca-se aos pés do morto, que, com os pés dirigidos para a porta da rua, terá quatro velas em cruz em torno do seu corpo. Há excelências da hora (do falecimento), da roupa (que se veste no defunto), dele (em que se referem os olhos, os cabelos, a boca etc., do morto), da despedida... Cada excelência é entoada doze vezes, exceto a da mortalha, que se canta durante o tempo necessário a vestir o cadáver, como nestes exemplos:
Fulano
Te alevanta
Pra vesti
A derradeira camisa
Veste esta mortalha
Que Deus te mandô
Os versos da excelência são sempre os mesmos, mas os numerais se alteram para formar a seqüência:
Uma incelença
Foi quem mereceu
Palma, capela e fulô
Vai cantá mais os anjo
Lá no reino do Sinhó
Duas incelença... etc.
Para cantar os benditos, que se repetem sete vezes, o rezador coloca-se à cabeceira do defunto:
O rosaro de Maria
Tem um mistero da Paxão
A reza-de-defunto, arrastada e monótona, é regada a café e bolachas, quentão ou pinga para os presente, os sentinelas, que fazem coro ao rezador.
Terminado o enterro, a família oferece uma ceia aos sentinelas.
Gurufim
Já nas favelas da Guanabara e de São Paulo a guarda do morto inclui a brincadeira do gurufim, talvez corruptela de golfinho, que Luís da Câmara Cascudo relaciona ao delfim mediterrâneo que levava as almas dos mortos por mar para o outro mundo.
Lá pela meia-noite alguém começa:
Gurufim já não está aqui...
Gurufim foi pro alto-mar...
Os circunstantes respondem em coro:
Foi pro alto-mar...
Cada pessoa representa um peixe e, quando nomeada, responde, indicando outra:
– Gurufim tá com fome...
– Gurufim não come!
– Quem come então?
– Quem come é tubarão!
– Tubarão não come!
– Quem come então?
E assim, com intervalos de rodadas de pinga e café, os favelados cariocas e paulistas "distraem"o velório de amigos e conhecidos.
Axexê
No candomblé da Bahia as exéquias, axexê para os nagôs, sirrum (sihun) para os jejes, tem lugar na noite seguinte ao enterro, com os participantes vestidos de branco, em sinal (africano) de luto.
A mãe de santo amarra um fio de palha no pulso de cada pessoa que chega, para que nenhum mal a atinja durante as cerimônias. Embora portas e janelas estejam abertas, não se pode sair antes de terminado o ofício fúnebre.
No centro do barracão, sob a luz de duas grandes velas, já se encontram uma terrina com água um montículo de areia e pratos com animais sacrificados, galo (para homem) ou galinha (para mulher). Faz-se o despacho de exu e em seguida começam os cânticos, ritmados apenas pelo som abafado de cabaças cobertas de pano branco (em funeral). Não há possessão pelos orixás. Cada pessoa molha moedas na água da terrina e as deposita em seguida nos pratos vazios que estão ao lado dos objetos que simbolizam o morto. As sacerdotisas, (filhas de santo), individualmente, executam danças de despedida e, ao terminar, atiram um punhado de areia na água e na comida. Todos os membros da casa fazem então um círculo para que o morto dance com os seus confrades pela última vez.
Enquanto estas cerimônias se desenvolvem no barracão, os objetos que, no altar (peji) do candomblé, representavam o morto e a sua ligação com a casa de culto, terão sido ritualmente retirados e entregues a pessoas qualificadas, que os enterram ou lançam em algum curso d’água nessa mesma noite.
O candomblé funerário pode repetir-se sete dias, um mês e um ano após o falecimento ou celebrar-se sete anos seguidos. O axexê ou sirrum para os chefe de candomblé geralmente se estende por três noites consecutivas.
O batuque do Pará, talvez o rebento mais distante do candomblé da Bahia, realiza em homenagem aos seus mortos uma cerimônia simples, com os atabaques cobertos de pano preto – o tambor de choro.
Alinhadas almas
Os mortos são homenageados pela umbanda na linha das almas.
