Um dia devido às chuvas fortes e seguidas que caíram sobre a região do Vale do Jequitinhonha, isso no ano de 1942, uma leva de garimpeiros que demandava às lavras de cristal de rocha da serra do Acaba-Mundo foi obrigada a parar na margem esquerda desse fabuloso caudal. A única e rústica ponte de madeira que possibilitaria a continuação da viagem desses homens havia sido levada pela correnteza. Foi essa parada forçada, que a princípio desesperou os garimpeiros, que deu origem ao nascimento da mais rica lavra de diamantes, que naquele ano enriqueceu muita gente. Assim também começa nossa história.
Antes do bailado, um pouco de garimpo
O ponto de partida para uma garimpagem, seja ela de que tipo for, isto é, de diamantes, ouro, cristal de rocha, ou outras pedras preciosas e semi-preciosas, é a "leitura" do cascalho, bem como a análise das "informações". Chama-se leitura de um cascalho a maneira pela qual um garimpeiro experimentado, separando pedra por pedra, verifica a ocorrência em maior ou menor número, desta ou daquela "informação". "Informação", ou simplesmente "forma", são os minerais chamados satélites do diamante, do ouro e de outras pedras preciosas. Conheço várias informações ou formas que por sua natureza indicam este ou aquele tipo de garimpo. Por exemplo "Pedra de Santana", "Dente de cão", indicam na certa um garimpo auriféro. Para o garimpo de diamantes temos várias formas ou informações a saber: Sericoria, Cativo de Cobre, Agulha Ruíva, Fava, Ovo de Pomba, Caboclo de Tinta, Caboclo de Tinta, Caboclo de Azeite, Cativo de Ferro e outras mais. São nomes curiosos que enriquecem o linguajar folclórico dos garimpos.
O bailado garimpeiro
Como dissemos no início deste artigo, uma leva de garimpeiros forçada pelas circunstâncias adversas havia parado numa praia do Jequitinhonha. Enquanto esperavam que o rio voltasse à "sua caixa", isto é, ao natural, passaram a experimentar o cascalho ali jogado pela erosão. Como que por encanto vários diamantes foram achados e uma rica lavra apareceu então.
Do dia para a noite surgiu a "Currutela", isto é, pequena povoação aventureira formada por ranchos dispostos em desalinho. Centenas de outros garimpeiros e outros tantos aventureiros rumaram para o local. Loja, onde se podia comprar "de um tudo", casas de "mulheres-dama", como são chamados nos garimpos as meretrizes, bares, cabarés, transportaram-se para a nova lavra. Num desses cabarés denominado Bateia de Ouro foi que assisti a um bailado que passarei descrever.
O rancho onde funcionava o Bateia de Ouro era amplo e baixo. Construído com troncos de árvores era coberto de folhas de palmeira. Um salão de chão batido, iluminado por dois lampiões de querosene servia de local para se beber e também de "pista para se dançar". Um violão, um cavaquinho, um pandeiro, uma sanfona pequena e uma espécie de atabaque, constituíam os instrumentos da permanente orquestra.
Ao som cadenciado do bater do atabaque e do pandeiro, naquela noite quente de setembro de 1942, já naquele recanto esquecido do Vale do Jequitinhonha, iniciou-se o bailado garimpeiro. Duas filas de homens, descalços, movendo agilmente os pés como acontece no sertão, de tempos em tempos paravam de bater os pés e passavam a bater palmas os pés e passavam a bater palmas com as mãos elevadas acima da cabeça. De repente, os homens passavam a formar um círculo no meio do salão continuando a bater dos pés. Uma jovem que se encontrava sentada apreciando os homens, rumou para o meio do círculo e com um grande lenço colorido passou a dançar de modo provocante, indo e vindo, como que ameaçando furar o círculo humano que ao redor dela se formara com os homens de mão dadas.
O violão, que até então se mantivera silencioso, entrou em ação e a jovem, levando as mãos às cadeiras, cantou:
Quatro coisas neste mundo
A favor de um garimpeiro
Lavra rica, rancho farto
Mulher-dama e capangueiro.
Dito esses versos a jovem voltou a dançar e, fitando insistentemente um dos homens que formavam o círculo no meio do salão, convidou-o a bailar em sua companhia atirando-lhe uma das pontas do lençol. Agora, os dois de mãos dadas, o lenço colorido sobre o pescoço de ambos, ao ritmo daquela estranha canção, deram prosseguimento ao bailado.
Separando-se bruscamente da jovem, o garimpeiro ergueu a voz e cantou também:
Mulher-dama quando morre
Vai pro meio da prefunda
Garimpeiro vai atrais
Com a bateia na cacunda.
Os homens que formavam o círculo em redor do garimpeiro e da jovem moveram-se, gingando o corpo e batendo fortemente os pés repetindo a uma só voz o último verso... "Com a bateia na cacunda".
O desafio entre os dois prosseguiu. Coube desta vez à jovem responder ao garimpeiro soltando mais uma quadrinha que dizia o seguinte:
Já lavrei na Serra Grande
Na Furna e no Ribeirão
Só me falta abri uma cata
Dentro de seu coração.
Finalmente, para não citar várias quadrinhas ditas pelos dois contendores, citaremos apenas mais uma, dita pelo garimpeiro, por achá-la curiosa:
Quatro coisas neste mundo
dão azar num garimpeiro
mulher bonita e vaidosa
cachaça, jogo e dinheiro.