Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Novembro 2004 - nº 72 - Ano VII


Sumário

Festança

Os enterros de Inhaúma
Lima Barreto

Quarup

A caninha verde
Joaquim Ribeiro

Cancioneiro

A peleja do cego Aderaldo com José Franco

Quadras populares, Recolhidas por Téo Azevedo e Hermes de Paula

A mulatinha, Colhida em Sergipe | Sílvio Romero

Imaginário

Os três coroados, Colhida por Sílvio Romero em Sergipe

Seres sobrenaturais e fantásticos
Alfredo do Vale Cabral

Melancia — Coco Verde
João Simões Lopes Neto

Colher de Pau

Peixes
Robert Walsh

Das comidas
Nélson Palma Travassos

Cozinha brasileira?... Só em casa ou em livro

Oficina

O mutirão
Mário Sette

Artesanato do Jequitinhonha – A riqueza maior que nasce das mãos humildes

As "redes de balanço"de Sorocaba
Rossini Tavares de Lima

Palhoça

A roda
Mário Sette

Apelidos
Laura Della Monica

O velório no interior pernambucano

Panacéia

Trabalhos fúnebres populares
Edison Carneiro

Kaingang repelem os brancos e voltam a praticar o ritual do kiki ou fandango
Homero Gomes e Regina Costa

Recados da Bahia
Stela Câmara Dubois

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Simplicitate Design

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Seres sobrenaturais e fantásticos

Alfredo do Vale Cabral

Ilustração de Marcos Jardim O folclore do Rio São Francisco deve ser muito rico. As três raças que constituíram a sua população estavam em constante elaboração; e, os bandeirantes, assaz aventureiros das selvas, ambiciosos de ouro e índios, também deviam ter contribuído poderosamente para o maravilhoso popular, sobretudo em um rio que por natureza é já todo maravilhoso.

Mas em rápida viagem, quando se tem os dias contados, nunca se pode coligir tudo quanto se deseja, logo à primeira vista, porque, já se vê, passando-se em certos lugares poucas horas, nem sempre se oferecem ocasiões de ouvir-se a expansão tradicional do povo. A vontade foi grande, mas a colheita pequena.

Seres sobrenaturais

Os seres sobrenaturais que existem no baixo São Francisco são - a mãe d'água, o caipora, o negro-d'água, o lobisomem, o boi d'água, o cavalo d'água e a mula-de-padre.

A mãe-d'água é o ser antropomorfo mais em voga no baixo e Alto São Francisco.

O outro ente mais conhecido é o negro d'água, do qual os canoeiros têm muito medo, sobretudo à noite.

O caipora não é muito popularizado.

Ilustração de Marcos Jardim Caipora: é um caboclinho pequeno, vaqueador de caitetu e de onça. É pequeno e preto. Quando apanha alguém no mato dá surra de caruá; mas os caçadores levam-lhe fumo ou deixam em certo lugar já combinado com o caipora; então este vai mostrar a melhor caça que há no mato (Jatobá).

Mãe-da-lua: é passarinho todo vermelho, com rabo comprido e só grita de noite (Paulo Afonso).

Negro-d'água: Curral de Pedras e Pão de Açúcar. Agarra-se na proa das canoas e faz força para as afundar; empatam assim o andar das canoas e às vezes as param (Penedo).

Do nosso canoeiro: Tem a perna e o pé como gente, o pé é muito grande (Furado).

Em Propriá, Paulo Afonso, fala-se nele, que ele existe no rio, mas não pude colher mais informações a seu respeito.

Boi-d'água?

Cavalo-d'água?
 

Seres fantásticos

Ilustração de Marcos Jardim Mãe-d'água, mito antropomorfo muito popularizado em todo o vale, parece ter sido herdado dos índios que habitavam o grande rio. O nome tupi que devia ter entre eles infelizmente perdeu-se.

O negro-d'água, o cavalo-d'água e o boi-d'água, outros seres não tanto generalizados, são evidentemente criações brasileiras, porque os índios não tinham negro, nem cavalos, nem bois.

