Pegar touro a unha

J. O. Nogueira Leiria

Não negarei que me agrada deparar, no cinema ou nas revistas ilustrada, essas cenas dos chamados rodeos americanos ou das vaquejadas do Nordeste brasileiro. Admiro, por certo o arrojado espírito esportivo que acompanham os primeiros e a habilidade que as segundas exigem. Porque, já aqui, há que se fazer uma distinção entre as proezas dos cowboys e as dos vaqueiros de nosso sertão. Será uma distinção de ordem técnica, por assim dizermos, — coisa que não existe no primeiro caso, mas que já se vislumbra nas vaquejadas.

Todos saberão, certamente, o que é um "rodeio" mas que nada tem a ver com este, onde, aliás, ninguém cuida de divertir-se, e, sim, de trabalhar, embora se trate de lida agradável, por vezes entremeada de lances esportivos, quando a perícia dos campeiros se revela na prática dos "apartes", dos pialos e tiros-de-laço, conforme as circunstâncias o exijam.

Conforme as circunstâncias o exijam sim; porque ninguém desatará o laço só pelo gosto de atirá-lo, à toa, naquela arena de trabalho onde tudo se ajusta a um ordenado ritmo. Se alguém duvidar dessa informação, que experimente atropelar o cavalo, sem mais aquela, num "rodeio parado" em nossas coxilhas, para ver se o mínimo que lhe poderá acontecer não será o patrão, ou mesmo o capataz mandá-lo para o sinuelo, pra não estar estorvando...

Mas, falemos dos rodeos do Texas, semelhantes como se sabe a um circo de diversões. Em locais preparados, com estádios para a assistência, estábulos que se abrem para uma grande arena central, em nada parecida com a nossa mangueira, alguns animais, de preferência cavalos e touros, e mais os cowboys, estará tudo preparado para desenrolar das provas. Estas — já o dissemos —, se revestem de grande arrojo, é verdade. Mas que lamentável falta de técnica, ou, melhor, de perícia, de habilidade, de domínio sobre os brutos, enfim... Mal se abre o portão de uma daquelas estribarias, de onde sai um potro ou um zebu, o cowboy salta no lombo do animal. Salta "em pêlo", é certo, mas sem dispensar as alças de uma cincha, as quais se agarra. Mas, assim como salta, já cai; às vezes, até no primeiro corcove. E cai sem, nenhuma graça, desastradamente, resvalando pela barriga do bruto, ficando-lhe por baixo das patas, recebendo coices tremendos...

É, afinal, o que chamaríamos aqui, uma palhaçada de baianos... Qualquer coisa assim como exibições de "máscaras", nos intervalos das antigas "corridas de cavalhadas", quando os mesmos, para fazerem rir a assistência, caem de mansos burricos e petiços macetas, conforme vimos, neste último verão em Alegrete, em magnífica reprodução daquele espetáculo que já havia desaparecido de nosso meio. "Ora... — diria um campeiro dos nossos — cair assim não tem graça", querendo significar que até no insucesso deve haver perícia, uma expressão de arte, rude, talvez brutal, mas sempre reveladora de tipo e sangue frio, de uma diretiva pessoal em face do imprevisto.

O gaúcho antigo também montava assim, "em pêlo". Montava em reses e potros chucros, à saída das mangueiras, nas marcações, que eram a sua grande festa. E montava sem nada mais que o mango e as esporas, saindo a pleno campo, vezes, ainda procurava salvar o desastre com sair ajeito, de pé ou correndo, para não incorrer no ridículo. Quase sempre porém, saía triunfante da proeza, inclusive fazendo o animal rodar, por gosto, em plena corrida, com uma bordoaba, a cabo de mango, entre as orelhas do potro ou as aspas do novilho, para sair passeando"...

De muitos desses, contam que ainda saíam pitando o cigarro aceso antes de montar no bicho... Contudo de jamais ter assistido proeza assim, outras testemunhei nas quais o arrojo se mesclava ao que insisto em chamar a arte de ser campeiro. Lembrarei, como exemplo, já não mais com vistas ao rodeo norte-americano, mas, sim, às vaquejadas do Nordeste, a maestria com que um campeiro de Garruchos executava a mesma façanha de derrubar um novilho, em plena corrida, só com dar-lhe um tirão na cola.

