Parece que tem bicho carpinteiro

Guilherme Santos Neves

Esta velha expressão do povo que, outrora, nos alegres e vadios tempos menineiros ouvíamos... com certa freqüência pode não ter para um ou dois dos meus leitores, sentido muito claro. Afinal — perguntarão — que diabo de bicho carpinteiro é esse, que alvoroça e agita o corpo dos garotos, tornando-os mais levados e buliçosos.

Esse bicho não está registrado no dicionário de Morais — cuja primeira edição é de 1789. E isso é estranho, porque a expressão "bicho carpinteiro" era (pelo menos até onde pude ir localizá-la) possivelmente conhecida e corrente antes do século XVIII.

O tópico setecentista em que fui fisgar o bicho está no Anatômico jocoso, de frei Francisco Rei de Abreu Mata Zeferino (Lisboa, 1755, tomo 1), em pelo menos duas passagens. Uma, à página 155. Depois de dizer que "os coríntios pintavam as desgraças com a cara de azougue" e que "este, em se vendo solto, não sabe ter sossego", o autor, como que se lembra do desassossego que o bicho carpinteiro provoca e então informa: "Do bicho carpinteiro, diz Filisteu Carpazio que basta meter-se na barriga, para desinquietar qualquer criatura..." (Esse Fislisteu Carpazio é sujeito que nunca vi mais gordo).

No outro passo, à página 204, arma o autor uma expressiva metáfora do fecho da seguinte oitava a respeito do ciúme, a qual aqui transcrevo para deleite do leitor:

"É mostarda ao nariz da paciência
É pimenta ao paladar da vida
É sevadilha à venta da advertência
É pós de Joannes da alma na ferida
É fumo à chaminé da consciência
Que ao olho traz a lágrima vertida
É o ciúme a briga do sentido
É bicho carpinteiro do cupido"

Mas, se Morais não consigna a expressão, o mesmo não acontece com o velho frei Domingos Vieira, que não a esquece em seu grande Dicionário (edição do Porto, 1872): "Loc. ter bicho carpinteiro: estar inquieto, movendo-se continuamente".

A locução ainda é vigente em Portugal, pois se encontra no livro de José da Fonseca Lebre, Locuções e modos de dizer usados na província da Beira Alta (Lisboa, 1924, p.170): "Homem!... Parece que tens bichos carpinteiros... Fala, mas não me puxes pela manga do casaco!"

Cá no Brasil, também a consigna Manuel Viotti em seu Dicionário da gíria brasileira (São Paulo, 1945, p. 52).

Mas vamos à explicação do termo.

O eminente filólogo e folclorista luso, Leite de Vasconcelos, no volume 2 da sua opulenta Etnografia portuguesa (Lisboa, 1936, p.195), teve ocasião de referir-se a alguns "parasitos intestinais", colocando lado a lado esta respeitável trinca: a lombriga, a bicha-solitária e o nosso (nosso, salvo seja!) bicho-carpinteiro. Logo após este último termo, insere o mestre, entre parêntese, isto: oxiúro, que vem a ser, como vejo no dicionário de Laudelino: "Helminto que vive em qualquer parte inferior do intestino delgado ou grosso".

Em nota ao vocábulo, Leite de Vasconcelos acrescenta, explicando o emprego da expressão bicho-carpinteiro: "De ser muito incômodo o prurido anal causado por este verme ("ou fútil nicher" ?!) o que obriga o sofredor a movimentos sacudidos, costuma dizer-se de uma pessoa mexediça, que tem bicho-carpinteiro".

Tenho a informação segura e de procedência mateense que, há muitos anos, lá se dizia censurando muitas crianças arteiras: "Parece que tem bicho carpinteiro na...!" — o que coincide com a explicação que nos dá Leite de Vasconcelos quanto à excusa localização do bicho...

É interessante confrontar a nota do etnólogo português, com o que nos informa Antenor Nascentes em seu Tesouro da fraseologia brasileira (Rio de Janeiro, 1945, p.42): "Ter bicho carpinteiro: ser inquieto, traquinas, não poder ficar sentado num banco, numa cadeira, como se estivesse interiormente roído pelo coleóptero do gênero xylotrogus, conhecido vulgarmente por este nome".

Fui catar esse xylotrogus no bojo do clássico Vocabulário etimológico, ortográfico e prosódico das palavras portuguesas derivadas da língua grega (Rio de Janeiro, 1909, p.602). Lá me informa seu sábio autor, o helenista Ramiz Galvão, ser "nome dado a uma tribo de coleópteros, que corroem... a madeira".

Volto ao Laudelino, que... não consigna esse papa-madeira. Nem Morais.

Aulete e Santos Valente preferem fixar a forma "xilófago", que definem: "designação comum a várias espécies de insetos que vivem nos interstícios da madeira e a roem". Da mesma forma, frei Domingos Vieira: "Termo de entomologia. Inseto coleóptero que rói o pau, que se nutre do pau..."

De qualquer modo — parasita intestinal ou da madeira — esse famoso bicho carpinteiro ou carapinteiro, como diz o povo — é algo que faz a gente miúda ou graúda ficar irrequieta, buliçosa ou frenética, como se estivesse com o diabo no corpo; tal como certos políticos picados da mosca...

Bem, mas isto é assunto para outra conversa.

 

(Neves, Guilherme Santos. "Parece que tem bicho carpinteiro". A Gazeta. Vitória, 02 de setembro de 1956)