O cavalo na história e folclore brasileiro
Gumercindo Saraiva
Os animais de um modo geral, há séculos vem contribuindo com sua presença em todas as formas de cultura, abrangendo a música, a dança, a pintura e a literatura, no esplendor de suas figuras expoentes no mundo das artes. Evidentemente, vamos neste estudo relevar o cavalo que desde tempos remotos atinge o auge numa série de fenômenos que se sucedem entrelaçados na vida do homem onde quer que ele esteja.
Apesar do leão ser considerado o rei do animais, o burro santificado pela crença popular, porque transportou o Deus Menino, trazendo em seu "lombo" uma cruz escurecida, o boi, contemplado nos presepes, dentro dos próprios templos sagrados, no ciclo natalino, entretanto o cavalo tem a nobreza e a fidalguia, por excelência, na tradição daqueles que o possuíam, representando um brasão de família.
O cavalo era o argumento mais valioso na vida dos povos primitivos, porque significava coragem, firmeza, energia perante o inimigo, ousadia, perseverança e riqueza. Nas batalhas ele representava uma arma perigosa e dependia dele, a vitória de uma nação. Daí ter o animal tomado cognomes, dando-lhes personalidades, aproveitadas, depois nas cultura eruditas e popular.
Cavalo de batalha
O animal adestrado, servindo aos exércitos como arma de conquista. Cavalo de tiro — aquele que atrelava as carruagens de romanos, assírios. Cavalo de cem moedas como eram distinguidas as mulheres mais valorosas de uma comunidade. Grandes cavalos — nome conhecido nas quatro principais famílias na nobreza de Londres. Cavalo de xadrez — a peça que estando em casa preta se joga para a segunda casa próxima as brancas, e, estando na casa branca, para a segunda imediata das pretas e para qualquer dos lados. Cavalo de roleta — jogo em dois números aproximados. Cavalo branco — um jogo de dados, uma espécie de loteria conhecido também por galo, muito usado na Europa nos cassinos visitados por turistas que muito apreciam seus lances em momento de suspenses. Cavalo de força — unidade dinâmica equivalente a 75kg ou a força de um vapor necessário para elevar a um metro de altura, em um segundo, um peso de 75 kg.
Cavalo de Tróia
Conta a história, que os gregos cansados e exaustivos, usaram de um estratagema inteligente: "Com o pretexto de uma oferenda religiosa construíram um enorme cavalo de madeira. Os troianos julgando que eles se tinham retirado, pois não os viam, foram os próprios a introduzir o cavalo dentro da cidade. Alta noite, um cúmplice chamado Sinon, abriu duas portas que havia no flanco do animal e de dentro saíram os gregos que ali se encontravam escondidos, abriram as portas e entrou o exército dos aliados, tomando desta forma Tróia. Uma história de Tróia, E. Smith (São Paulo, Ed. Panorama, 1972). Por isso é muito freqüente esta frase: "como cavalo de Tróia".
Cavalo de Calígula
Caio César Augusto Germânico Calígula, imperador romano, filho de Germânico e de Agripina, neto adotivo de Tibério, viveu sempre na meninice com os soldados da corte. Chegando no império, Calígula apaixonou-se pelo seu cavalo Incitatus, ao ponto de ser alimentado em vasilhame de ouro, bebendo em taças, na mesa onde a família fazia refeições. O cavalo foi nomeado membro do colégio dos sacerdotes com sua indicação para as elevadas funções de cônsul, o que não ocorreu pois fora logo em seguida, assassinado por Chereas.
Nos três últimos anos de imperador, Calígula realizou as maiores extravagâncias saídas do seu cérebro doentio afirmando que o "povo romano não tivesse apenas uma só cabeça para que pudesse degolá-la de um só golpe". A história conta, que o Senado, resolveu suprimir o seu nome da lista dos imperadores, pela doidice praticada aos semelhantes, querendo que estes o adorassem, como um deus vivo, na era do paganismo. Calígula foi um imperador cruel, tirano, insensível e sanguinolento. No mundo, dizia ele, só tem valor o meu cavalo Incitatus, pois o resto tudo mediocridade.
O meu reino por um cavalo
- "Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!" Trata-se de uma expressão de Ricardo III, da Inglaterra, na famosa batalha de Bosworth, debatendo-se contra Henrique Tudor (1485). Dizem que, Ricardo III, ao ver os regimentos do conde de Richmond avançando, várias vezes dentro da ordem e disciplina, loucamente, gritou: "Um cavalo! Um cavalo! O meu reino por um cavalo!" Alguém fazendo-lhe entrega do animal, este atirou-se apaixonadamente ao meio das fileiras, procurando alcançar o seu competidor. Mas nesse momento, cercado pelos batalhões sucumbiu travejado de golpes num heroísmo espetacular.