A mãe-d'água parece não corresponder à sereia, mito do mar, espalhado por toda a costa brasileira e do qual os pescadores têm muito medo.

A sereia tem canto admirável, sedutor, atraindo de tal modo os navegantes que perdem o rumo das suas embarcações; qualidades que mãe-d'água, porém, não possui.

O Amazonas também tem sua mãe-d'água, mais conhecida pelo nome tupi uiara. Como no São Francisco, há no Amazonas muitas mães-d'água. A forma que lhe dão todos, de uma caboclinha ou tapuinha da cintura para cima, está mesmo indicando sua origem toda indígena.

As versões que se seguem foram as que pude coligir em diferentes localidades:

Perguntando a um canoeiro o que elas comiam respondeu-me: E eu sei?... Expressão que é muito comum em todo o vale.

Mãe-d'água (Curral de Pedras). É uma caboclinha, gordinha, cabelo derramado, parte de gente, parte de peixe. Ouve-se a zoada delas quando estão cavando a areia embaixo das beiradas (do rio), onde fazem grande buracão. Moram debaixo d'água. Perguntando eu, vindo a propósito a pergunta, o que elas comiam, respondeu o nosso piloto da canoa que tomamos em Curral de Pedras, na volta de cinqüenta anos de idade, com toda a ingenuidade: — E eu sei?...

Só aparecem no tempo do rio vazio.

Pega a gente e leva para o fundo do rio. Contou-me o mesmo piloto na volta, que a mãe-d'água tinha, em Curral de Pedras, carregado da sua casa uma moça branca, quando uma noite foi buscar água no rio. Também sabia que um negro tinha sido carregado pela mãe-d'água. Este negro, porém, não conhecia.

Mãe-d'água (Pão de Açúcar). Aparece sempre de noite, que é quando se ouve a zoada dela. Cava e quebra a ribanceira (do rio), quando anda na vadiação. Há muitas. Parte de gente, parte de peixe.

Pelo que me disseram em Aricuri, a mãe-d'água pode ter mais ou menos um metro de altura.

Mãe-d'água. Parece-se com gente, tem o cabelo muito grande. Às vezes, apanhando de jeito, pega gente para carregar para onde ela mora. Há muitas. Moram debaixo d'água. Aparecem a toda hora, de dia e de noite. Elas cavam, derrubam as ribanceiras de beira de rio, por vadiação (Vila Nova). Da cintura para baixo, é peixe, e para cima, é cabocla, com um cabelão que bate na cintura. Só toma banho de noite, que é quando aparece. Não canta como as sereias do mar (Penedo). Tem um cabelão grande que derrama embaixo. É um modo de caboclinha.. O corpo é todo de gente. Dizendo-me que era o corpo todo de gente, perguntei-lhe qual era a forma do pé, e ele a tudo isto respondeu: (o pé) — Não sei, porque não vi as pisadas dela. É vermelhinha da cor de um caboclo. Agüenta o sol no tempo de verão. No inverno, não aparece. Mora dentro da água, sai para terras, porém a morada dela é no rio. Há muitas mães-d'água. Moram nos lugares mais fundos. Quando elas saem em algumas beiradas das corredeiras, elas vão vadiar ali e cavam a terra, e o barro cai. Quase sempre cavam onde tem plantações de mandioca, feijão, milho... Quem planta tudo isso na beirada, perde por causa delas (Aricuri).

É uma espécie de cabocla com o cabelo todo derramado, metade gente, metade peixe. Mora no rio (Propriá). É uma tapuinha com um cabelo muito grande. Às vezes vira-se em cágado dourado e a gente quando o apanha é a mãe-d'água. Cava as beiradas dos rios por baixo e estraga as plantações. Às vezes se apanha ela na rede, mas é muito raro (Curral de Pedras e Pão de Açúcar). É uma cabocla, e do umbigo para riba é gente, para baixo, peixe (Furado). É toda gente, com um cabelão muito grande e mora no fundo da água (Paulo Afonso).

(Cabral, Alfredo do Vale. Achegas ao estudo do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Fundação Nacional de Artes, 1978, p.61-63)
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