A lenda do boi santo
Nicanor Miranda
Desde os tempos mais antigos o boi se acha vinculado à vida do homem. Na era neolítica, distante da nossa cerca de dez a doze milênios, o homem domesticou o boi (H. G. Wells, Outlines of history, cap.9).
Entre os egípcios, Ápis era o boi sagrado, tido como a expressão mais completa da divindade sob a forma de animal. Procedia de Osíris e Phtah. Ao cabo de algum tempo, os sacerdotes afogavam-no numa fonte consagrada ao sol. A múmia do boi morto tornava-se, então, objeto de um culto.
A presença do boi na vida dos hebreus pode ser facilmente verificada na Bíblia, na qual existem 153 passagens que o mencionam. E quanto ao bezerro, animal da mesma espécie zoológica e de idêntico significado folclórico, há 155 passagens na Bíblia que a ele se referem. A mais expressiva, sem dúvida, é a que concerne à idolatria de Jeroboam, rei de Judá: "Pelo que o rei, depois de conselhos tomados, fez de ouro dois bezerros; e disse ao povo: — Basta de subirdes a Jerusalém; eis os teus deuses, oh, Israel, que te livraram da terra do Egito". (I, Reis, 12:28)
Mais próximo de nós, entre os usos e costumes da cidade de Paris e de várias outras cidades francesas, encontramos no século XV, durante o carnaval, o cortejo do boeuf gras, relacionado com a antigüidade pagã e ao qual se atribui origem druídica.
Os jovens açougueiros, mascarados e ao som de instrumentos, conduziam o boeuf gras pela cidade.
O caráter sagrado domina a base psicológica da Lenda do boi santo, tal qual é contada pelo povo de Campos do Jordão e conforme o texto da autoria de João de Sá (Pequena monografia de Campos do Jordão, sem editor e sem data).
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Um monge esmoler que andava em peregrinação colhendo donativos para a construção de uma igreja — que deveria ser edificada em Pindamonhangaba — bateu na porta de um rico fazendeiro, que vivia no alto da serra da Mantiqueira, e que possuía centenas de cabeças de gado, e pediu-lhe um óbolo. Negou-o o fazendeiro e ainda ameaçou o religioso, expulsando-o de suas terras. Continuando na sua peregrinação, notou o monge, ao entrar nas matas, que vinha sendo seguido. Temeroso, porque havia naquele tempo muitas onças, recomendou-se a Deus e esperou a sua misericórdia. Parando junto a uma fonte, viu que era seguido por um boi muito bonito, que se aproximou dele e lambeu-lhe as mãos. Tranqüilo, o monge continuou a sua caminhada, sempre seguido pelo animal e, assim, entrou na cidade. A cena despertou a curiosidade popular e inúmeras pessoas acompanharam o religioso. Este, por mais que enxotasse o boi, não conseguia demovê-lo do seu propósito, que era acercar-se sempre do monge. O povo achou que o boi era movido por uma força divina, para ser vendido em benefício da igreja, compensando desse modo, o mau tratamento que o fazendeiro dispensara ao sacerdote quando este lhe pediu um auxílio. Posto o boi em leilão, o primeiro arrematador deu-o à igreja para novo leilão, o mesmo fazendo o segundo e o terceiro e assim sucessivamente, até que o boi santo, muito velho, morreu, tendo dado, porém, antes disso, dinheiro mais que suficiente para a construção da igreja.
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Há muitas histórias nas quais se narra como um animal criou um ser humano, ou um exército inteiro, ou um imperador. Assim, conta-se que Aristomeno, chefe dos messênios, célebre por sua luta contra os espartanos e pela sua resistência durante onze anos no monte Ira, durante a segunda guerra messênia (683 AC) foi guiado por uma raposa. Todos os que leram as Mil e uma noites podem lembrar-se que Sindbad, o marinheiro, foi conduzido ao cume de uma montanha por uma possante águia que o levou ao seu ninho (Noite 74). Nas antigas lendas itálicas se conta que um animal conduziu um exército inteiro. Assim como se conta, também, que ao dirigir-se à Terra Santa, na fabulosa cruzada que empreendeu, o imperador Carlos Magno foi guiado ao caminho certo por um pássaro.
Na lenda deste artigo, o boi não guia o monge, persegue-o. Nem o frade se mostra irmão de São Francisco de Assis, que tanto amava os animais. Pois enxota sempre o boi. Este, todavia, persiste em acompanhá-lo e vai ser, afinal, o verdadeiro agente do milagre, firmando assim, mais uma vez, o caráter sagrado do boi.

