Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Novembro 2004 - nº 72 - Ano VII


Sumário

Festança

Os enterros de Inhaúma
Lima Barreto

Quarup

A caninha verde
Joaquim Ribeiro

Cancioneiro

A peleja do cego Aderaldo com José Franco

Quadras populares, Recolhidas por Téo Azevedo e Hermes de Paula

A mulatinha, Colhida em Sergipe | Sílvio Romero

Imaginário

Os três coroados, Colhida por Sílvio Romero em Sergipe

Seres sobrenaturais e fantásticos
Alfredo do Vale Cabral

Melancia — Coco Verde
João Simões Lopes Neto

Colher de Pau

Peixes
Robert Walsh

Das comidas
Nélson Palma Travassos

Cozinha brasileira?... Só em casa ou em livro

Oficina

O mutirão
Mário Sette

Artesanato do Jequitinhonha – A riqueza maior que nasce das mãos humildes

As "redes de balanço"de Sorocaba
Rossini Tavares de Lima

Palhoça

A roda
Mário Sette

Apelidos
Laura Della Monica

O velório no interior pernambucano

Panacéia

Trabalhos fúnebres populares
Edison Carneiro

Kaingang repelem os brancos e voltam a praticar o ritual do kiki ou fandango
Homero Gomes e Regina Costa

Recados da Bahia
Stela Câmara Dubois

Veja o que foi publicado em cancioneiro
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Simplicitate Design

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Cancioneiro
Textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

A peleja do cego Aderaldo com José Franco

Esta é a luta do cego Aderaldo com José Franco, também chamado Francalino, que travou-se na fazenda Trombador e foi registrada por Luís da Câmara Cascudo, em Vaqueiros e cantadores.

* * *

De folhas de oiticica
Estava um barracão bem feito
José Francalino disse:
Cantar aqui não aceito
Homem que canta em barraca
Não pode cantar direito

Com muito rogo o cantor
Aceitou sempre o assento
Mandou que eu me sentasse
Do outro lado do vento
Colocou o povo em roda
E nós ficamos no centro

Ele afinou a viola
E começou o baião
Eu afinei a rabeca
Dei a mesma entoação
Agitou-se o pessoal
Para ouvir a discussão

J — Senhores, dêem-me licença
Funcionar a garganta
Mostrar ao cego Aderaldo
A minha palavra santa
Meu eco treme a colina
Parece que o bosque canta

C — Dê-me licença, senhores
Ó riquíssima personagem
Cantar com esse cantor
Quem vem com tanta vontade
Dizendo que sua voz
Para o vento é a miragem

J — Cengo cante com cuidado
Que eu sou homem benquisto
Você hoje fazendo um erro
Fica pelo povo visto
E eu faço com você
Como Juda fez com Cristo

C — Então o amigo quer ser
Rebelde conspirador?
Não faça escravo de quem
Ainda pode ser senhor
Porque você me vendendo
Vai minorar minha dor

J — Eu não quero te vender
Dei-te apenas explicação
Tu como cego de tudo
Já vens com malcriação
Quem faz de cachorro gente
Fica com o rabo na mão

C — Sr. José Francalino
Vós mudastes de sintoma
Já me queimou com a língua
Como o fogo de Sodoma
Dai-me ao menos teu retrato
Que eu guardo em minha redoma

J — Eu não quero é chaleirismo
Vim aqui formar divisa
Saber hoje da certeza
Dos dois qual o simpatiza
Do amigo Zé Pretinho
Eu vim hoje vingar a pisa

C — Desculpe que eu não sabia
Que tu era cangaceiro
Do grande José Pretinho
O cantor piauzieiro
Você hoje leva lembrança
Pra si mais seu companheiro

J — Então cego venha a mim
Que eu sou conspirador
Saiba qu'eu tenho profissão
Na arte da cantador
Nunca cursei academia
Porém sou quase um doutor

C — Por tua frase eu conheço
Versos puxado a cambito
Pronome que só se encontra
Na gramática do maldito
Palavra ainda do tempo
Que besouro era mosquito

J — Cego você não suponha
Que eu sou cantor da mata
Dizem que sua rabeca
Tem todas cordas de prata
Ela quebra e o dono apanha
Tome nota, dia e data

C — Francalino você está
Com um olho preto e outro roxo
Fala em dar-me uma surra
Queira deus não volte chocho
Então comece o martelo
Parte cedo quem é coxo

