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Artesanato do Jequitinhonha – A riqueza maior que nasce das mãos humildes

Das mãos calejadas de lidar com a terra, saem peças finas de cerâmicas, algodão e madeira, hoje reconhecidas e admiradas em muitos pontos do país. Os artistas são gente do povo, homens, mulheres e crianças que trabalham o barro na luta pela sobrevivência. Eles representam uma comunidade de artesãos, que vive numa região pobre, de solo cansado de estiagens e queimadas, isolada pelas imensas distâncias. São os artesãos do vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que refletem na sua arte primitiva o cotidiano do homem rural.

Os lugares onde vive essa comunidade têm nomes sonoros: Diamantina, Turmalina, Capelinha, Berilo, Araçuaí, Caraí, Joaima, Itinga. Os bichos, os vasos, as moringas, o tropeiro, o tocador de gado, o forró, a lenda de farinha vão tomando forma nas mãos que trabalham a argila e o barro, numa técnica primitiva que se transmite de geração após geração. A luz precária de óleo de mamona ou de querosene, os artesãos produzem peças que surpreendem pela criatividade.

Os instrumentos dessa arte secular são os mais simples: o sabugo de milho, o cuité (vasilha em que se misturam as tintas), um pano molhado, uma ponta de faca, uma frutinha chamada olho-de-boi, que serve para alisar as peças, e uma espécie de pincel improvisado com madeira e algodão na ponta. É um artesanato essencialmente rural, que na época da seca assegura o sustento de famílias inteiras. Prontas, as peças seguem para a cidade mais próxima, carregadas no ombro ou nas bruacas em lombo de burro, já que os caminhos são estreitos e o acesso difícil.

Noemisa Batista, uma mulher de meia idade, que gosta de contar suas histórias em barro, vive na zona rural de Caraí. Seus trabalhos reprodruzem acontecimentos do cotidiano rural: o ladrão de galinhas, o casamento, o batizado, o forró, a confissão. Algumas peças indicam contato com os fatos ou acontecimentos da cidade, como por exemplo a vacinação, Mobral, o médico examinando o pacientes, e até Emerson Fittipaldi.

Nessa mesma localidade vive Ulisses Pereira Chaves, um surrealista primitivo, se assim se pode chamar a mistura que faz de gente e bichos; são galinhas que se equilibram sobre pés humanos, corpos com duas ou três caras. Com 53 anos, sete filhos, é o cabeça da família que se dedica também à fabricação de utensílios comuns. Seu sobrinho Vanderlei, de 12 anos, tem uma verve especial para o filão humorístico. Suas cenas representam danças de bichos, crianças em brincadeiras com animais.

Muitos artesãos já são conhecidos, como Dida, uma mulher de meia idade, de Caraí, que reproduz flores e objetos em sua peças de utilidade doméstica; Maria Assunção, de Taiobeiras; Isabel de Itinga; Ana do Baú de Minas, que utiliza um processo de decantação do barro e consegue peças finas e leves; e ainda Zefa, do Araçuaí, e Mundinha Santeira, da zona rural de Socorro.

Não é apenas da cerâmica que se ocupam os artesãos da região. Muitos trabalham com couro, taquara, carnaúba e imbê, outros usam o velho processo de tear, preparando o fio de lã com fuso e roca. Sem contar as rendeiras, que empregam os bilros.

No vale do Jequitinhonha, lugar de vida áspera em que a luta pela sobrevivência adquire às vezes aspectos dramáticos, o visitante é sempre festejado como um acontecimento inusitado. Os preços são razoáveis, e em alguns casos muito baratos, se comparados com os preços cobrados pelas mesmas peças nos grandes centros de consumo do país.

 

("Artesanato do Jequitinhonha; A riqueza maior que nasce das mãos humildes". O Globo. Rio de Janeiro, 16 de junho de 1977)
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