"Boca de siri" e outras bocas
Guilherme Santos Neves
Outra expressão popular, muito freqüente no Brasil, é a que serve para indicar uma resolução imediata, pronta, sem aviso prévio de palavras. Nela entra a boca.
Vão aqui alguns exemplos colhidos em livro de Valdomiro Silveira, sem contestação, um dos escritores brasileiros a cujas páginas se pode, sem receio, atribuir valor documental em questão de regionalismos. Em Leréias (Livraria Martins, São Paulo, 1945, p.45) lê-se: "Antão ela reparou bem em mim, não disse mais nada, e saiu adiante. Fui caminhando umas duas braças atrás, e pondo atenção naquela boniteza de corpo, que brilhava no escuro. Ela não dizia esta boca é minha, botava o pé na estrada, e os sapatos de cordovão iam rangendo..."
Noutro livro do mesmo autor paulista, Mixuangos (José Olímpio, Rio de Janeiro, 1937), encontro à página 21: "Entretanto, o Geraldo puxou ao Francisco pela manga, sem dizer esta boca é minha: o Francisco passou a mão pela camisa do Astolfo; o Astolfo cutucou ao Manezinho, com o cotovelo..."
E, adiante (p.225), outra vez; "Rabo-de-tatu cantou na pele de nhá Ninha: viram só que judiação! Pois nhá Ninha não gemeu nem deu fé: Recebeu a surra sem dizer esta boca é minha".
Também no livro Água funda, de Ruth Guimarães (Porto Alegre, 1949), deparei, à página 14, este exemplo expressivo da mesma expressão: "Sinhá não brigava com ele (...) ou então se brigava era tão escondido, que nem o pessoal de cozinha, que vivia com o ouvido afiado para pegar alguma coisa, sabia de nada. Nunca disse: "Esta boca é minha". Nunca".
Neste mesmo livro — curioso livro esse — de Ruth Guimarães, encontro, à página 45, duas outras locuções populares em que se encaixa a boca. Uma é um velho provérbio, fruto da sabedoria do povo: "— Ora veja! Quem havia de dizer. Com um capataz!...\ — Pois é... \ — A boca falou, corpo pagou". A outra expressão é uma espécie de reprimenda ao que se disse: "Pagou... \ — Ainda não. Deus queira que eu me engane, mas isso, ainda vai dar pano para manga. \ "Boca que tal disseste!"".
Deparei-me também, no último livro de Léo Vaz, Páginas vadias (José Olímpio, Rio de Janeiro, 1957, p.2: "Até que um dia por valer de melhor assunto, um velhote da abominável geração que na sua mocidade gostou de Anatole France se lembra de anotar uma ou outra manchinha no reverberante brilho dos nascentes astros. Bocas que tal disseste! Abrenúncio, Santana! Sacrilégio!"
Encontro também um exemplo antigo dessa locução numa carta do Cavaleiro de Oliveira (século XVIII). Está ela na coletânea reunida por Aquilino Ribeiro para a Coleção Sá da Costa (Lisboa, 1942, p.19): "Todas estas senhoras, meu senhor, se achavam na Assembléia quando contei a minha bela história de Trafaria, Oh! boca que tal disseste! Se V. M. visse como as deidades gordas, macilentas, velhas e fracas tomaram o remoque, havia de julgar, como eu julguei que quem se queima, alhos come..."
Essa "assembléia", metida no exemplo do picaresco Cavaleiro de Oliveira, nos traz aqui à colação a expressão evidentemente parlamentar (ou para lamentar, usando um trocadilho velho como os narizes) sinônimo burlesco de boca fechada ou caladinha, "muda como um peixe". Aplica-se, quase sempre, ao senador ou deputado que nada diz, que nada fala, nem mesmo para articular duas ou três palavras encadeadas em frase. "Fulano é um boca de siri!" é expressão que se ouve creio que em toda a parte, embora o Dicionário da gíria brasileira, de Manuel Viotti (organizado sem a mais mínima orientação científica) apenas a consigne como "gíria carioca", e lhe atribua este significado que, por aqui, geralmente não possui: "boca de siri: usado quando se deseja silenciar algum fato aos demais ouvintes. (D.F.) Tem como equivalente a interjeição moita!" (2ª edição. São Paulo, 1955, verbete "Boca").
O Dicionário conhecido como de Laudelino Freira não consigna a expressão. Também não o faz o Tesouro da fraseologia brasileira, nem A linguagem carioca, livros de Antenor Nascentes. Da mesma forma — e é realmente estranho — não registra a locução o Pequeno dicionário da língua portuguesa (9ª edição), sob a supervisão cuidadosa de Aurélio Buarque de Holanda — mais rico e copioso dicionário em brasileirismos.
No entanto, a expressão é corrente e moente entre nós, tendo sido até encaixada em livros, como tive ocasião de ler algures, não podendo, infelizmente, indicar a fonte por não encontrá-la agora à mão.
Creio perfeitamente dispensável acrescentar que a locução "boca de siri" não se aplica às mulheres — sejam elas parlamentares ou não.
Embora não pense eu da mesma forma, já lá dizia, no século XVII, o claro e elegante clássico da língua que foi o padre Manuel Bernardes: as mulheres "têm a língua mais expedita do que o entedimento", e, noutro passo mais forte: "língua de mulher não cala senão o que não sabe, ou que lhe convém que se não saiba. E "em contendas e pelejas, a mulher é a última que cala, e há as que nem com calhaus na boca deixarão de gritar"...

