A carreira de bois

Otelo Rosa

O depoimento que posso prestar sobre a carreira de bois é o seguinte: na região às margenes direita e esquerda do rio Taquari (município de Santo Amaro, compreendendo o que hoje se chama de Venâncio Aires, à esquerda, e município de Taquari, à direita), havia o uso de "atar" carreiras de bois, à semelhança das carreiras de cavalo. Para esse efeito eram treinadas certas juntas de bois que nos trabalhos comuns, como a lavração de terra, o transporte em carreiras etc., revelavam melhores qualidades de força e resistência. "Atada" a carreira, por uma certa e determinada parada, marcado o dia escolhido e o local, aí se reunia o vizindário. Apostava-se nos "parelheiros" como na carreira de cavalos em cancha reta. Os presentes definiam por uma ou outra das competidoras, entusiasmavam-se e arriscavam o dinheiro.

Nas duas vezes que assisti a diversão, ela se processou assim: em local plano, previamente preparado, era colocado um toro de madeira, pesado e resistente: nesse local era traçado um raio máximo de oscilação, durante a luta, ficando vitoriosa a junta de bois que conseguisse ultrapassá-lo de modo claro, insusceptível de dúvida proclamado pelo juiz da carreira, anteriormente designado.

Colocadas as duas juntas rivais, em sentido inverso, e ligados por correntes de ferro ao toro de madeira, os proprietários, ou pessoas de confiança deles, empunhavam as agulhadeiras e, ao sinal dado pelo juiz, picavam os bois, estimulando-os ainda com os gritos peculiares aos carreteiros. A cena, então, animava-se pois os assistentes e apostadores seguiam interessadamente o desenrolar da luta, soltavam exclamações e corriam em torno da arena, acompanhando diretamente as peripécias da competição que terminava, como disse, quando uma das juntas conseguia, dominando a contrária, ultrapassar o limite da raia.

A carreira de bois era uma festa. A ela acorriam homens e mulheres da vizinhança, e mesmo de distâncias maiores. Praticamente, durava todo o dia, pois, como nas carreiras de cavalo, quase nunca era uma só: corria-se a carreira principal e outras menores, algumas atadas no próprio local. Reunião de agricultores, apesar do entusiasmo que as vezes despertava tinha um cunho de pacatez que a diferença da carreira de cavalos, em cujas canchas eram freqüentes as desordens e conflitos.

Creio que a carreira de bois tem origem genuinamente portuguesa. A região em que ela se fez tradicional — existindo ainda agora, se bem que menos freqüentemente — foi de colonização açoriana. Foram os casais de ilhéus que fundaram Taquari e Santo Amaro.

 

(Rosa, Otelo. "A carreira de bois". Correio Paulistano. São Paulo, 15 de julho de 1951)