Curiosidades do folclore: Metáforas, comparações e alcunhas tiradas do reino animal
Aluísio de Almeida
Ele virou bicho. Isso não é nenhum bicho de sete cabeças. Ele está que nem um bicho do mato, de acanhado. Ai, bichão! Isso mesmo, bichinho! É um bicho em matemática. Que bicharada! No mato existem bichos de pêlos e bichos de pena. Queima que nem bicho peludo. Liso que nem bicha. Aquele é um bicho mau, um bicho ruim. fruta, madeira, livro bichado. Menino bichento. Com bicheira no nariz (vermes). Bicho de pé. Bicheiro (do jogo de bicho). Bicho ou bicho papão, é a mesma cuca, come crianças, tal como o bicho manjaléu. Bicho pacuera (comedor de pacueras). Bicho, estudante novo. Bicharoco e bichano, e, com maior razão, bichanar, podem ser palavras populares em Portugal. Aqui pertencem aos eruditos.
Boca-de-leão, erva-de-passarinho, erva-de-lagarto, pente-de-mico, pó-de-mico, língua-de-vaca, munheca-de-cotia (bastão com o cabo em pele de pulso de cotia), água que boi, ou passarinho, não bebe. O que é um boi para quem tem sete fazendas? É mais fácil galinha criar dente.
Duas coisas neste mundo
Ninguém não quer
Piolhinho de galinha
E ciúme de mulher
Cara de cavalo, de cachorro, pedaço de burro, besta quadrada, pé de galinha.
"Pé de pato, pé de pinto, quem... que vá pros quinto(s)". Esta parlenda infantil se recita em certos momentos. Por sinal que também o maiorzinho do brinquedo põe um raminho na cabeça de alguma das crianças e diz: Foi aquele que estiver com um pauzinho na cabeça... E todos levam a mão ao alto da sinagoga. Esta metáfora "alto da sinagoga" é popular, mas não caipira, salvo engano.
O outro sentido brasileiro de briga ou barulho não é popular no sul de São Paulo.
Mesa pé-de-cabra, cadeira pé-de-burro. O maior pé do mundo é o pé-de-vento, a maior boca e a boca da noite
Dentista de cavalo, purgante de cavalo (pinhão Paraguai).
No tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça e ele não comia. Este ditado já existia em forma correlata na literatura latina. Eram as vinhas que se amarravam com lingüiça. A metáfora moderna é mais forte.
Bêbado que nem gambá. Não pense que gambá é raposa.
Raposa no sentido de reprovação em exame só vi usado por professor português. Os brasileiros preferiam bomba...
Continuemos a examinar a zoologia popular.
Pássaros e aves da lagoa: frango d'água, preto, com o bico vermelho. Pato do mato. Marreca. Marrequinha. Batuíra. Ferrão. Este vai tirar minhoca e fica com o bico preso. Que apuro, senhor Ferrão! A garça (vimo-la na lagoa Ipatinga, água clara, espelhando-se, com um pé só).
Da lagoa e dos rios: a saracura, o socó, socó-boi. A jaçanã não é palmípede (parridea) e dizem que assim mesmo nada, pegando peixes. Martim-pescador dá sinal de chuva.
Outros pássaros e aves: pica-pau de cabeça vermelha, pica-pau carijó.
A perdiz desenterra o milho cova por cova. Gosta de amendoim. Gostosona, heim? O jeca põe uma barata ou um dente de alho no laço para perdizes.
A saúva, tão comum no mato e no campo onde a terra não é barrenta, é perseguida pelas codornas, ainda bem.
A bonitona dona arara voa também pelos campos à procura de coco de indaiá e quebra-os, e de araticum e guapicuruca.
Os outros bichos, por exemplo, o tatu! Seu habitat predileto é a terra de catanduva, onde faz as suas vilas, com um carreiro ou... avenida de ligação, ao ar livre, que é a perdição do coitado. É a avenida dos seus passeios em épocas determinadas. É a saída para a roça de milho, seu depósito de víveres. O tatu-cavalo chega a quebrar a haste do milho por amor das espigas. Do bucho dele fazem coalho para queijo. Um virado de tatu-canastra, ou então com molho e batatas, é papa fina. Para amolecer a carne, o caçador moqueia o defunto, antes, com casca e tudo. Já a carne do tatu-cavalo não presta, senão para sabão, porque o dito come cobra. O tatu-angolinha é gostoso.
O homem que nos conta tudo isso diz: "Agora acabou tatu!" Que espírito de síntese!
Dos micos, o saci vive em casal, faz a, a, a, chamando chuva, é meio ruço, não vem no Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, e se a língua tupi fosse brinquedinho de criança, teríamos saa — cy (mãe, mito criador de tudo quanto cobre a terra, origem, cf. J Barbosa Rodrigues, Vocabulário indígena) e aí estava o indecifrável saci. Quem sabe?
Os bugios, em bando, gostam de árvores altas, a fêmea enxugando com uma folha a baba do macho que ronca por amor de chover. Será o mesmo sagüi?
A irara, comedora de mel, tem a cabeça branca ou ruça. Alguns dos nossos leitores têm cabeça de irara.
Aí vem um casal de serelepes, rabo nas costas, em busca de coquinhos e fazendo tchim, tchim! Deus o livre da espingarda! Que mal fazem ao homem? O nosso informante achou que bicho de pêlo também devia ter a classe dos trepadores, que para isso lhes nascem as unhas.
Brincadeiras do folclore infantil na zoologia:
— Menino, diga: paca, tatu, cotia, não, bem depressa!
— Paca, tatu, cotia, não.
— Menino, pássaro avoa? — Avoa.
— Perdiz avoa? — Avoa.
— Papagaio avoa? — Avoa.
— Etc. etc. etc.? Avoa.
— Banco avoa? Avoa.
— Bobo!
(...)
Entre tantos usos e crendices de Silveiras, relatados por dona Maria de Carvalho Sene, há o de não se referirem à cobra, principalmente os que foram mordidos, senão por meio de um eufemismo: — Foi um cipó que me mordeu!
Parece que o ódio da cobra vai ao ponto de procurar outras vítimas se lhe dizem o nome.
Esse costume, de todo o Brasil, tem raízes psicológicas universais. Por exemplo, não se deve dizer o nome de diabo, ele vem. Daí certamente o enriquecimento do dicionário com substitutivos: tinhoso, bode preto, chifrudo, coisa má e coisa ruim, anjo, pedro-botelho etc.
É claro que lá por Silveiras também se usa o benzimento para mordeduras e outros males. Acontece que os incrédulos motejam, assim nos informa: benzimento, cura, menos se for resfriado ou constipação, quando é preciso cibalena.
Essa é a medicina curativa. A preventiva começa no berço... Com as figas. E não quaisquer. As melhores são as de coral. No coração mesmo do estado haverá capoavas distantes cujos moradores crêem nos poderes e nas virtudes do vermelho. Pois recolho informes precisos: na falta de figa de coral, serve um pano vermelho amarrado no braço da criancinha. Porque as bruxas ainda "hai" para eles.
(...)