Não ficava, porém, só nesse lance a prova daquele meu amigo da costa do Uruguai, filho de estancieiro, cujos campos lindavam com a fazenda em que eu passava umas férias, já muito distantes no tempo, mas ainda bem vivas em minha memória. Saíamos para o campo, eu e outros companheiros, com esse ar despreocupado de quem anda a seu gosto, e, a meio caminho, estimulávamos o visitante que já se habituara conosco, a repetir suas façanhas. Tingó (era assim o seu apelido), um moço ruivo e atarracado, baixote, mas atlético, mandava que escolhêssemos o novilho, contra o qual cerrava perna, tomando-o de surpresa. Emparelhava-lhe o cavalo e, em plena carreira, dava-lhe o inesperado tirão.

Até aí, nada mais, portanto do que fazem os vaqueiros nordestinos. Mas o caso é que Tingó ia além do que as crônicas e o cinema registram sobre os afamados vaqueiros: nem bem o animal caía ele se ia junto, de cima do cavalo que só estacava mais adiante, à espera do dono, e segurava a rês pelas aspas, torcendo-lhe o pescoço. Com a presa assim completamente subjugada, dentro de uma rapidez que estarão a adivinhar, o campeiro era senhor absoluto da mesma, e a deixava quando e como quisesse, para se encaminhar, então tranqüilamente, ao cavalo, que o aguardava, de rédea no chão, como familiarizado com aquele exercício.

Isso, porém, não era, propriamente, "pegar o touro a unha", conforme título de reportagem ilustrada que li, há dias, numa revista sobre as tradicionais vaquejadas. Pegar touro a unha — pelo menos para nós e conforme fazia o mesmo Tingó, é coisa muito diferente. Prova sobre todas arriscada, ele a executava, para vermos, dentro da mangueira toureando a rês escolhida. Quando esta investia como se viesse cega pela gana da cornada, o improvisado vaqueiro desviava o corpo, tomando-a por uma ou pelas duas guampas, conforme a direção do golpe, ficando, em seguida, torcer a cabeça da fera, derrubando-a com tal agilidade e leveza como se não empregasse maior esforço na perigosa manobra.

Devo assegurar, ainda, que esses exercícios de tauromaquia não eram feitos com gado lá muito manso. Pelo contrário, assisti-os praticados com reses de um gado "alçado" (verdadeiramente alçado), que meu pai adquirira de vizinhos exatamente na costa do Uruguai, numa zona de capões e matos, onde abundava o pau-ferro que dava nome a invernada e que assim passou também à tropa. Com esse gado "Pau-ferro", em cuja reculuta se teve de empregar até o garrote (uma tira de couro que se atava ao garrão da rês, depois de derrubada a laço, deixando-a imobilizada, enquanto se passava à pega de outras), com essas feras, que, então, se tratava de costear nos pastoreios e na mangueira, era que meu amigo, que nunca mais voltei a ver, fazia essas proezas.

Isso, que se chama "pegar touro a unha", impropriamente aplicado, como li, à arte com que o vaqueiro derruba a rês pela cola, ou esta mesma prova acrescida da presa, como fazia Tingó, está a me provocar a declaração de que a perícia desse gaúcho sobrepujava a que se exalta nas vaquejadas e, muito mais ainda, a dos desajeitados cowboys, a despeito da valentia com que se arriscam aos mais espetaculares tombos, como os que o cinema reproduz... Não foi debalde, decerto, que o campeiro de que falo nasceu e se criou no 4º Distrito de São Borja, em Garruchos, na fronteira com a Argentina, designação que, segundo alguns investigadores desses assuntos, teria dado origem ao étimo gaúcho...

 

(Leiria, J. O. Nogueira. "Pegar touro a unha". Correio do Povo. Porto Alegre, 26 de abril de 1957)