Recebemos das mãos gentis de Dinorá do Vale, diretora da Casa de Cultura, da Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto, SP, quinze páginas mimeografadas, sob o tema "Epitáfios", resultantes do I Concurso de Monografias Folclóricas, realizado entre alunos daquela cidade, sob a orientação de Guiomar Pansani.
É a primeira coleta de uma série delas, efetuada em agosto de 1970, naturalmente na Semana do Folclore que tem o dia 22 oficializado pelos governos da União, do estado e em muitos municípios também.
Os coletores reuniram uma centena e meia deles, originários dos cemitérios riopretenses.
A leitura analítica deles evidenciou-nos muitas constantes, que já registramos em trabalhos nossos, porém, em coletas mais extensas e mais globais, em necrópoles urbanas e rurais, em várias faixas de São Paulo e Minas Gerais.
Assim eles registram a transposição de versículos bíblicos para as lajes, placas, lápides marmóreas etc., que não determinam a situação religiosa do morto.
É porque muitas religiões utilizam-se da Bíblia, algumas não aceitando este ou aquele capítulo.
Pela cruz acontece o mesmo. Feita em ferro trabalhado ou simples, em cimento, em mármore, em bronze, em madeira etc., não identificamos o estado religioso do sepultado.
É que a cruz é de Cristo. Há a vascaína. Muitos credos (cristãos) as adotam.
Entretanto, os epitáfios revelaram-nos a posição sócio-econômica do falecido, porque eles contêm obras, pias, beneficientes, sociais, filantrópicas, culturais, assistenciais etc.
Sabe-se pela relação o epitáfio do economicamente ajustado e o do desajustado como tal.
Patente está neles, os que pertencem aos espíritas. Salientam-se pela sua filosofia dualista.
Há-os: satíricos, irreverentes, sarcásticos, que se encontram em todos os campos santos.
Há-os: duleíssimos, acalentadores, corajosos humanos.
Nas nossas coletas adiantamo-nos mais. Vimos também a conjugação do verbo jazer. Descobrir-se-a se os parentes do morto fizeram escola primária ou não.
Anotamos a espécie de flor posta no túmulo, na sepultura simples de terra.
As coroas se de papel colorido, se de ferro galvanizado, se de plástico. Cuidamos de ver as inscrições no listel ou fita.
Todos os anúncios de participação de falecimentos foram anotados. Uma enormidade de famílias enlutadas pedem que se não enviem coroas, nem flores.
Os ritos, os cerimoniais, as etiquetes das religiões nos enterramentos: os pentecostais, sem choro, nem velas, com a banda musical; os budistas alimentando o morto com iguarias e bebidas; os espíritas, com roupas, sem serem cinzas, escuras, aceitando o falecimento como ocorrência normal; os metodistas, com o pastor encasacado, de colarinhos e punhos duros oferecendo os ditames certos; os católicos, com a encomendação do corpo e muitos veleiros acesos etc.
São cultos, os credos, os sincretismos religiosos, com raízes étnicas, oferecendo cada, a paz necessária.
Há que se registrar as espécies das flores e suas cores, porque as há próprias: cravos vermelhos (homens); cravos brancos (mulheres); assim como as rosas; além de margaridas, margaridinhas, crisântemos, lírios, copos de leite e ramos de palmas, samambaias, jasmins, que são peças, quanto à deposição, sem sexo determinado.
Os lírios tiveram, dentro de sua posição cemiterial, uma elevação social, uma transculturação material: há-os, agora, de todas as cores.
Mais contemporaneamente já se anotam as encomendações ecumênicas. O morto, assim, ganhará alqueires do céus.
Os acompanhamentos: se a pé levando o corpo à mão, em carro fúnebres; se em veículos motorizados etc.
As cores dos caixões e urnas: brancas e pequenos (anjinhos), brancas e grandes (mulheres virgens), outras cores: roxas (mulheres), pretas (homens). De madeira nas cores: mágano e preta (homens), branca (mulheres).
Há urnas especiais; para os embalsamentos (e não taxidermizados), quando se é estadista, ou se lhe transporta para o estrangeiro.
Considere-se o caráter das honras militares póstumas: a guarda: a salva de tiros; o hasteamento e o arriamento de bandeira em funeral; a posição da mesma sobre o ataúde; o protocolo na retirada da urna, no seu acompanhamento, no seu sepultamento.
Como apresentar os pesames; a quem o fazer; quando o oferecer?; quando e como agradecer as visitas de condolências? Como redigir os convites às missas e às lembranças destas. A identificação do morto através do seu clichê.
Observamos ainda, os discursos. A hierarquia de seus pronunciamentos.
A colocação do corpo em cova rasa, meia cova, em carneira.