Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Apelidos

É costume, e bem antigo, chamar ou designar alguém, não pelo seu nome ou sobrenome, mas por outro que lhe foi dado por cirscuntâncias físicas, morais, reais ou supostas, ou ainda, por seus feitos ou profissões. Não podemos confundir os cognomes com a antonomasia, figura de retórica, que consite em acrescentar ao nome da pessoa uma expressão geralmente de sentido nobilitante, diz Emir M. Nogueira, nosso colega de jornal, e nem mesmo os de família.

A história está repleta de apelidos como Eduardo II – o principe negro; Ricardo – coração de leão; Frederico I – o barba roxa; e a história do Brasil também nos fala de "Tiradentes", do "marechal de ferro", do "águia de Haia"; do "príncipe dos poetas".

Ao estudarmos a linguagem popular, há um capítulo curioso que merece a nossa especial atenção. Referimo-nos naturalmente, aos apelidos. Poucas pessoas não os tem e, às vezes, os tem mais de um, dependendo das comunidades onde vivem ou freqüentam. Assim, o Roberto, em casa é chamado de dorme-dorme e na escola é o fininho, por ser o mais alto e magro da classe.

Afinal, que é apelido? Para nós, folcloristas, toda expressão usada para uma determinada criatura, com a finalidade de aumentar ou diminuir-lhe as qualidades ou defeitos. Há sempre uma razão de ser do apelido que lhe acompanha desde a infância, e quando se torna homem de grande empresa, ou passa a ocupar cargos de relevante importância, por vezes se envergonha dele. Uma professora, em classe, sempre dava exemplos aritméticos usando a laranja, e acabou por ser a "mãe das laranjas". Aquele professor repetia, durantes as explicações de geografia, mais de mil "né", por isso os estudantes o chamaram de "seu né".

Os nascidos em Pelotas, são, ainda chamados de capilé (sorvete de palito). Os moradores da beira de rios são considerados "barriga verde". Minhoqueiro era o apelido das pessoas nascidas em Areias (SP); Paneleiro, o queluzense. Os jogadores de futebol também são portadores de apelidos; Diamante Negro, Pelé, Tostão, Cabeção, Feitiço.

Nas cidades do interior poucas pessoas são conhecidas pelo seu nome de batismo, senão pela sua profissão; Zé da venda; Chico poceiro; Chico sorveteiro; Quim padeiro; Zé do choque; Chico santeiro. Não faltam os apelidos, mesmo dentro das grandes capitais: boca mole; jóquei; pimentão; pé-de-cabra; vitrolinha; árvore de Ntal; chupa ovo; girafa, bola murcha; alemão, bola sete, gorila, João coragem, toquinho.

Nos meios mais diversificados também encontramos os apelidos como: perna-de-rã; perna-de-seda; guaracho (mistura de refrigerantes), Zé arigó, Boticelli, aleijadinho, rosa-do-inferno. Também nos meios dos "fora da lei", luz vermelha, cinco dedos, furioso, boca de ouro, promessinha.

Eurípedes Queiroz do Vale, capixaba, cita os apelidos mais conhecidos do Espírito Santo: farol baixo; santa casa; munheca de samambaia; cano de ferro; professor botão; dona Leopoldina e amostra grátis.

A história gaúcha está repleta de apelidos de consagração popular; o lentilha, o verruga, o diabo coxo, o tenente galinha.

Estudiosos se preocupam pelos apelidos, não somente pelo valor lingüístico, mas também social. "Aracati – cidade dos apelidos", é um trabalho muito bem feito por C. Nery Carneiro e publicado na Folha da Manhã, do Recife. Leonardo Mota, em No tempo de Lampião, num dos seus trechos fala sobre os apelidos sertanejos. Veríssimo de Melo, natalense também, escreveu muito sobre os apelidos da sua região.

Nem os santos escaparam dos apelidos. São Pedro, chaveiro do céu; São João, o fogueteiro; Santo Antônio, o casamenteiro.

Não adianta se aborrecer com os apelidos recebidos porque fica pior a emenda. Assim, vou contar-lhe a história dos apelidos que uma pessoa recebia, à medida que se enfurecia com eles. Chamava-se João e tinha no fundo do quintal um enorme coqueiro. Todos o conhecem como: João-do-coqueiro. Irritado, mandou cortar o coqueiro, deixando apenas uma parte do mesmo. Não demorou muito e foi chamada João-do-toco. Arrancou o toco, deixou um buraco, tapou o buraco plantou outra árvores. A medida que os fatos aconteciam, os apelidos se sucediam, até que um dia resolveu mudar-se para outra cidade. Não adiantou. Tempos passados encontrou-se com um antigo morador daquela cidade que o reconheceu com o João-do-coqueiro.

Na nossa empresa, como não podia de ser, muita gente possui apelido: boneco, geléia, pula-pula, trovão, bigode, gaseta, perereca, rouco, cafuringa.

(Della Monica, Laura. "Apelidos". Folha da Tarde. 19 de julho de 1973)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005