Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

Onde a vida acaba

Desde que Caim matou Abel e o Senhor veio cobrar a dívida de sangue, os mortos são lembrados pela humanidade com os mais variados costumes, passando pelas orgias pagãs da Aantigüidade até o espírito de reverência trazido pelo cristianismo.

No Brasil, essas crendices populares sempre cercaram os mortos de respeito e de temerosa admiração. Não fica bem, por exemplo, tocar o corpo do defunto, pronunciar seu nome em voz alta ou deixar de cruzar suas mãos sobre o peito atadas com um rosário para que a fé cristã lhe abra as portas do céu.
 

Mortos sem sepultura

Os mortos da Antigüidade praticamente não conheceram sepulturas.

Em certas regiões da Índia queimavam-se os mortos em grandes piras. Esse costume ainda perdura, como nos mostra o recente exemplo de Nehru. Mas outro costume foi abolido pelos ingleses: era a queima simultânea da viúva com o corpo do falecido marido.

Registra a história, também o  pomposo funeral dos faraós do antigo Egito: seus corpos eram embalsamados e colocados num sarcófago que seria recolhido a túmulos grandiosos, alguns dos quais, as pirâmides, ficaram intactos até os nossos dias.

Além de alimentos, armas e objetos de uso pessoal, o defunto real se via acompanhado de desenhos de seus familiares e do livro em que prestavam conta aos deuses do que tinha feito de bom durante a vida.

Gregos também costumavam queimar os seus mortos, enquanto os babilônios e caldeus enterravam-nos em tumbas cavadas nas encostas das montanhas. Os judeus, mais tarde, adotaram esse costume.

Os romanos enterravam os mortos em cemitérios e covas cobertas com lápides, como fazemos hoje. Quando subterrâneos, esses cemitérios chamavam-se catacumbas. E os povos bárbaros da Europa — bretões, germanos e outros — enterravam os defuntos com armas e geralmente em carros de guerra, pois acreditavam que só os guerreiros entrariam no céu.

Na América, os índios maias, incas e astecas enterravam os mortos em ataúdes de cerâmica trabalhados. No Brasil dentro de grandes vasos, com as mãos segurando os joelhos.
 

Antes de Cristo

O dia dos mortos tem sua origem no Livro dos Macabeus, da Bíblia Sagrada: Judas Macabeu, fez uma batalha, durante a qual perdeu muitos guerreiros. Para os seus soldados perdidos, ele recolheu donativos dos companheiros e despojos dos vencidos. Reuniu-os todos em uma grande soma que enviou para o templo de Jerusalém, a fim de ser oferecido aos mortos na batalha. Estava instituído o culto pelos mortos.

Esse costume acabou-se firmando entre os judeus e depois espalhou-se pelo mundo. Mesmo em outros povos, sem argumentos de ordem religiosa sempre se procurou lembrar os que morreram, como forma de lembrar a própria vida e seu fim natural, a morte. A intenção de Macabeu foi compreendida e perpetuada pela humanidade.
 

Depois de Cristo

Jesus Cristo disse que há pecados que se pagam na outra vida. E ainda há pecados que não se pagam nem aqui e nem na outra vida. Quanto a isto, Cristo lembrou que "deve-se trabalhar enquanto é dia; à noite (morte) nada se pode fazer".

Com a queda do Império Romano, a religião cristã passou a desenvolver-se em todo o mundo, inicialmente em Roma. Como ali não era permitida a inumação, os cristãos procuravam, nos arredores da cidade, um lugar adequado. Cavaram, então, grandes fossos e abriram galerias nas rochas.

Com as perseguições foram obrigados a esconder os túmulos dos mortos, dando lugar às catacumbas, a mais vasta necrópole já conhecida até hoje. Sobre as sepulturas ergueram basílicas que as gerações cristãs escolheram para exercerem o culto religioso.
 

O defunto brasileiro

Em seu Dicionário do folclore brasileiro, Luís da Câmara Cascudo reuniu diversas crendices populares sobre o cadáver e os ritos de velório e do enterro: "Nem todos têm o direito de tocar no cadáver. Somente aqueles que sabem vestir defuntos. Trabalham depois de rezar e vão vestindo peça por peça, falando com o morto, chamando-o pelo nome: dobre o braços, Fulano, levante a perna, deixa ver o pé!"

Os costumes brasileiros antigos presentes, resumem-se no fato de que o cadáver não pode levar ouro consigo, as mãos não podem ir soltas e, sim, com o terço ou rosário amarrando os pulsos. Para os defuntos não assombrarem a casa, beijam-se as solas do seu sapato, imaculadamente limpo. Não se deixa o morto com a face visível: cobre-se com um lenço, que é levado no funeral.

Se alguém morre assassinado, mete-se uma moeda de prata na boca e o cadáver de bruços. Reza-se o Padre-Nosso e a Ave-Maria e Credo mentalmente para afastar o regresso da ideía do morto, tendo-se o cuidado de não articular nenhuma palavra. Também se acredita que o cadáver da vítima sangra sempre na presença do assassino. Isto é influência da Bíblia, quando Deus diz a Caim:

— A voz do sangue de seu irmão clama-me da terra. (Gênesis, IV, 10).

Outras crendices populares do Brasil referem-se ao mistério da morte, à presença impotente do morto na sala ou no quarto: se o cadáver fica rijo é porque ninguém vai morrer brevemente na família; mas se fica flácido o corpo, então o defunto que levar alguém consigo. Os olhos são fechados devagar:

— Fulano, feche os olhos para o mundo e abra-os para Deus e a vida eterna.

Depois vem o luto, o uso da fita negra no braço, a missa de sétimo e de trigésimo dia, a viúva de luto por um ano. Depois, com os vizinhos, os parentes e amigos, ela se recordará no meio de uma conversa:

— O falecido gostava disso, o falecido sempre dizia que...
 

Uma tradição milenar

Sejam quais forem os costumes dos povos, a reverência aos mortos é uma tradição milenar. As mais antigas tumbas de faraós e simples nobres do Egito, do ano 3000 antes de Cristo, já trazem inscrições sobre a vida e os atos do morto. Em uma delas se encontrou essa filosófica e humana mensagem de um sumo-sacerdote egípcio para a sua mulher:

"Não deixes de comer, de beber, de te embriagar e praticar o amor; não deixes que a tristeza te invada o coração".

Os romanos, em suas inscrições não costumavam recordar a morte, mas a vida do extinto: "Ela fiou a lã, guardou a casa, foi mãe de quatro filhos vigorosos e belos. Amou seu marido de todo o coração".

Entre gregos antigos, a recordação dos mortos se fazia em fevereiro, como os egípcios, também ofereciam alimentos para os mortos, como relata Homero ao citar os funerais de Patróculo.

Na Europa ocidental, por longos séculos, o dia dos mortos conservou um caráter pagão, apesar da penetração do cristianismo: os mortos eram homenageados ao ar livre, junto dos monumentos fúnebres, em meio a licores e iguarias que, muitas vezes, terminavam em orgias.

Coube à igreja o papel de instituir os Dia dos Mortos, como uma oportunidade, não apenas para reverenciá-los, como, também, para que os vivos pudessem meditar nas palavras do Evangelho de Cristo:

— Lembra-te, homem, que tu és pó e em pó te hás de tornar.

("Onde a vida acaba". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 02 de novembro de 1965)
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