Antologia do jogo do bicho

Hermógenes Lima Fonseca

O Beneventino, o velho Beneventino de espírito sempre jovem, deu-me a notícia:

— Você já viu só!

— O que? Que aconteceu?

— Um juiz falando sobre o jogo do bicho e você está metido nessa encrenca...

— Eu, senhor? Só joguei uma vezinha e até ganhei a centena, mas foi há tanto tempo que suponho já esteja prescrito o delito que pratiquei. Recordo-me que o palpite foi dado num dia de finados. Eu e outros companheiros fomos ao cemitério e como não tínhamos parentes a chorar, um dos amigos lembrou-se de Souza Lima, falecido recentemente. O Souza Lima era um tipo popular do mercado da Vila Rubim e dava palpites certos a todo mundo. No dia em que se jogou na água, atirando-se da ponte Florentino Avidos, havia dito que naquele dia daria veado e que à tarde se afogaria. Dito e certo. Deu veado e morreu afogado. Procuramos saber o número de sua cova que era 131 e fomos colocar umas velas na sua sepultura, que estava enfeitada de flores e havia velas acesas. No dia seguinte jogamos e à tarde foi batata, deu na cabeça 131. Mas no outro dia a polícia fechou o jogo.

Com essa lembrança deixei o Beneventino com suas pilhérias e fui à busca do livro que Renato Pacheco acaba de lançar: Antologia do jogo do bicho.

Trabalho paciente do Renato, recolhendo muita coisa que se tem escrito e dito sobre o jogo do bicho. Conta como iniciou o jogo com as aperturas do barão de Drummond em manter o jardim zoológico. Os nossos maiores escritores estão ali perfilados com suas opiniões e seus relatos. A ação da polícia no noticiário dos jornais. Os banqueiros e o pronunciamento de juízes. Por fim, o povo, o folclore, os abecês, os calangos, o anedotário e a interpretação dos sonhos.

É um livro interessante porque diz de um assunto que cada um de nós tem o seu caso a contar e Renato soube pacientemente coletar um grande material, formando um quadro real que retrata um dos assuntos nacionais mais discutidos e sobre o qual se tem dito muita coisa, uns achando que é uma chaga nacional, outros que é o que de mais honesto existe neste país e até um dos nossos deputados chegou a exclamar na tribuna do legislativo estadual que o jogo do bicho era uma das causas do êxodo rural.

Renato, sem doutrinar sobre a questão, bosquejou o assunto, mostrando os pronunciamentos dos homens de letras, com o mérito do aspecto folclórico que soube imprimir com real destaque.

É uma antologia, reconhecemos, mas a modéstia do autor sobressai e nem seria possível num folclorista de escol, o respeito às fontes de pesquisa. Esse aspecto do trabalho de Renato Pacheco dá a todos nós outros uma imensa satisfação, considerando que é um trabalho único no Brasil e por certo há de merecer os melhores encômios da crítica nacional, sobretudo no meio folclórico brasileiro, onde seu nome tem posição destacada, mercê de sua atividade na Comissão Espírito-Santense de Folclore.

Merece pois, os aplausos, a leitura de todos, porque quem não tiver feito a sua fezinha que jogue a primeira... centena.

 

(Fonseca, Hermógenes Lima. "Antologia do jogo do bicho". A Gazeta. Vitória, 05 de janeiro de 1958)