Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

Bola de gude

Luís Antônio Pimentel

A bola de gude, como é conhecida entre nós, assim chamada porque provavelmente vimos o jogo pela primeira vez jogado por crianças de língua inglesa que exclamam "good" quando uma bola atinge a outra, vernaculizada para gude, é conhecida de todas as crianças do mundo, do Rio de Janeiro a Tóquio, de Paris a Honolulu. No Brasil, na zona rural e mesmo na cidade, nos bairros pobres do subúrbio, não sabemos se em virtude das condições miseráveis do povo ou se por prazer, freqüentemente encontramos o coco-de-licuri, alicuri, ouricuri ou baba-de-boi promovido a bola de gude, depois de ter sua parte superior arrendondada pelas crianças que o esfregam de encontro ao cimento ou mesmo pedra. Cada licurizeiro (Cacos coronatá, Mart.) é uma fábrica de bolas de gude para a garotada da zona rural. Por incrível que pareça, os meninos menores jogam com sementes de sabão-de-macaco (Sapindas divaricatus, Willd.), também conhecida por bola-de-macaco, pau de sabão, sabão-de-soldado, saboeira e saponária.

Não sabemos como jogam bola de gude nos outros países, nem mesmo nos outros estados do Brasil; sabemos entretanto que as crianças do mundo inteiro se divertem com esse jogo infantil. Entre nós há varias modalidades de jogo com bola de gude. Como o espaço que temos é pouco, falaremos do modo mais conciso possível, sobre uma delas.
 

Buraca

O jogo da buraca, búrica, búraca, bura, três búricas ou papão é talvez, dos jogos de gude o mais movimentado e interessante.

Constroem-se três pequenos buracos no chão, num terreno duro, seco e de preferência plano, com uma só visada, ou então fazendo medido com uma média de dois metros de afastamento um do outro. Os buracos depois são cuidadosamente arredondados com o calcanhar de um dos meninos (de pé descalço). Feito isto, a pista está pronta para ter início a partida.

Duas ou mais crianças poderão participar do jogo em um só turno. A partida é iniciada pela escolha daquele que começará a partida. Procede-se do seguinte modo: os meninos, segurando a bola pelos lados, preso entre o indicador e o polegar, arremessam-na da última, procurando atingir a primeira buraca. Iniciará o jogo aquele que acertar a bola dentro da primeira buraca, ou na ausência de acerto, quem se aproximar.

No caso de duas bolas de gude caírem dentro da buraca, iniciará a partida aquele que a atingiu primeiro. Se ao tirar o ponte (como chamam a escolha do iniciador da partida), a bola de um vai atingir a bola do outro, ao que chamam ferir, e o que está mais próximo da buraca não dia, ato contínuo: feridor (ou furi dois) sou rei, dentro ou fora (da buraca), as bolas são recolhidas por seus respectivos donos e procede-se a uma nova tiragem de ponto. É por isso que, geralmente, antes de arremessar a bola para tirar ponto, todos procuram dizer antes de qualquer outro: Feridor sou rei dentro e fora! Como dissem outros.

Há ainda um outro apelo, o daquele que quer ser o último a tirar o ponto que grita marraio ou marraia (virá de maus raios? Virá de má raia?).

Uma vez selecionado o que iniciará a partida, ele deverá mantendo a bola de vidro, massa, aço ou mesmo coco baba-de-boi, entre os dedos médio e indicador, pressioná-la com a unha do polegar preso de encontro ao médio, em catapulta, em sistema de alavanca, a fim de arremessá-la para a frente, atingindo o alvo que deseja, numa espécie de golfe manual, com regras de certo modo idênticas às do deck-golf. Devemos esclarecer ainda que, para entrar em qualquer das buracas, mesmo na primeira, pode ser uma a uma vez a bola de cada parceiro para entrar em cada buraca, como escala, isto é, tocando suas bolas, dando gudes, cheles ou tecos, como a gurizada chama a essas jogadas. Feita a primeira casa ou buraca, mede-se um palmo, fazendo pião no polegar da mão espalmada posta na borda da buraca, e tenta-se atingir a bola dos parceiros, não só para dificultar o jogo do adversário, afastando-os, cada vez mais, da buraca em que pretendem entrar. A pessoa perde a vez quando não atinge o seu alvo – bola do parceiro ou buraca. Sempre obedecendo à ordem inicial das colocações na tiragem de ponto, o jogo prossegue com os parceiros jogando cada um por sua vez, até concluir o ciclo – primeira, segunda e terceira casa e depois, voltando à segunda, e, novamente à primeira, quando se caminha para ser papão. Aí então não é mais permitido o gude (modernamente permitem um único gude). Completando esse ciclo, o papão está cheio de veneno, de peçonha. Qualquer parceiro atingido por sua bola estará automaticamente fora de combate. E assim os outros, procurando colocar suas bolas longe do alcance do papão, procuram completar seus ciclos para se tornarem papões, a fim de lutar contra o outro em igualdade de condições. Mesmo para atingir a bola de outro parceiro (matar, em língua de gude) o menino que está jogando como papão pode se valer da aproximação conseguida para atingir o que se achar mais próximo, e, assim, sucessivamente. O papão pode ainda fazer uso das buracas, a fim de se aproximar da sua possível vítima.