Cavalo de Jó
Trata-se de uma passagem bíblica. O velho Jó, dialogando com cem amigos, não é bem compreendido pela distorção de suas palavras, acerca da justiça de Deus. Nesse momento ouve-se a voz de Deus, descrevendo alguns animais com os quais desafia Jó a ousar medir-se especializando o cavalo. Os evangelistas dos nossos dias, citam bastante esse fato, como uma lição reveladora, advindo dos destinos de Deus.
Nascimento, vida e morte do cavalo
Na zoologia, descrita por um afamado naturalista brasileiro, lemos o seguinte: "Um cavalo dura, tempo médio de trinta anos, mais se alguns excepcionalmente chegam a quarenta anos, a maior parte dos cavalos de serviço não passam dos vinte. O potro nasce com os olhos abertos, e, um quarto de hora depois de nascer, põe-se a pé e corre em torno da mãe. Esta, depois de o trazer onze meses, amamenta-o durante sete. A época da puberdade é, para os machos, aos dois anos e meio, um pouco mais cedo para as fêmeas, não se devendo empregá-los para reproduções, antes dos anos. Só quando velhas é que as éguas deixam de ser fecundas, tem se visto dar potros regularmente até a idade de quatro [sic!] anos. Quanto ao garanhão; deve ser reformado pelo menos aos quinze ou dezesseis anos.
O cavalo no folclore nacional
É notabilíssima a inclusão do cavalo nos meios folclóricos do país, a começar pelas lendas, versos, adágios e parlendas, existentes no Rio Grande do Sul, onde o animal brilha, domina, diverte e reina nas obras literárias dos escritores gaúchos. Contudo, prevalecendo-nos do folclore nordestino, sabendo mesmo de suas raízes, tiveram solo nos Pampas, onde o cavalo motivou muitos estudos especializados, principalmente do grande escritor professor Valter Spalding, amigo íntimo desse papa-jerimum que escreve esta página.
A versaria aqui publicada, foi na maioria transcrita de autores nordestinos, e por alguns colaboradores de nosso trabalho, deixando de divulgar seus nomes, porque muitos nos pediram para não mencioná-los, isto é, a pedido do próprio cavalo.
Existe quatro coisas no mundo
Que atormenta um cristão
Uma casa que goteja
E um menino chorão
Uma mulher ciumenta
E um cavalo tanjão
Mas o cavalo se troca
A casa vai, se retelha
O menino se acalenta
Na mulher se mete a peia
*
Há quatro coisas no mundo
Que alegra um cabra macho
Dinheiro e moça bonita
Cavalo estradeiro baixo
Clavinote e cartucheira
Pra quem anda no cangaço
*
Fui moço, hoje sou velho
Morro quando Deus quiser
Duas coisas aprecio
Cavalo bom e mulher
*
Ouço tropel de cavalos
E ouço as argolas tinir
Parece ser meu benzinho
Que já vem se despedir
*
O meu cavalo alazão
Sempre, em mim me deu prazer
Enquanto a mulher que tenho
Só me faz aborrecer
O bom cavalo se conhece pela cor
Cavalo alazão rosilho
E tubina de aroeira
O diabo que o queira
*
Cavalo castanho escuro
Pisa no mole, pisa no duro
Carrega o dono seguro
*
Bom sinal nenhum é bom
Cavalo que bom for
Não tem sinal. Não tem cor
*
Agora vou lhe contar
Os possuídos que eu tinha
Uma vaca, uma bezerra
Uma porca, uma poldrinha
Um caixão de treze palmos
Atestado de farinha
Um bom cachorro de caça
Um capote, uma galinha
Um bom cavalo de sela
Pra servir um negrinha
Mas também vou lhe contar
Minha sorte como vinha:
A vaca morreu na seca
Deu o mal da bezerrinhas
Deu o espiche na porca
Deu rengo na poldrinha
O cupim deu no caixão
Deu o mofo na farinha
Minha mulher, meu cavalo
Morreram no mesmo dia
Antes morresse a mulher
O cavalo é que eu queria
Cavalo, custa dinheiro
A mulher mão faltaria...
*
Cavalo alazão
Com estribo na mão
Cavalo castanho
Na vida sertaneja, os animais representam um patrimônio inestimável, por isso cada um deles, é como se fora um talão de cheques com saldo bancário. Para o caçador, não é somente a espingarda, faturando as aves mortas trazidas em seus bornais, pois o cachorro representa o complemento no elo da caça. No roçado do vaqueiro, muitas vezes, mulher, sempre encontra-se em segundo plano, porque existem muitas... Por isso, os poetas populares criaram versos enaltecendo e glorificando o cavalo, enquanto diminuem o quanto podem o valor da mulher, mesmo em seu lar inviolável e sagrado. Os versos citados, foram compostos no século XIX, quando a mulher não mantinha a condição que hoje desfruta na sociedade, ocupando cargos de relevo, superando inteligentemente seu sexo oposto, como dizem.
