Vozes dos animais, vozes para os animais

Alceu Maynard Araújo

Chamamos vozes dos animais a imitação onomatopaica que fazemos de suas formas de expressão. Assim imita-se o mugido do boi, o ladrar do cão etc. Vozes para os animais são as diversas maneiras tradicionais e regionais de os chamar, tocar ou tanger.

Ligada à cena bucólica que os presépios nos dão no ciclo natalino, é comum ouvir-se alguém arremedar onomatopaicamente as vozes dos animais aí colocados pelo tradicionalismo que o caipira paulista mantém, fazendo coro, sem o saber, com uma tradição universal.

Em Cunha registramos estas vozes dos animais: O galo do céu cantou e o da terra, que estava sobre a manjedoura, também cantou: "Jesus nasceu!" O boi, que pascia, perguntou com seu mugido: "Aoonde?!" Um carneiro branco, com fitinha vermelha porque era do redil de São João Batista, respondeu: "Em Bélem!" Um cabrito que pastava por ali não acreditou e, zombando, berrou dizendo uma blasfêmia...

Há as vozes de animais ligadas aos contos geralmente bem imitadas pelos narradores de histórias. E em anedotas também. Conhecidíssima é do bem-te-vi que cantou justamente quando um português achou uma pataca logo que aqui desembarcou. Por ser honesto, o homem não a apanhou porque lá do galho mais alto de uma árvore, um turdus cantava: bem-te-vi...

Na área pastoril brasileira, nas suas regiões do campeiro, do boiadeiro ou do vaqueiro, há maneiras diferentes do homem dar vozes para os animais, principalmente para o gado bovino, ora tangendo, ora chamando. Não trataremos aqui do aboio porque é canto, apenas das vozes. Animais e aves, cada qual entende a "voz do dono". Às vezes, essa voz é assobio.

Na região campeira paulista que não deixa de ter muita influência gaúcha por causa do tempo das tropas, estas vozes são as mais comuns.

Passa! para cachorro sair; boca-boca, com um assobio rápido e entrecortado para vir. Quando é pequeno um estalido apenas dos lábios, o cãozinho atende.

Pijuite, pijuite! para chamar o bichano e para sair: chite ou chispa!

Prrruuu-qui-te-qui-te para chamar as galinhas e xô... xô...,  para despachá-las.

Quiôuuuu, quiôuuu! balançando o embornal com milho para chamar o cavalo no pasto e âra, âra, para tocá-lo.

Chicôuu, chicôuu! para chamar o poro e isquê, isquê, para espantá-lo.

Acôôôuuu, acôôôuuu! para chamar a vaca batendo-se no cocho onde se vai dar o sal.

E é com o papagaio que maior número de vozes damos e até conversamos: — Dá cá o pé, louro... Purrupaco-papaco... louro?

Há várias interpretações dos cantos das aves: "Mariquinha, tiu, tiu", dizem que o tico-tico assim fala. Outros dizem que é: "Maria, Maria, já é dia, dia". E lá no mato, o sem-fim ou, saci para outros, assobia: "Sem-fim, sem-fim". O bicudo do norte: "pinte o cará, olhe o grigoite, panaciom, panaciom".

(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1964, v.3, p.191-192).