 

Vocabulário

Bilha: esfera de aço de rolamento desmontado, utilizada como bola de gude.

Bola paulista: bola com uma mancha interna, provavelmente de fabricação paulista.

Bolão: bola de tamanho fora do comum.

Bura: o mesmo que buraca.

Búraca: o mesmo que buraca

Busca: jogada que se faz usando a bola de um dos parceiros como meio para atingir a bola de um outro.

Cabecinha: o mesmo que bebecinha.

Canhão: ao invés de dar um teco comum, tomar a bola do parceiro entre o polegar e o indicador da mão esquerda e, pela parte de trás, dar um teco arremessando-a como se fosse um tiro de canhão.

Carreirinha: dar um teco em que a bola, fazendo tabela na do parceiro, se aproxima bastante do ponto que pretendemos atingir.

Carrinho: o mesmo que carreirinha.

Chega: ação do indivíduo aproximar a mão da bola do adversário. O mesmo que gansa.

Cheli: atingir a bola do parceiro antes de fazer a casa de papão. O mesmo que gude ou teco.

Couro-n'água: bola de vidro, misto de amarelo e branco, de forma assimétrica, como nuvens.

Dar corrida: arbitrar uma distância para a frente quando a bola acidentalmente é travada batendo no pé de um dos jogadores.

Estourar: perder todas as bolas no jogo.

Feiticeira: bola de vidro escuro quase negro.

Ferir: atingir com bola de gude, quando da tiragem do ponto, a bola de um dos parceiros ou mais, caso aconteça fazendo com que todos voltem a tirar ponto novamente, salvo quando um dos parceiros diz previamente: feridor sou rei!

Ficar: desistir da vez de jogar, permanecendo no mesmo lugar.

Fixo: teco em que a bola do que está jogando fica girando em torno de si mesma, enquanto a do parceiro é arremessada à distância.

Gansa: expressão tirada da imagem visual do gesto que lembra o esticar do pescoço de um ganso. O mesmo que chega.

Gude: o mesmo que cheli.

Impulsada: jogada que se faz auxiliando a ação dos dedos no arremesso da bola com um impulso dado pelo braço.

Limpa: limpeza do local em que se acha a bola do parceiro que pretendemos atingir.

Marraio: expressão que se usa pedindo para ser o último a tirar o ponto. Corruptela provável de maus raios ou de má raia. Era uso corrente antigamente, entre os meninos que brincavam na rua sem medo dos placas-brancas, livres como bons animais, dizerem quando queriam atingir rapidamente qualquer local com todo o bando: marraio (maus raios) parta(m) o último!

Massa: bola de massa.

Mata-mata: jogo que se faz entre dois, geralmente, omitindo a parte das buracas.

Matar: atingir a bola do parceiro depois de ser papão.

Meça: ato de medir com rigor para decidir quando duas bolas estão, por ocasião de tirar o ponto, aparentemente a uma mesma distância da buraca.

Medição: o mesmo que meça.

Meia-lua: bola desfigurada, com pedaço tirado.

Minguita: bola de gude muito pequena.

Morrer: ser atingido pela bola do parceiro que já é papão.

Morrer em seco: ser atingido antes de conseguir fazer a primeira casa, a primeira buraca.

Olhinho: bola de gude com uma mancha esférica concêntrica interna, lembrando um olho.

Preso: aquele que voluntária ou involuntariamente entra em buraca errada. Preso não pago, é o que exclama aquele que é atingido pelo papão estando dentro de uma buraca.

Papão: o jogador que completou o ciclo das buracas.

Soltar: ato de apanhar a bola do que está preso e juntamente com a do que está solto e na vez de jogar, deixando-as cair juntas de sorte que ao chegar ao solo uma batendo sobre a outra salte longe.

Teco: o mesmo que gude ou cheli.

Vira: mudar de lugar de arremesso da bola, fazendo centro na bola a ser atingida, a fim de fugir a um obstáculo que possa prejudicar a marcha da bola para a frente.

(Pimentel, Luís Antônio. "Bola de gude". Letras Fluminenses. Niterói, novembro-dezembro de 1950)
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