Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

A roda

Mário Sette

Ela existia nuns fundos de prédio da rua que no bairro de Santo Antônio tomou o seu sombrio nome. Outra, também, existiu na Casa dos expostos, na Jaqueira.

Ambas testemunharam as agonias, os desesperos, os sacrifícios das mães que iam confiar-lhes os filhos para uma separação eterna, porque ali dentro todas as crianças passavam a ser uniformemente enjeitadas. A roda constituía a renúncia do mais nobre e forte direito da mulher, o da maternidade; e a mais estranha e dolorosa negação do seu natural egoísmo de querer o filho para si só. Iam entregá-los a outras mulheres, a outros carinhos, se carinhos por ventura houvesse no recolhimento dos enjeitados.

Muitas dessas mães não tinham culpa do gesto de abandono. Esta, em confiança entregara o corpo ao homem que hoje sorria dela ou a repudiava com os hipócritas melindres da sua sociedade; aquela, para achar trabalho que lhe desse pão e roupa, precisava desvencilhar-se da criança; aquela outra não queria que o filho sofresse também o que vinha sofrendo no mundo...

O remédio era a roda.

Vinha trazê-lo numa hora discreta. A criança toda embrulhada como uma pequena trouxa. Entrava pelos fundos da matriz de Santo Antônio, caminhava, retendo o mais possível os passos para sentir ainda a quentura do corpozinho querido nos braços, até chegar àquela "caixa" que girava ao toque de uma campainha...

Olhava mais uma vez o rostinho; beijava-o; depunha o filho na "roda" com os cuidados de quem o deitasse num berço... E puxava a corda da sineta. A "caixa" rodava... A criança sumia-se.

Agora, nunca mais, nunca mais!

E a mãe lá se ia embora, com os braços derreados e inúteis. E o coração também inútil.

A roda rebaixava o sentimento materno como atualmente a Maternidade, aquela bela e maravilhosa casa do Dérbi, orgulho de Pernambuco, o exalta. Ali, as mães, mesmo as desvalidas, mesmo as "de um passo errado", aprendem, num ambiente de dignidade da sua missão, a prezar e compreender sua missão. Todas as mulheres, na Maternidade, se igualam. Têm um leito e têm um berço. Nenhuma delas sairia dali para a "roda", se a roda ainda existisse.

São mães.

(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus. 3ª ed. Rio de Janeiro, Casa do Estudante Brasileiro, 1958, p.313-314)
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