Nina Rodrigues colheu de velhas pretas baianas uma estória de madrasta, com alguns toques da estória tradicional de inveja da madrasta e das maldades de sua filha contra a enteada.
Nessa versão afro-brasileira, a enteada é encarregada de ir à feira vender milho. Esta se perde no caminho, amedrontada com os possíveis castigos que iria receber, a menina resolve ir até o país das fadas. Como não sabe o caminho, sai perguntando. Entretanto só ensinam em troca de algum favor seu. A menina que é bondosa, por natureza, não nega favores e assim vai conseguindo o que quer. Até grandes pedras do caminho adquirindo aspectos humanos pedem à menina que as mudem de posição (o que ela faz com grande sacrifício), uma onça de cria recém-nascida também lhe pede favores. E assim a menina chega até o país das fadas. Uma delas faz-lhe presente de três coquinhos, dizendo: "Um você parte no caminho, outro na porta de casa e o terceiro dentro de casa. Desse modo pode voltar sem perigos". Ao abrir o primeiro coco, aparecem carro de cavalos e pajens para levá-la; no segundo coco, rebanhos e pastores; no terceiro já no interior da casa, aparecem riquezas sem conta.
Vem agora a cobiça e inveja da madrasta. Solicitada a explicar como conseguira tudo a enteada, sem maldade alguma, relata o ocorrido. A madrasta envia a filha com a intenção de obter os mesmos favores. Entretanto esta não ajuda ninguém, mesmo assim consegue chegar ao país das fadas. Também recebe três cocos, porém, aparece uma cobra imensa que a persegue, tendo a custo se livrado dela. Ao segundo coco, outros bichos ferozes que conseguem alcançá-la, matando-a na porta de casa.
Até ai, a estória tem as características essenciais das demais estórias que exploram o tema de madrastas e enteada. O que existe a salientar, entretanto, é a raiz banto do relato, que segue passo a passo uma versão negra importada pelos escravos. Nessa estória de origem a menina vai a feira vender azeite de dendê. O irwin (espírito benfazejo) compra todo o dendê mas ao pagar engana a menina, dando-lhe algumas moedas de menos. A menina reclama, o irwin sai correndo e a menina atrás, até o país onde ele mora. Como o espírito viu que a menina tem o senso de responsabilidade procura recompensá-la e diz-lhe: "vai ali ao campo e colhe seis cabaças das que estiverem caladas; as que disserem, colhe-me, colhe-me, deixa-as lá. Só deves apanhar as que estiverem caladas". A menina obedece e recebe recomendações idênticas às da estória anterior. A diferença está na duplicidade de cabaças. Rebanhos, pastores, riquezas sem conta saem do interior das cabaças. A mãe da menina toma de tudo um pouco e envia a matriarca da tribo de presente. Esta ao indagar a origem dos ricos presentes, recusa-os e envia a própria filha ao encontro do irwin.
A filha da matriarca ao vender o azeite de dendê recebe o troco certo e diz que está errado e o persegue sem razão de ser. Este para dar-lhe uma lição, manda-lhe colher as cabacinhas que estiverem caladas. A menina que é desobediente apanha as que pediram para ser apanhadas.
Logo ao abrir as primeiras aparecem animais ferozes, na segunda ainda piores e ao chegar em casa, esta está fechada e um incêndio a consome.
Pelas semelhanças básicas é evidente que a versão baiana tem origem na estória negra, embora com as modificações e adaptações já realizadas pela aclimatação no novo habitat.