O boi, amigo do homem, no folclore

Hernani de Carvalho

Na acepção comum, por boi se entende o bos tauros L, do qual provêm as raças de bovinos atuais, não mais encontrados em estado selvagem. Admite-se comumente que a domesticação do boi teve lugar na Ásia Central e na Índia, de onde passou para a Europa e a África. Desde priscas eras que o boi é conhecido. Nas cavernas já se viam pinturas ou desenhos que faziam lembrar o boi. Os egípcios já o conheciam, tanto assim que fizeram do boi Ápis objeto de culto, na cidade de Mênfis. Conhecem-se inscrições do boi Ápis nas necrópoles e nos templos egípcios, comumente acompanhado por um camponês e com grandes chifres. 

Na Babilônia, juntamente com o sol e o lobo, o boi era tido como divindade benfazeja. Os hebreus o conheciam, e são numerosas as passagens da Bíblia que a ele se referem. Entre os gregos era medida pela qual se avaliava a fortuna, sendo moeda corrente nas trocas. O dote das mulheres casadoiras se fazia em bois, costume que ainda perdura entre vários povos do Oriente e da África. Os lacedemônios sacrificavam-nos a Marte toda vez que obtinham uma vitória por meio de ardil, substituindo-o por um galo quando a vitória era conquistada pela força das armas. Na Roma antiga, o boi de trabalho não podia ser morto. Os vitoriosos romanos imolavam, a Júpiter Capitolino, bois brancos provenientes da Úmbria. Às portas dos templos eram suspensas as cabeças dos bois imolados. Como se verifica, o boi vem vindo através dos séculos junto ao homem.

O boi é um animal mamífero quadrúpede, ruminante, bovídeo utilizado pelo homem para o trabalho do campo, de carga e de lavoura, quer puxando o carro ou o arado. Dócil, obediente, compreensível e amigo do homem, o boi, ao lado do camponês, é a alavanca do progresso dos campos brasileiros. Na nomenclatura usual dos campos, boi inteiro é touro; castrado, é boi-de-trabalho. O recém-nascido é bezerro; e já crescido é novilho. A fêmea do boi é a vaca; a cria nova é bezerra; e já crescida, novilha. A vaca dá ao criador as crias e a sobra do leite cria as crianças que não se amamentam. A carne de boi é considerada a mais sadia, digerível e saborosa. Por estas enumerações, o boi e a sua fêmea, vistos através do caleidoscópio econômico, avaliam o progresso material de uma civilização...

(...) O folclore, nas regiões pecuaristas vive uma literatura oral, louvando o boi, suas façanhas, agilidade, força, decisão e a amizade ao homem, recíproca. A literatura regional e mesmo a literatura de cordel estão pletóricas de histórias em prosa e verso de passagens pitorescas da vida dos vaqueiros destemidos; dos bois ariscos, bravios e amantes de façanhas; episódios da ferra, da apartação, do lançamento do laço e que tais; tudo isso é oportunidade para o folclore glosar e enriquecer o acervo de histórias.

No Norte e Nordeste do Brasil, além do mais, o boi é utilizado como cavalgadura (boi de carga), mediante uma montaria singela, levando um balaio de cada lado onde vai a mercadoria transportada. Na venta está uma argola metálica, onde se prende uma corda à guisa de rédea. Trepado neste dispositivo, o roceiro engancha as pernas e empreende grandes distâncias. Inegavelmente, o boi é o factotum do homem.

As estórias zoomorfas ou zoófilas em que é protagonista o boi são sempre lidas com simpatia, porque o boi, em todas as esferas, sempre se revela compreensível e humanizado. Somente nos hábitos espanhóis brutalizou-se o boi nas touradas, tornando-o, muitas vezes, criminoso, revidando a estupidez do toureiro desalmado e sedento de sangue. Mesmo no estouro da boiada, que Euclides da Cunha tão bem descreveu com coloridos campesinos, o boi revela-se um animal explicável. Não sei por que a maledicência humana desvirtuou os chifres que ornamentam a cabeça dos bois, pejorativamente, apelidando de corno o marido enganado...

