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As "redes de balanço"de Sorocaba

Rossini Tavares de Lima

Ultimamente, lendo o interessante livro Caminhos e fronteiras de Sérgio Buarque de Holanda, encontramos no capítulo "Redes e redeiras", algumas informações sobre a técnica sorocabana de fazer rede, considerada sobrevivência "das antigas tecedeiras tamoias ou tupiniquins". E estes dados nos lembraram de divulgar algo relativo ao mesmo assunto tendo por base as nossas observações in loco e também as de Palmiro Miranda, violeiro entusiasta das redes de Sorocaba, o qual por ocasião de um curso de folclore que realizamos naquela cidade, a convite do professor Basílio da Costa Daemon, nos ofereceu, por escrito, o que havia coletado nas suas conversas diárias com as redeiras ainda existentes por lá.

Acredita Sérgio Buarque de Holanda que a nossa capital teria sido, outrora, o centro inicial do artesanato de redes conhecidas no sul do estado de São Paulo, pelo nome popular de "rede de balanço" ou "de balançar". Hoje no entanto, este apenas subsiste em Sorocaba, onde chegou a possuir, ainda no século passado, extraordinário florescimento, o que na opinião do autor de Caminhos e fronteiras "se deveu provavelmente à simples circunstância de se congregarem ali, por ocasião das célebres feiras de animais, indivíduos de procedências várias, que consumiam largamente desse produto, assegurando a sobrevivência de seu fabrico".
 

Os atuais teares sorocabanos

Os teares encontrados atualmente, em Sorocaba, têm a forma de um quadrilátero, de dimensões variáveis, e são feitos de cabreúva, em geral. Apresentam dois pés ou esteios, com aberturas laterais e nestas se apóiam duas travessas, uma na extremidade interior e outra na superior. Nas aberturas são colocadas cunhas de madeira, que as redeiras batem e fazem voltar, para obter o ponto desejado no tecido da rede. Quanto ao tipo e modelo, os teares são verticais e procuram apoio na parede.
 

Bruche, abrideira, batedeira e tempereira

Para o trabalho no tear, as redeiras sorocabanas, conforme o testemunho da mais antiga, dona Josefa Maria da Conceição, utilizam ou devem se utilizar necessariamente de outras peças, a saber: bruche, abrideira, batedeira, tempereira.

O bruche, "buruchê" segundo Sérgio Buarque de Holanda, é uma taquara da bambu ou bastão de madeira branca, pouco mais grosso que um cabo de vassoura que se amarra entres as travessas do tear. Nele são dispostos os fios de algodão, denominados fios de roca, enrolados em novelos ou meadas, que distendidos e volteando entre as duas travessas constituirão o urdume da rede, ficando o bruche entre a camada inferior e a superior deste. Segue-se a separação dos fios pares dos ímpares na camada superior do urdume e nessa operação usam-se taquarinhas, que se chamam creciúma.

A abrideira é uma taquara de bambu, medindo mais de um metro, que pendurada na travessa superior do tear, ao meio das camadas de fios do urdume, deixa sempre uma fresta para a entrada da batedeira. Esta não passa de uma taboazinha de guarantá ou cabreúva, também chamada régua, usada para abrir caminho ao fio que vai tecer a rede, e também para o ajuste do tecido. Este fio é conhecido pela designação de fio de trama ou de teçume.

A tempereira, explica bem o escritor de Caminhos e fronteiras, "é uma espécie de régua articulada ao centro que se fixa, de um lado ao outro e junto ao eixo inferior do tear, sobre os fios previamente tramados". É bom esclarecer, no entanto, que a sua fixação se faz por meio de duas peças de ferro, a maneira de garfos e tridentes, colocados nas suas extremidades. A função da tempereira é a de regular a largura da rede.
 