J — Cego, sustenta a rabeca
E tome muito sentido
Não perca roteiro e rima
Trabalhe bem resumido
Que eu venho hoje preparado
Só quebrar-lhe o pé do ouvido

C — Francalino desenfeta
Alma de lobo marinho
Serpente que traiu Eva
Coruja errante sem ninho
Seca de setenta e sete
Toco velho de caminho

J — Cego, tu só tem cabeça
Porque fósforos também têm
Barriga de vuco-vuco
Teu nariz de vai e vem
Te casa com uma raposa
Pra seres raposa também

C — És sapo canuaris
Barriga de chimpanzé
Cara de todos os bichos
Catimbó de Zé-Pajé
Sobra de esmola de cego
Currimboque sem rapé

J — Tu és um cego sem jeito
Um cinturão sem fivela
Uma casa sem ter gente
Um porta sem tramela
Um sapato sem ter dono
Um anzol sem ter barbela

C — Puxa fogo cabeleiro
Instinto do mal, Lusbel
Febre negra de acobaça
Dentes de leão cruel
Judas que cuspiu em Cristo
Entranhas de cascavel

J — Puxa, puxa, cego velho
Te sustenta a renitiva
Apanha hoje, não tem jeito
De chorar ninguém lhe priva
Tu ronca no nó da peia
Apanha até dizer viva

C — Fora, José Francalino
Porque tu não canta bem
Olho de boto vermelho
Boca de carro de trem
Cabelo de urso africano
Venta de chama quem vem

J — Fora, cego Aderaldo
Que berra tanto e não pára
No peso de meia libra
Ele não dá uma tara
Cego eu só vim de encomenda
Para rebentar-lhe a cara

C — Vai-te sarro de cachimbo
Guarda-chuva de parteira
Boca de comprar fiado
Chinela de cozinheira
Bode mocho, pé de pata
Guardanapo de parteira

J — Cego, vai-te para o inferno
E lá será teu desterro
Língua de contar mentira
Boca que só solta erro
Tu berra hoje como vaca
Correndo atrás do bezerro

C — Palhaço de Pastorinha
Trapo do forro do lixo
Cama suja de hospital
Lêndea de pulga de bicho
Cangalha sem cabeçote
Sela velha sem rabicho

J — Cego a que tempo nós estamos
Jogando de carta e sota
Quando um bota o outro tira
Quando um tira o outro bota
Só ouço o riso do povo
E ninguém falar da cota

C — Não quero que fale em cota
Bornal de preto aleijado
Calunga de marmulengo
Saco de guardar pecado
Terra de cobrir defunto
Cemitério de enforcado

J — Cego por ora deixemos
Não nos convém pelejar
Ninguém se sustenta em riso
Riso não dá pra engordar
Deixemos para outra vez
Quando nós se encontrar

C — Desocupa nuvem negra
Cururu rouco de cheia
Bagageiro de cigano
Fedentina de cadeia
Pescoço de jabuti
Alpercata sem correia

J — Você cante com mais jeito
Deixe de ser malcriado
Faça um serviço bem feito
Para ser apreciado
Eu não pensei que você
Fosse tão mal educado

C — Francalino, você sabe
Que quem canta com razão
De soltar para o amigo
Gracejo e mal-criação
Mesmo quem canta martelo
Não pode ter concessão

J — Então você continue
Com suas obras singelas
Já estou lhe achando a feição
Com a cor muito amarela
Quero saber se tu canta
Dez linhas feita em parcela

C — Francalino, pode vir
Mas não perca uma só linha
Homem que canta parcela
Tem horas de adivinha
Não vá meter-se na sala
Depois ficar na cozinha

J — Sou homem de alto relevo
Não solto palavra à toa
Em parcela e gabinete
A minha rima revoa
Vamos nós experimentar
Neste salão quem entoa

C — Siga logo, Francalino
Com seu trabalho desejoso
Repare o que vai fazendo
Seja muito cuidadoso
Veja se canta a parcela
Não seja tão preguiçoso

J — Balanço e navio
Navio e balanço
Água em remanso
Procura o desvio
O desvio procura
Carreira segura
Segura carreira
Molhando a barreira
Das águas escuras

C — A barca farol
O farol da barca
Lumina na arca
Os raios do sol
O mesmo arrebol
Faz a luz tão quente
A maré crescente
Na força da lua
A barca flutua
Nas águas pendentes

J — Passa o automóvel
O automóvel passa
Só pela fumaça
Tudo se comove
Fica o povo imóvel
Fica imóvel o povo
O motor é novo
É novo o motor
Como não parou
Teve seu aprovo

