Por mais que a família do defunto fosse pobre, nunca faltavam as almas piedosas que, logo ao saber do falecimento de algum conhecido ou amigo, apareciam oferecendo-se para colaborar nas providências habituais do velório e preparativos para o sepultamento. Ainda hoje, em Pedreiras do Maranhão, existem velhos e inevitáveis freqüentadores de velórios, ali mais conhecidos como "sentinelas de defuntos". Alguns apareciam para participar dos cânticos, dos hinos fúnebres; outros, simplesmente para contar e ouvir histórias, regadas, de vez em quando, por uma "rodadinha" de cachaça, alternada por um café com bolachas ou mesmo um chá de capim-santo.
Praticamente, nesses velórios, quase não se ouviam choros nem lamentações exageradas por parte dos familiares do falecido, já que estavam sempre ocupados, com a modesta cozinha em atividade e no sentido de dar a melhor assistência às suas visitas. Formalizada a "sentinela", eram iniciados os cânticos habituais em que puxadores profissionais se revezavam até o amanhecer do dia, enquanto nos bastidores, o tempo e o ambiente eram aproveitados pelos contadores de piadas e casais de namorados.
Entretanto, os colaboradores mais prestimosos destes acontecimentos eram, sem sombra de dúvida, os coveiros. Não se trata aqui de coveiros profissionais. Eram aqueles trabalhadores companheiros do morto, que se ofereciam espontaneamente para cavar a sepultura. Nada cobravam em troca do seu trabalho. Bastava fornecer-lhes um enxadeco, uma pá e um litro de cachaça, e marcar onde deveria ser cavado o sepulcro.
O cemitério não tinha muros e emendava com a mata. A obrigação dos coveiros era abrir uma cova com sete palmos de profundidade, dez de comprimento e quatro de largura no lugar apontado pelo dono do enterro, o qual se processava sem qualquer burocracia mesmo nos casos conhecidos como "morte matada" — aquela que o falecido foi assassinado. Os demais casos eram conhecidos como "morte morrida" — aquela em que o falecido, antes de morrer, passou vários dias acamado com algum tipo de moléstia. Este negócio de "necropsia", causa-mortis e Instituto Médico Legal ainda hoje são palavras desconhecidas por grande parte daquela gente. O atestado de óbito não necessitava de papel nem de médico. Havia, porém, o cuidado de esperar-se 24 horas após a ocorrência do óbito, tempo, julgado suficiente para ter-se a certeza de que o falecido não tinha mais nenhuma chance de reviver. O dono do cadáver, orientado, geralmente, por um ancião da família, declarava o falecimento consumado somente após a prova do espelho, a qual consistia na colocação de um pequeno espelho ou mesmo um pedaço de vidro plano por sobre o nariz do morto por alguns minutos. Completado o tempo conveniente, retirava-se o espelho e os mais velhos o examinavam cuidadosamente: se apresentasse sinais de embaçamento, o sepultamento era adiado. Era uma medida de segurança para que o defunto não tivesse nenhuma possibilidade de reviver debaixo da terra, o que, segundo ainda hoje se acredita, seria fatal para a condenação da sua alma. Esta lógica baseava-se, principalmente no fato de que lá, mesmo ficando lúcido, ele já não conseguiria ter fé nem esperanças, e os desesperados não entram no céu.
O caixão mortuário era artigo de muito luxo, utilizado somente pelos mais bem aquinhoados da fortuna. Enterro de pobre e até certo nível de classe média não tinha caixão.
Para facilitar o transporte até o cemitério, utilizava-se, e utiliza-se ainda hoje, a rede amarrada em um longo pau, conduzida por dois homens que, em marcha acelerada, quase num trote de cavalo, corriam acompanhados por inúmeros carregadores reservas que os substituíam de vez em quando, sem reduzir a velocidade. Havia até quem brigasse por uma chance de alguns minutos para conduzir o "pau da rede". Havia, porém, carregadores que, certamente por deverem favores ou amizades ao falecido, faziam questão de continuar a sua tarefa até o último fôlego, tal como se estivessem pagando uma promessa. Alguns cansavam no caminho e regressavam, mas a maior parte do cortejo acompanhava até o fim, mesmo que à distância, em algumas localidades, chegasse a mais de dez quilômetros.
As redes que conduziam cadáveres eram, normalmente, lavadas e reaproveitadas pelos seus familiares. Eram raríssimos os casos em que o defunto era enterrado com a rede. Somente quando se tratava de cadáveres já putrefatos ou nos casos de morte por moléstia reconhecidamente contagiosa, principalmente a varíola. É claro que, aí, os responsáveis pelo enterro procuravam utilizar uma rede que já estivesse também no fim de sua vida útil.
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