"A conversa ainda não chegou na cozinha" ou melhor, disse Mauro Mota, a conversa saiu da cozinha, centro de interesse da casa patriarcal do Nordeste, lugar amplo, de grandes paredes deliciosamente em preto e branco, ou em oca e cinza, onde um grande fogão aquecia todo o ambiente e os grandes tachos rescendiam a mel ou a doce de caju, ou a canjica, atraindo a meninada toda e os agregados da família, que não eram poucos, e as negrinhas e molecas assim como as comadres "alcoviteiras", cozinha que Luiz Marinho eternizou em sua peça, lembram-se da gozadíssima velha que Diná interpretou maravilhosamente? Mas voltemos à palestra de Mauro Mota ponto alto da comemoração do Dia Nacional do Folclore, no Teatro Popular do Nordeste, lotado de quantos admiram o conferencista, como de membros – em sua totalidade – da Comissão Pernambucana de Folclore.
O conferencista estava ladeado pela nova diretoria da CPF, Katarina Real e Valdemar Valente. O tema título escolhido por Mauro Mota, doçaria popular do Nordeste, deu lugar a uma ampla exposição da cultura, ou melhor, da dinâmica cultural de toda uma região, que em determinada época, fez da cozinha a peça principal da casa. Os utensílios da cozinha, os de barro, de palha, de ferro (que pesada chaleira de ferro, que sem um pingo d'água parecia estar cheia) e os enormes espetos assim como os pegadores de brasa, coisa que hoje se fala tanto o que não existe mais, acentuou o conferencista, dizendo, "não posso mandar brasa porque hoje ela desapareceu", substituídos que foram os fogões a carvão ou a lenha pelos higiênicos, limpinhos e pequenos fogões a gás. O tição queimado que servia para riscar "cademia" no chão e escrever inconveniências pelas paredes, também morreu.
O conhecimento do tema, aliado no fino humorismo peculiaríssimo ao Mauro Mota, fizeram o assunto transbordar dos doces para os ditos populares ligados à cozinha, e ao contexto social que se desenvolveu em torno dos tachos de cobre, e dos fornos em abóbada, verdadeiras fornalhas quando cheios de brasas para as dúzias de bolos que se faziam. Minha mãe conta que em seu tempo de menina, na enorme cozinha da propriedade de Bela Vista, pertencente ao seu pai, coronel Ageu Bandeira de Melo, cinco a seis agregados cada qual com o seu alguidar, batiam os ovos e preparavam os bolos de massa de mandioca, pois, além da família numerosa, tem os sobrinhos, afilhados e cinco filhos, minha avó costumavam enviar bolos aos amigos, em propriedades ou engenhos da redondeza. Raspar o tacho de qualquer comida, sobretudo de canjica, era a maior delícia dos meninos, que se postavam de colher na mão aguardando, dentro da cozinha, a hora. Foi por viver dentro das cozinhas que muita criança se queimou em pequena. Uma tia minha, com família numerosa, continuou, em Nazaré, a tradição familiar, com enorme cozinha, onde Mauro Mota, em menino, conviveu e provou os quitutes da casa de "seu Melo" onde além da cozinheira e copeira, haviam muitos agregados, e freqüentadores da cozinha, como a Bastiana, da casa de dona Josefina Guerra, freqüentadora de todas as cozinhas da cidade, de modo que era o jornal-falado mais atualizado e rico de informações. Bastiana distinguia-se por uma viva inteligência e um espírito maquiavélico de ministro de estado, tendo poderes para promover (como se diz atualmente) qualquer cristão. Dai ser muito bem recebidas por todos.