C — Flauta e flautim
Flautim e flauta
Muita gente alta
Toca bandolim
Brada e cavaquim
Sax e bombardão
Trompa e violão
Violão e trompa
Grita os cabras rompa
Entra o rabecão

J — Vida boa esta
Na dança animada
Não nos falta nada
Todo mundo presta
No vigor da festa
Não se vê tormento
Naquele momento
O mestre faz curveta
Engole a palheta
Do seu instrumento

C — Briga e barulho
E barulho e briga
Por causa de intriga
Rola o grande embrulho
Fica no vasculho
O grito da guerra
Mesmo em qualquer terra
Havendo revolta
Desce grande escolta
Do cimo da serra

J — Mudemos o sentido
Para nós cantar
Vamos martelar
Que é mais conhecido
Esteja prevenido
Com a voz ativa
Faça retintiva
Hoje aqui na sala
Não tropece a fala
Minha língua é viva

C — O homem guerreiro
Se quiser teimar
Comigo brigar
Seja cangaceiro
Fique bem veleiro
Na sua emboscada
Venha a madrugada
Mesmo em minha terra
Que homem de guerra
Nunca teme a nada

J — Vai minha parcela
Muita apreciada
Não sendo cansado
Gosto muito dela
Se torna mais bela
Assim desse jeito
Sou cantor perfeito
Para qualquer sala
Só com escala
Tu estás satisfeito

C — Vamos, Francalino
Endireite a goela
Você na parcela
Pra mim é menino
Perdes o destino
Da tua morada
Não sabe a estrada
Por onde chegou
Meu chiquerador
É teu camarada

J — Cego sem leitura
Cante prevenido
Que no teu sentido
Se mora loucura
Quer fazer figura
Hoje no salão
Se és valentão
Pego no topete
Lasco-te o bofete
Que tu beija o chão

C — Sai-te, molambudo
Caixeiro sem venta
Ladrão de fazenda
Com molambo e tudo
Corto-te miúdo
Te deixo em farelo
Sujeito amarelo
Caboclo sem sorte
Hoje a tua morte
Foi cantar martelo

J — Hoje à noite brigo
Porque me disponho
Mostro o ar risonho
Para algum amigo
Mas faço contigo
Um trabalho direito
Dou-te um mal no peito
Que tu sais tossindo
E eu fico me rindo
Muito satisfeito

C — Rogaste uma praga
Porém não me pega
Porque Deus te entrega
Centenas de chaga
Só assim tu paga
O que tu me deve
Para que te serve
Ser tão impossível
De apanhar tu vive
E a lembrança leve

J — Você conheceu
A minha chegada
Nesta pátria amada
Que você nasceu
O que sucedeu
Foi eu vir sozinho
Como sou machinho
Vim formar a divisa
Você paga a pisa
Que deu no Pretinho

C — Atrás da vingança
Se você chegou
Meu chiquerador
Dá-lhe uma esperança
Não quero é ganança
Que esta terra é minha
Tu não adivinha
O meu ameaço
Eu dou-te um abraço
Na ponta da linha

J — Deixemos agora este cântico
Como uma nuvem que embaça
Reconheço que a festa
Está como os festins da praça
Eu ganhando ainda canto
Não convém cantar de graça

C — É verdade Francalino
O cantor bom vem de raça
A tua cantiga é
Saborosa do céu massa
Eu também paro a rabeca
Não convém cantar de graça

J — Cego se aparecer
Um homem que a bolsa faça
Pois aqui tem gente boa
Da riqueza a grande massa
Mas para não ganhar nada
Não convém cantar de graça

C — Francalino, chegou vinho
Vamos esgotar a taça
Agora somos amigos
Os dois cantores se abraça
Desculpa-me se te ofendi
Não convém cantar de graça

J — Já vi que o povo queriam
Ver nós dois numa desgraça
Porque estávamos comprando
Barulho, intriga, por braça
Dai-me a mão, somos amigos
Não convém cantar de graça

C — Uma língua faladeira
Queima, papoca, que assa
Diga a José Pretinho
Que outra intriga não faça
Porque nós dois conciliamos
Não convém cantar de graça

J — Cego Aderaldo, eu ainda
Voltarei a este lugar
Tenho livros importante
E neles vou estudar
A surra de Zé Pretinho
Pretendo ainda vingar

(Cascudo, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores. Rio de Janeiro, Ediouro, sd, p.227-232)
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