Técnica das redeiras

Antigamente, o fio de algodão era fabricado pela própria redeiras com o fuso manual. Hoje o adquirem nas fábricas de tecido, à razão de Cr$ 38,00 o quilo. Às vezes no entanto, vêem-se em dificuldades, pois nem todos os fabricantes gostam de vender fios de algodão. Adquirido o fio, as redeiras costumam colocá-lo na meadeira, peça de madeira que gira num eixo fixado em um cepo. E imprimindo nesta um movimento giratório, vão enrolando os novelos ou meadas de fio branco com o qual é confeccionado o urdume da rede. Se esta, entretando deverá ter várias cores, elas tratam de tingir, com diversos corantes, os novelos ou meadas. A seguir, com os fios do urdume ou de roca, puxados com uma das mãos, fazem duas trancinhas ou liços, o que na opinião da redeira Francisca Hannickel, também de Sorocaba, dá maior perfeição nos desenhos ornamentais.

Depois, colocam a batedeira passam o fio da trama ou de teçume e com aquela batem duas vezes, fortemente, para ajustar o tecido. Terminada a rede, os fios soltos das extremidades são torcidos e, dessa maneira, se constituem os punhos. Também, nas partes laterais. Costumar colocar-lhe os enfeites da barrada que podem ser de franja, de abroio e de pucá. Há dois tipos de rede: a batida e a lavrada. A batida possui um trançado simples e, por isso mesmo, segundo as redeiras, dá mais lucro. A lavrada, hoje a mais procurada, apresenta desenhos em alto e baixo relevos, com motivos de flores: cravos, cravina, açucena, rosa; e outros: pilão, balanças, ondas do mar, caracol etc... Esta é bem mais trabalhosa e, atualmente, chega a custar cerca de Cr$ 700,00, se, no entanto, é branca por inteiro o preço ainda é mais alto.
 

As redeiras de Sorocaba

A mais velha redeira de Sorocaba é a dona Josefa Maria da Conceição, residente à rua Dolores Bruno, na Vila Angélica. Possui setenta e dois anos e aprendeu a técnica, aos doze, com a sua madrinha, dona Carolina de Camargo, falecida em 1906, a qual ensinou muitas moças tecerem rede de balanço. Chegou a ter quatorze trabalhando com ela e pagava-lhe $500 réis por dia, exceção feitas às aprendizes. Há sessenta anos, contou dona Josefa a Palmiro Miranda, havia numerosas redeiras em Sorocaba, entre as quais as da família do João Capitão e do Francisco Rancho. Toda a produção era, então, arremetada pelo tropeiro Feliciano de Camargo, que arrumando as redes nas barracas, presas ao lombo dos burros, ia vendê-las por aí afora, no Paraná e até no Rio Grande do Sul. Ele mandava vir os fios já industrializados de São Paulo, e depois de tingi-los entregava-os às redeiras, pagando pela confecção de uma rede batida 4$500 réis.

Outras redeiras atuais são as donas Francisca Hannickel e Júlia Hannickel, duas irmãs, que receberam ensinamentos da mãe, já falecida. Dona Francisca conta hoje, 51 anos e reside à avenida Ipanema.

Todas são exímias produtoras de redes lavrada, e considerando o seu trabalho como um verdadeira arte, já não gostam de tecer as redes simplesmentes batidas.

Afinal, como prova a existência das redeiras, ainda agora subsiste em Sorocaba, a velha e típica indústria doméstica das redes de balanço, que pareceu a Saint-Hilaire, na segunda visita à capitania de São Paulo, como escreve Sérgio Buarque de Holanda, dos característicos notáveis da gente paulista, denunciando pronunciada influência dos índios outrora numerosos na região. Hoje, do que está precisando esse artesanato, verdadeiramente maravilhoso, é de uma mais direta defesa e proteção do nosso governo. Lutemos pela continuidade dessa técnica que é das poucas coisas que possuímos de um velho São Paulo que se foi.

(Lima, Rossini Tavares de. "As redes de balanço de Sorocaba". A Gazeta. São Paulo, 26 de dezembro de 1957)
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