Dentre as numerosas estórias em que protagoniza o boi, a do bumba-meu-boi percorre meio mundo. Vou incorporar neste capítulo de No mundo maravilhoso do folclore, uma crônica que publicamos há tempo.

Inegavelmente, outra sobrevivência folclórica que desafia a ação destruidora e implacável do tempo, em face do rolo compressor do progresso, é o bumba-meu-boi.

O bumba-meu-boi é uma distração pertencente ao ciclo do Natal, que se estende do mês de novembro até ao dia 6 de janeiro, dia dos Santos Reis.

O bumba-meu-boi, em algumas regiões, é também conhecido pelo nome de boi-pintadinho; todavia, em todos esses folguedos afro-brasileiros predomina, inegavelmente, um culto sub-reptício ao boi, animal doméstico e que trabalha ao lado do homem do campo, quer puxando o arado, quer locomovendo o carro-de-bois ou cavalgado pelos vaqueiros.

De velhas datas, desde tempos imemoriais, no Egito prestou-se culto ao boi Ápis. No Nordeste brasileiro, os fanáticos do padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro, no Ceará, adoraram um touro pertencente ao padre místico, atribuindo ao boi-mansinho poderes milagrosos.

Bumba é interjeição, zás, valendo a impressão de choque, batida, pancada. Bumba-meu-boi será: "Bate!" Chifra, meu boi!" voz de excitação repetida nas cantigas do auto, o mais popular, compreendido e amado no Nordeste, o folguedo brasileiro de maior significação estética e social, no dizer de Renato Almeida.

O bumba-meu-boi, disse Sílvio Romero — vem a ser um magote de indivíduos, sempre acompanhados de grande multidão, que vão dançar nas casas, trazendo consigo a figura de um boi por baixo da qual oculta-se um rapaz dançador.

Na nossa região, o bumba-meu-boi é conhecido vulgarmente por boi-pintadinho. Há os entendidos na organização de um boi-pintadinho e todos os anos eles saem à rua na proximidade do Natal.

A figura de um boi é feita por uma armação interna de sarrafos e coberta por pano pintado e adaptado na região anterior; uma máscara perfeita de um boi com chifres enormes, tal qual; e na parte posterior uma longa cauda. É um travesti perfeito. Há, no interior, os especialistas na fabricação de boi-pintadinho... Por baixo do boi-pintadinho colocam-se dois rapazes, também especialistas no "ofício", isto é, nas "marradas", nas chifradas, nas corridas e nas danças. São um gozo as proezas do boi-pintadinho, que tem amarrada no chifre uma corda que é segurada pelo vaqueiro. Atrás, se coloca a cantoria: sanfonas, violas e a bateria de baticuns. A cantoria, ao sinal do contra-mestre, espoca entusiasmada; e o vaqueiro, numa voz de excitação repetida e monótona, grita: "Ei, ei, ei-boi!" E a multidão acompanhante repete também: "Ei, ei, ei-boi!" 

É uma verdadeira festa a chegada de um boi-pintadinho num povoado, ou num bairro, ou numa rua. Os "boiadeiros" recebem espórtulas, após a cantoria, as danças e as proezas do boi-pintadinho com a garotada. É um gozo para os garotos e até para os marmanjos.

É comum ver-se ali, cá e acolá, exibições do boi-pintadinho no tríduo carnavalesco.

Os folcloristas ortodoxos, porém, não vêem com bons olhos essa inversão de valores, de vez que a tradição registra o bumba-meu-boi ou o boi pintadinho como uma das melhores tradições do passado, em que o sincretismo consegue irmanar folguedos ingênuos com o sentimento religioso do homem rústico dos campos.