Em lugares públicos, e sobretudo no adro, à porta ou no interior das igrejas, milhares de velas ardem toda segunda-feira dia considerado das almas, umas dedicadas a parentes e amigos recentemente falecidos, a maioria invoncando a proteção dos mortos em geral. Muitas dessas velas serão de intenção católica, mas não há dúvida de que a devoção as almas, às segundas-feiras, se originou na umbanda.
Estão à frente da comunidade dos mortos os pretos velhos, escravos popularmente canonizados pelo sofrimento e pela bondade, como pai Joaquim, Maria Conga, o velho Lourenço, representados nas imagens da umbanda, de cabelos totalmente brancos ("negro quando pinta, três vezes trinta") arrimando a um bordão o corpo curvado pelos anos e pitando cachimbo.
Os cacarucai recebem o carinho público a treze de maio durante a exibição das suas relíquias – as ossadas desenterradas do antigo cemitério de escravos da Irmandade do Rosário – na igreja da Lampadosa.
Um exu especial, sem rabo, e por isso podendo sentar-se, o exu das almas, faz parte desta família (ou linha) de divindades da umbanda.
Em homenagem aos mortos outras velas ardem, às sextas-feiras, tanto nos portões como nos cruzeiros dos cemitérios, sobressaindo entre estes o de Irajá, onde, no primeiro e no último desses dias da semana, em cada mês, terreiros de macumba e tendas de
umbanda realizam cerimônias à meia-noite com a presença de exu
caveira, uma das manifestações do orixá Omolu.
Encomendação das almas
Em diversos lugarejos do estado de São Paulo uma procissão de penitentes reza em sufrágio das almas do purgatório nas sextas-feiras da Quaresma. É a encomendação (ou recomenda) das almas, costume herdado de Portugal.
Os participantes começam a sua piedosa caminhada por volta da meia-noite, ora amortalhados em lençóis, ora apenas com a cabeça coberta por um pano branco, levando nas mãos velas acesas. Um deles carrega, como se fora um estandarte, uma cruz. De vez em quando outros fazem soar a matraca ou o berra-boi, um pedaço de madeira atado a um cordel a que um movimento giratório no ar dá um som plangente e assustador, alertando os pecadores. São homens, em geral, os penitentes, mas em certos lugares mulheres, e mesmo crianças, tomam parte da procissão.
As ruas estarão desertas, as casas de portas e janelas fechadas, pois as almas do purgatório acompanham os seus devotos. Ninguém pode assistir, sem participar da procissão. Os penitentes param à porta das casas para pedir uma oração, que os moradores devem rezar, em voz alta, por trás de portas e janelas:
Peço que vós reze um Pade Nosso,
Pade Nossa e Ave Maria,
Prás arma toda em gerade (em geral)
Peço pelo amô de Deus, ai
As rezas pelas almas do purgatório são mais demoradas, com terços e ladainhas no portão do cemitério e nos cruzeiros do lugar.
Egun
Os descendentes de negros nagôs têm, na ilha de Itaparica, na Bahia, um centro onde se comunicam com os ancestrais, os babás (pai), mais conhecidos como eguns.
Passados quarenta dias, ou mais, do candomblé funerário, faz-se o egun (traje) do falecido. Somente os homens se tornam babás sendo vedado às mulheres, tomar parte no culto. Os ojés que mantém o centro são os únicos autorizados a lidar com os eguns.
Os trajes, em geral de cores vistosas, cobrem inteiramente o corpo daqueles quem encarnam os babás. O contato físico com esses antepassados de volta à terra pode ser fatal e por isso os ojés munidos de cipós compridos, põem à distância os presentes; entretanto, o deslocamento do ar produzido pelas suas danças é considerado benéfico para os circunstantes. Os babás se comunicam com os vivos durante a noite, e à meia-luz, dando conselhos, fazendo admoestações, transmitindo notícias, numa voz cavernosa e rouca que lhes é peculiar.
Não há possessão pelos eguns. E, se o axexê, como escreveu Roger Bastide, constitui "um rito profilático" destinado a obstar que o morto se apodere dos vivos, essa mesma cerimônia fúnebre prepara a sua reabilitação como babá ou egun, como ancestral, um elo na ininterrompida corrente vital que une os nagôs de ontem aos nagôs de seus descendentes de hoje.