O jogo do bicho
Mauro Mota
(...) Saindo dessas reminiscências de compêndio, fixe-se o elemento talvez mais influente na popularização e no "dialeto" dos bichos no Brasil do fim do século XIX para cá: o próprio jogo do bicho.
Nunca o barão de Drummond imaginou que a sua medida primária, inaugurada para servir a uma circunstância local, a de atrair visitantes ao Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, ganharia a amplitude atual, seria, com o tempo, uma instituição, a ponto de criar preferências e hábitos, hoje inseparáveis dos brasileiros de classe média e operária, que vivem às custas da "roda". Senão de sempre acertar nela, dos milhares de empregos, modestos mas empregos, por ela oferecidos. Por conta dos "banqueiros", vendedores de pules e esperanças, com o pequeno equipamento — a banca, o tamborete, o talão, o papel carbono e o lápis — funcionam, de manhã à tarde, em tudo quanto é porta de venda ou café, barracão de engenho, recanto de salão de bilhar, pés-de-escada.
A esse bicheiro sedentário, junte-se o seu oposto, o ambulante, esse de maior interesse nas coleções municipais de gente. Insinuante e prosista, logo "inspira confiança", familiariza-se com os fregueses, conversa com os matutos na feira, com as donas-de-casa no portão, e até com as moças na janela. Faz, com seus boatos e lérias, às vezes de um caixeiro viajante pelas ruas dos povoados, com os mostruários de palpites e sonhos.
Os palpites e os sonhos estimulam a manutenção e o desenvolvimento do jogo do bicho. Há uma indústria de fazer os palpites, outra de ser a eles receptivo. Nas nuvens, em fumaça de fósforo riscado dentro de uma vasilha com água, num pingo de tinta de escrever em papel permeável, que se dobra e desdobra em seguida, nessas coisas e em outras, afins, vê-se a "forma exata" do bicho que vai dar. Os viciados mantêm-se atentos a qualquer sugestão de milhar, centena ou grupo. Alguns conservam o capricho de "sustentar as fêmeas" — águia, borboleta, cabra, cobra, vaca — durante o ano inteiro; outros, o de só arriscar nos bichos de letra c: cachorro, cabra, carneiro, camelo, cobra, coelho, cavalo. Organizam-se as tabelas — um vespertino do Recife, o Jornal Pequeno, chegou a publicá-las durante algum tempo — espécie de cerco, de armas na mira, de caça aos bichos no papel. Ninguém conhece as bases e as soluções dessa matemática quase de magia, na qual se revelam peritas certas mulheres maduras, já em estado de graça, reumatismo e cadeira de balanço. Mas as coincidências, os acertos por acaso, geram seguidores nas fronteiras da "confiança absoluta".
Na aceitação coletiva do jogo do bicho, atuam a maciez dos métodos, o relativo longo prazo, da manhã à boca da noite, entre o abrir e o fechar da mão, recompensada ou vazia, diante dos cambistas; a ausência de emoções imediatas e violentas, capazes de levar o aficionado a perder o que tem e o que não tem. Joga-se ou manda-se jogar o que se pode. Isso facilita os lances dos próprios donos de casa, tirando-lhes o constrangimento de aparecer nas "bancas", "carregando" no burro ou no jacaré. Aí, o "bicho" transforma-se em agente confraternizador de interesse social. Cozinheiras, amas de menino, lavadeiras, ficam íntimas dos patrões, combinam jogadas com eles, selecionam palpites. Jamais à toa, sempre contando as imagens do sonho. A impressão é de que essas mulheres só dormem agarradas com bichos domesticados no escuro, as camas sob o rangido desse exagero de hospitalidade.
As revelações dos sonhos atingem o máximo de arbítrio e pitoresco. A cozinheira de antigo governador do Ceará aconselhou-o a jogar no tigre porque tinha sonhado fazendo pão-de-ló. Quando lhe perguntaram a relação entre uma coisa e outra, mostrou-se surpreendida: — Oi, e pão-de-ló não se faz com farinha de trigue? Em Goiana, uma velha sonhou com um prato de farofa, sonho para elefante. — Farofa se faz com farinha de mandioca e água fervendo tirada da chaleira; chaleira tem tromba. Até um sonho claro e direto, uma cobra entrando no buraco, derivou para urso em noventa. De que jeito? — Cobra é nove no grupo e buraco é igual a zero.
A essas interpelações cômicas, um pouco ao Grande e verdadeiro livro de São Cipriano, não se juntariam outras, freudianas? Quem sabe lá se um psicanalista não fixaria, na insistência desses sonhos femininos com bichos machos e possantes, uma espécie de sodomia onírica, a fuga inconsciente do solterismo e da solidão?
[1969]