O cronista se filia aos folcloristas ortodoxos, porque "um povo que esquece a sua poesia, que não sabe cantar as suas estórias, nem dançar ao som de suas músicas, é, infelizmente, um povo sem destino".

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Linhas acima, referi-me incidentalmente a um tourinho que foi adorado e divinizado e que existiu numa das fazendas do padre Cícero Romão Batista, misto de sacerdote católico, taumaturgo e político-coronel-de-batina, como se verá em capítulo posterior.

O padre Cícero, milagroso e soba de toda a região do Crato, no sul do estado do Ceará, recebia diariamente centenas de romeiros vindos de zonas longínquas para receber sua bênção. Dentre esses romeiros veio um negro chamado José Lourenço, beato e que caiu na simpatia do padre Cícero, que lhe deu umas fazendas para administrar. Aí começou a história do tourinho. De ordinário, os romeiros traziam presentes e lembranças para o padre Cícero; certa vez, um romeiro trouxe para o soba do Crato um lindo tourinho. Todo o mundo admirava a beleza do animal. Dizem que o beato José Lourenço, finório, começou a atribuir ao lindo animal qualidades milagrosas: as suas fezes curavam feridas e a sua urina, ingerida, era remédio para todas as doenças... Começaram as romarias ao tourinho, levando-lhe até flores, e adorando-o em busca das fezes e da urina milagrosas...

Conta-se que o dr. Floro Bartolomeu, médico e braço direito do padre Cícero na política, ficou tão enojado com o culto do tourinho, que mandou recolher ao xadrez o beato José Lourenço, a quem atribuiu o culto grosseiro e a crendice das curas obtidas com os excrementos do tourinho. Ainda mais: o dr. Floro mandou abater o animal "milagroso" em praça pública e distribuiu a carne e as vísceras para o povo. Mas, inacreditavelmente, nada dos restos mortais do tourinho se perdeu: vinha gente de longe comprar um "pedacinho do tourinho milagroso" para a confecção de amuletos... Quem era capaz de comer carne e vísceras de um animal milagroso?

Os que contam as histórias do tourinho milagroso esclarecem que o prestígio do beato José Lourenço cresceu; e que o prestígio do dr. Floro Bartolomeu foi excomungado na opinião pública daquela gente rude e rústica. O doutor Floro Bartolomeu revelou-se, nesse caso, mau conhecedor da psicologia das multidões.

Dizem que a solução do caso do tourinho milagroso e a corrigenda do beato José Lourenço infligidas pelo dr. Floro Bartolomeu desagradaram ao padre Cícero. Mas o sacerdote taumaturgo nada piou a respeito, porque o padre achou prudente não criar um caso político com o dr. Floro, seu cupincha da politicalha, no sul do estado do Ceará.

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O boi, até mesmo depois de morto, é útil ao homem. Como é isso? A história se conta assim: quando alguém perde um boi por morte, a sua caveira é disputada, porque os vizinhos querem a mesma para ser colocada no cimo de um pau alto e roliço, ficando ali, dentro do curral onde se trata do gado. A caveira, com os seus chifres enormes, passa a ser um amuleto contra o mau-olhado. Lá no sertão campista não há um curral onde se trata do gado e que não haja uma caveira de boi, bem alta, no topo de um pau ou na cumeeira da casa próxima, destinada para amuleto contra o mau-olhado. Dizem que tal amuleto tem muito poder.

Lá na minha fazendola, em Campos, no curral onde se trata o gado e tira-se o leite das vacas, está uma caveira enorme, que, em vida, fora de um belo touro gir, morto em virtude de uma estiagem de dez meses: fome e sede.

Quando o campeiro ali colocou a caveira do touro, adverti-o: "para que isto?" Ele respondeu-me: "agora não haverá mais mau-olhado nesta fazenda. Muita coisa aqui, doutor, não anda para a frente por causa de mau-olhado..."

E benzeu-se...

 

(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore. Rio de Janeiro, Tipografia Batista de Souza, 1966, p.141-146)