A pesca do arrastão só está em uso, pela costa litorânea paulista, em Itanhaém, em Iperog e na Praia Grande. Mas enquanto nas duas primeiras faixas do mar os animais que, primitivamente, puxavam a rede deram lugar a homens, dez em cada corda, no Boqueirão da Praia Grande subsiste o primarismo pitoresco da pesca do arrastão com bois. Asseguram que é o derradeiro reduto, no Sul, desse gênero de pescaria, que relembra o amanhecer da captura do peixe pelo homem.
É a pescaria morosa, em que o pescador tem vagares para encher os olhos e a alma no mar que é para ele algo mais do que o mero ganha-pão. Na lentidão do caminhar dos bois pelas areias puxando as cordas da rede submersa no oceano, no ritmo dela, o pescador fuma, divaga e vai vivendo a sua vida que se alimenta do mar.
Assim é a vida de mestre Antero Rodrigues, capitão da pesca no Boqueirão. Ele põe o seu barco o Neptuno no dorso das ondas branca, e se faz ao largo quando o dia amanhece. Faz isso há vinte e cinco anos, desde menino, porque é filho de pescador. Seu pai pescava de canoa, e ele é o mestre da pesca do arrastão.
Quando o barco está longe, a dois quilômetros da praia, mestre Antero e mais três homens lança à água a rede de 200 metros. Lançam-na em qualquer lugar, eles dizem, mas a intuição, que é a sabedoria do sangue, os guia. Conclui-se assim a primeira parte da tarefa pesqueira.
O barco volta à praia, com os dois extremos das cordas. Então as parelhas de oito bois se aproximam lentos, e junto às ondas oferecem a canga para os cabos das cordas. Começam a puxar; por duas horas ficam puxando a rede, que vem vindo, se arrastando, do seio do mar. Um e outra turista espia e vai andando. Sabem que demorará antes que chegue a rede pois é lerdo e sonolento nas molhadas areias o passo velho dos bois.
Enquanto se cumpre esta segunda parte da lida pesqueira, escutemos mestre Antero, o último pescador dessa modalidade de pesca primitiva. De chapéu na cabeça, cigarro na boca, pés nus nas tábuas do barco, recolhe as cordas.
Ora é cheia, ora vazia
As malhas da sua rede (aliás do seu patrão da cidade) colhem camarão, pescada branca, amarela, arraia, cação e corvina. Dependendo do mar. "O mar é quem manda", ora vem cheia, ora vazia. Às vezes o mar manda que por seis ou sete dias não joguem a rede. É quando se enfurece, e "com o mar, ouça o que lhe digo, não se brinca".
Pelo verão e à primavera, cada redada recolhe de 3.000 a 3.500 quilos de pescado. São três ou quatro redadas por dia — e é um mundão de peixe. As ondas são cheias e quentes (como o outono das fartas colheitas da terra). Então o pescador esquece o mar do inverno feio e escurecido e ama esse mar de janeiro, que é belo e que o acaricia.
Ele se lembra que há vinte e tantos anos, quando havia poucos pescadores, as pescarias eram boas demais. A rede transbordante enchia de cinco a seis caminhões. Hoje... hoje há muito "fracasso" de peixes porque há muito pescador. Mestre Antero sabe que os japoneses se assenhorearam dos nossos mares atlânticos, pescando com o fabuloso radar. E que o governo deles ajuda. "Ajuda tanto que podem até enlatar o pescado e mandar para o Japão".
Mestre Antero não entende de ciência, e só tem recurso dos bois, das cordas, do seu barquinho e dos seus homens contra o capricho e a inconstância do mar. Mas... "dona, vida que não tem as suas amarguras não é vida de homem".
"Amargura" é quando o mar defendendo os seus segredos e a sua solidão, repele o pescador. Mas se a tarefa já foi iniciada, o pescador não a larga. Esquenta o corpo com a pinga, aperta no peito a medalha (há sempre no peito dele a medalha de alguém) e entrega-se à pesca e ao mar, à aventura fascinante. Não deixa a pesca "por ter amor nela; nela e no mar: o mar é como a mulher".
"Saiam todos! Arreda"
Em vésperas de domingos e feriados a apanha pesqueira costuma ser à meia-noite para que às seis da manhã esteja finda, Mestre André resguarda-se na madrugada para fugir dos veranistas que assaltam a rede e querem pegar o peixe de graça. "Tem vez que eu preciso, com perdão da palavra, ser..." (censurado).
Agora os turistas vão se aproximando, os bois vão apertando a rede. A rede já está pertinho, é verde, e vem respingando. Há lufa-lufa na água, moças e senhoras que não vestem maio arrebanham as saias, homens e crianças rodeiam — vem, das profundezas do mar chegando, a colheita do pescador!
É a terceira parte da faina pesqueira. "Saia todos! Arreda" — os braços rudes dos homens do mestre Antero tentam afastar a multidão. E eles repetem, na azáfama brusca: "Arreda!" — Ninguém arreda pé, esperando a rede que, embaraçada em algas, de bordas gotejantes já faísca, e é um luzeiro de escamas.
Mestre Antero franze o cenho. E pensar que o pobre tem mais vergonha do que o rico que "rouba" o peixe que salta das malhas da rede e vai catar nas águas vivas ardentes, retiradas dos balaios, as sobras da pescaria. Tudo e todos se molham, como no batismo dos evangelistas. E os bois lentamente se afastam. É o crespúsculo da pesca do arrastão.
Jangada Brasil © 1998-2007 | Termos e condições de uso