Cavalo-marinho
O cavalo-marinho é encontrado nas lendas de todos os países, integrando os folguedos populares, como bumba-meu-boi, principalmente, carnaval, e brincos de crianças, como animal encantado, saindo altas horas da noite, dos mares bravos, dos rios e açudes mal-assombrados. A lenda chegou a Portugal, trazida do Oriente em várias formas de literatura.
A lenda do cavalo de Átila
Neste período, vamos dar a palavra ao escritor R. Magalhães Júnior, contando no seu Dicionário de provérbios e curiosidades (São Paulo, Ed. Cultrix, 1969), a lenda do cavalo de Átila. "Átila, o rei dos hunos que, à frente dos bárbaros, assolou a Europa do Beirão à Gália, derrotando os imperadores Teodósio e Marciano, fez tantas e tais devastações que mereceu a alcunha de Flagelo de Deus. Costumava se dizer que onde pisavam as patas do seu cavalo a erva não voltava a crescer. Daí fala-se no cavalo de Átila como um símbolo de devastação e esterilidade. Conheceu o rei dos hunos o primeiro grande desastre quando foi derrotado na batalha de Chaloes-sur-Matre, no ano de 451 da era cristã, pelos exércitos visigodo e romano em aliança. Átila morreu subitamente dois anos depois, às vésperas de uma nova invasão da Itália.
O cavalo nas fábulas
Em várias narrações, os fabulistas da antigüidade, personificaram bastante entre os animais a figura do cavalo em todos os aspectos alegóricos. Esopo, abusou desse animal juntamente com La Fontaine, cuja leitura atravessa séculos. Contudo a fábula O cavalo querendo vingar-se do veado, de La Fontaine, superou a todos contando a história do animal biografado, implorando o socorro do homem contra o veado, vendo-o em seguida obrigado a deixar-se domesticar pelo seu vingador. Nesta fábula, há uma lição de moral de muita evidência na formação do caráter no homem, mesmo tratando com animais.
O cavalo de São Jorge
São Jorge, o valoroso defensor da fé e da justiça contra os assaltos do inimigo, é um dos mártires mais gloriosos da Igreja Católica, tanto na Oriental como na Ocidental. Na Grécia, seu nome figura entre os maiores santos e até pouco tempo, o dia de São Jorge — 23 de abril — se guardava religiosamente. Na devoção desse santo, nenhum país tanto se distinguiu como a Inglaterra.
O Concílio Nacional de Oxford de 1292, ordenou a celebração solene da festa de São Jorge, em todas ilhas britânicas. Monumentos muito antigos refletem que, já no tempo dos reis normandos, São Jorge figurava como padroeiro do país, Eduardo III, fez muito bem, de acordo com o sentimento do povo, pondo debaixo da proteção do santo a célebre Ordem da Jarrateira, por ele fundada em fundada em 1349. Frederico III, no ano de 1468, criou e protegeu enquanto pôde, a Ordem Militar de São Jorge, na Alemanha.
Apenas a arte cristã representa São Jorge montado num cavalo, combatendo um dragão, salvando a vida de uma princesa. A igreja cita que essa representação é alegórica, pois o dragão vencido pelo santo, representa o espírito mau. A princesa simboliza a esposa de Diocleciano, conhecida por Alexandra que vendo a constância do mártir, se converteu ao cristianismo. O certo é que as atas da vida de São Jorge, nem tão pouco os hinos litúrgicos fazem menção da princesa, nem do dragão. Dizem, que o cavalo de São Jorge é abençoado por Deus.
O cavalo na voz do povo
De nossa coleção de provérbios populares, retiramos estes, acerca do cavalo, na promoção que o povo sentenciou, através da literatura oral, gerando a ironia, a sátira, enfim, o sarcasmo que são repetidos de geração a geração:
Cavalo, mulher e dinheiro, quem empresta nem pra si presta
Cavalo velho, capim novo
Cavalo robão, égua rabona
Mulher e cavalo bom, para mim é o mesmo tom
Cavalo roncador, cabresto curto
Cavalo bom é que cerca o boi na hora
Cavalo bom não quer espora
Cavalo dado não se olha os dentes
Cavalo que não para na sela, bota-se cangalha
Não te fies em mulher calada, nem cavalo que não corra
Cavalo corrente, sepultura aberta
Cavalo formoso, de poltro sarnoso
Cavalo alazão, ou muito bom ou muito ladrão
Quem compra cavalo, compra cuidado
Cavalo alazão esteve contigo no São João
(...)

