Folclore e jogo de bicho
Guilherme Santos Neves
Em Folclore, nº 3, de novembro e dezembro de 1949, divulgou Renato Pacheco, da Comissão Espírito-Santense de Folclore, dois "Calangos do jogo de bicho", recolhidos em Divisa, Guaçuí, por um coletor inteligente e ativo: Miguel Rodrigues Faria.
Interessado como está, o professor Renato Pacheco, na coleta de material para o seu próximo livro Antologia do jogo de bicho — aqui lhe dedicamos esta "grosa" de Campo Grande, neste estado, variante do segundo calango (Folclore), também na mesma linha do "ado".
1 é avestruz
Tá o jogo prispiado
2 é a águia
Que tem o bico enrolado
3 é o burro
Anda de marcha picada
4 é borboleta
Que tem as asa arranjada
5 é o cachorro
Quando não é preto, é malhado
6 é a cabra
Dá o leite condensado
7 é o carneiro
Animal abençoado
8 é o camelo
Anda todo encorcovado
9 é a cobra
É um bicho maldiçoado
10 é o coelho
Meu feijão tem estragado
11 é o cavalo
Só come capim cortado
12 é o elefante
Tem a tromba pendurada
13 é o galo
Que canta de madrugada
14 é o galo
Muito rato tem panhado
15 é o jacaré
Que trevessa o rio a nado
16 é o leão
É um bicho arrespeitado
17 é o macaco
É um bicho arrenegado
18 é o porco
Anda todo enlameado
19 é o pavão
Que tem as pena dornada
20 é o peru
Nos banquete é convidado
21 é o touro
Nas manjarra tem puxado
22 é o tigre
Que nas mata tem miado
23 é o urso
É um bicho abominado
24 é o veado
Muitas carreira tem dado
25 é a vaca
Tá o jogo determinado
Confrontando esta "grosa" — como lhe chama a minha informante (Maria da Penha Rodrigues) — com o segundo calango estampado em Folclore, verificam-se variantes muito próximas entre os dois. Basta citar aqui estes versos do calango de Guaçuí, para frisar a semelhança entre eles e versos correspondentes desta nossa "grosa":
2 é a águia
Bicho de bico virado
(...)
6 é a cabra
Que dá leite pros coitados
(...)
8 é o camelo
Que tem o lombo encorcovado
9 é a cobra
Bicho maldiçoado
(...)
13 é o galo
Que canta empoleirado
14 é o gato
Que pega o rato no apertado
(...)
16 é o lião
Rei dos bichos, respeitado
Não sabemos se esse calando de Guaçuí tem o seu canto próprio. A grosa dos bichos tem-no e bem curioso. A música é ligeira e curta, mas se desdobra monotonamente, com repetições de versos numa forma original. Assim: cantam-se o primeiro e o segundo versos; depois o terceiro e o quarto, repetindo-se estes antes de cantar o quinto e o sexto; cantam-se novamente estes dois últimos e, depois, o sétimo e o oitavo que se repetem antes de prosseguir na cantiga, e assim por diante, repetindo-se sempre cada par de versos correspondentes a cada bicho da "grosa". Só não são bisados o primeiro e o segundo versos.
(...)

