Mamíferos no folclore

Wilson de Lima Bastos

É incalculável o número de mamíferos contemplados no folclore com lendas, histórias, superstições, crendices, tabus, práticas de medicina folclórica. Dentre estes os cetáceos. Dentre os cetáceos, o boto.

Não precisamos de fazer esforço para coligir algo a respeito dos mamíferos no campo ou área do folclore.

Para nós brasileiros, o primeiro a ser considerado é o boi, que é aliás, o símbolo do folclore nacional, pelo que representa no processo de projeções do Brasil desde a sua descoberta. Junto com ele, o carro de bois e o cincerro. O aboio e o vaqueiro. Dizem que, a ele se deve a imensa área interiorana de nosso país. Daí a razão porque a festa folclórica por excelência, entre nós é o bumba-meu-boi, regionalmente conhecido sob outras designações, como boi-calemba, bumba, boi-de-reis, boi-bumbá, folguedo do boi, reis de boi etc.

Não é ele só porém. O cavalo, o burro, a onça, o gato, o rato, o carneiro, o lobo, a raposa, o porco, a paca, a capivara, a anta, a lontra, o jumento, o coelho, enfim, um não acabar de mamíferos, em torno dos quais há lendas e superstições interessantíssimos.

Mamíferos são também os cetáceos, nos quais merece especial consideração o boto, de que há diversos tipos inclusive o "golfinho do Amazonas" que é um dos pontos altos do folclore do Pará.

Sobre o boto há registro e mais registros, sendo que Câmara Cascudo dedica-lhe algumas páginas de sua notável obra Dicionário do folclore brasileiro. De seus registros, destacam-se:

• Seduz as moças que moram às margens dos principais afluentes do Amazonas;
• É o pai de todos os filhos de responsabilidade ignorada;
• Usa o disfarce de bonito e elegante rapaz, de presença inesquecível que aparece nas reuniões mundanas seduzindo as moças;
• Durante o dia é boto; durante a noite, rapaz sedutor.

Baseado nisto, possivelmente, está a expressão "filho do boto" que no estado do Pará é o modo com que se faz alusão à criança de pai ignorado.

"Minha avó conta (dizia-me um paraense, meu empregado) que num baile em que ela estava, no igarapé dos Currais, apareceram dois moços, alvos, bonitos e desconhecidos. Dançaram muito. Ela dançou com um deles. Beberam, também. (esta observação é o principal da história). Antes porém de amanhecer, desapareceram eles, sem que pessoa alguma soubesse para onde tinham ido. A casa em que dançavam ficava distante do rio: mas no meio do caminho havia um poço com pouca água. Com o dia, viram que nesse poço estavam dois botos. Ora ali nunca se tinha visto boto. Os moradores e convidados foram buscar arpões; e arpoaram os botos, puxaram-nos para a terra e os mataram. Partiram as cabeças dos mesmos, donde exalou o cheiro da pura cachaça!"
(José de Carvalho, O matuto cearense e o caboci do Pará, apud Câmara Cascudo)

 

(Bastos, Wilson de Lima. "Mamíferos no folclore". A Tarde. Juiz de Fora, 4 de agosto de 1970)