O boi no folclore do Brasil
Regina Lacerda
A figura do boi tem no Brasil um destaque muito importante.
Não vamos falar do boi como economia do país. Vamos dizer da sua figura no folclore.
Do bumba-meu-boi e boi-bumbá do Nordeste até o boi-de-mamão do Paraná, ele vai se registrando por toda parte na alma das gentes, em trovas, em diversões, enfim vai figurando sempre como motivo para cantares.
De Sílvio Romero, entre muitas, encontramos no romance do Rabicho da Geralda o animal lamentando a grande seca de 1792 e reclamando:
Secaram-se os olhos d'água
Não tive onde beber
E botei-me aos campos grandes
Já bem disposto a morrer
Diegues Júnior anotou em Boi espácio (o que para nós é o boi que tem os chifres exageradamente separados) a bravata resumida nesta quadra:
Meu boi nasceu de manhã
Ao meio-dia se assinou
Às quatro horas da tarde
Com quatro touros brigou
Variante deste verso temos no nosso cancioneiro, um pouco mais desenvolvido, onde a história perde um pouco a feição romântica ou de bravura para apanhar o lado comercial do animal. — Nosso informante conhece esta versão há mais de quarenta anos, quando "três contes" por um bezerro era uma fortuna. Desde aqueles tempos o boi tem seu prestígio firmado na economia de nossa terra, é o que se pode concluir. Senão vejamos. Eis a nossa versão:
Um caso que sucedeu, ó mamãe
Um caso que sucedeu, ó mamãe
Na ilha de Cajuru
— Nasceu um bezerrinho, ó mamãe
Bargado de rabo azu
— De manhã, ele nasceu, ó mamãe
De manhã, ele nasceu, ó mamãe
Mei-dia ele batizou
Às quatro horas da tarde, ó mamãe } bis
Um moço me perguntou:
— Se o bezerro for de venda, ó mamãe } bis
Três contes por ele dou
Neste seguinte não há sentimentalismo, mas também representa a economia que vem do boi:
O meu boi morreu
Lá no buracão
Tira o couro dele, morena
Pra fazer sabão
Falamos do boi com ternura, também aqui pelos nossos lados.
Talvez nas vaquejadas distantes, ou atravessando as fronteiras com destino às grandes charqueadas, ou nos poeirentos caminhos dos sertões, cantamos chulas ou modas para o boi querido.
Nos nomes que trazem indicam o carinho com que são tratados. Aqueles animais tristonhos e mansos eternamente atracados aos pesados carros, percorrendo longas estradas, ganham dos carreiros, contaminados de sua tristeza e mágoas, versos dolentes como estes:
Mestre carreiro
Como chama vosso boi?
— Chama Sodade
De um amor que já se foi
Nas canções de ninar de nossa gente conhecemos um boi que vem no escuro para amedrontar as crianças que não querem dormir. É aquele que é chamado assim:
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Vem pegar nenê
Que tem medo de careta
(Do caderno de notas de Regina Lacerda)

