Vaga-lume, lume, lume

Guilherme Santos Neves

O vocábulo vaga-lume é daqueles que dão panos para as mangas, tanta coisa sobre ele se poder alinhavar e dizer: origem do termo, seus correspondentes na linguagem erudita e popular, seu emprego na obra dos poetas e prosadores (aquela bela página de Graça Aranha em Canaã, a predileção de Monteiro Lobato para o vocábulo) etc. etc.

Nosso propósito aqui — como sempre — é o de focalizar, de raspão apenas, as palavras e frases feitas, procurando nela conteúdo folclórico ou lingüístico, desde que possa interessar aos meus leitores. É o que vamos fazer com o vaga-lume.

De início talvez convenha dizer que a palavra só começou a ser empregada de 1696 para cá. Sabe-se disso porque, naquele ano, antigos sócios da finada Academia dos Generosos (fundada em Portugal no ano de 1647) propuseram ao (mau) gosto dos poetas da época a questão da criação de um termo que desse novo nome ao pirilampo, fugindo ao vocábulo vulgar porque áspero demais. Eis como nos conta o fato mestre João Ribeiro (Frases feitas, 1908, 2ª série, p.231), que o foi colher nas Conferências do conde de Ericeira e nas Prosas do padre Blueteau: "Uma das mais curiosas alterações foi a que realizou o bom gosto (nesse caso, sem dúvida — bom gosto) dos poetas dos séculos XVII e XVIII, substituindo o caga-lume, que se não podia nobilitar, por vaga-lume. A questão foi tratada na memorável sessão acadêmica de 26 de fevereiro de 1696; propuseram então vários alvitres: a substituição pelo nome pirilampo pareceu afetada, adotaram-se noiteluz e bicholuzente como mais próprias designações e recusaram por impróprios, fuzilete e vaga-lume. Todo este trabalho resultou inútil, porque mais tarde vaga-lume (dantes vago lume, como havia sido imaginado) foi o vocábulo que o uso comum fez prevalecer".

Leite de Vasconcelos, polígrafo lusitano, nos dá alguns outros nomes do vaga-lume, colhidos na fala do povo e transcritos em sua erudita e opulenta Etnografia portuguesa (Lisboa, 1936, tomo 2, p.90). Não os transcrevo aqui, porque, em sua mor parte, são um tanto ou quanto escatológicos. Adverte adiante o eminente etnógrafo que pirilampo vem dum adjetivo grego que significa "brilhante como o lume", e acrescenta: "Os romanos diziam cicindela, cicindelum e cicendula, do tema de candeo "estar em brasa", portanto com idéia semelhante, a qual aparece noutras línguas modernas, além da nossa: espanhol: luciérnaga e luciernago (cf. lucerna); francês: ver luisant; italiano: luccíola; romeno: licuricio "pirilampo pequeno"; alemão: Leuchtwurm "verme da luz". (além de outros nomes); inglês: glow-worm "verme que brilha".

Há também uma lista de nomes de procedência vulgar, nos Retalhos de um vocabulário; Subsídios para o léxico português", de autoria de J. A. Pombinho Júnior (Revista Lusitana, v.37, Lisboa, 1939, p.223), para onde envio o leitor interessado, não sem antes advertir que só três nomes não são ali tão ásperos: luze-luze, luzica e pastorinha...

Foi justamente para evitar a expressão rude que os empoados poetas do gongorismo português criaram o noiteluz, fuzilete, o bicho luzente e o nosso vaga-lume.

Anotei uma passagem da ópera de Antônio José da Silva, Anfitrião, representada em janeiro de 1736 na cidade de Lisboa, na qual se vê nua e cruamente o reparo que se fazia ainda ao termo chulo (Edição de A Noite, Rio de Janeiro, p.20): "Cornucópia (referindo-se à jóia que Júpiter dera a Alemena): Aí, senhora, que galante sucriler! E como brilha! Parece um cagalume... Alemena: Não dirás pirilampo que é o mesmo; mas ainda assim aquele diamante verde é bem brilhante!"

Passemos agora ao setor folclórico, muito mais agradável, como se vai ver.

No primeiro volume de contos de João Guimarães Rosa — esse tão discutido e discutível Corpo de baile, cujo estilo tem cintilações mas tem também penumbras — deparei, à página 76, a seguinte cantilena, que o autor põe na boca infantil de Dito e Tomezinho:

"Vaga-lume, lume, lume,
Seu pai, sua mãe, estão aqui..."

A cantiguinha serve, como bem se percebe, para chamar os vaga-lumes. Vou aqui transcrever o trecho que esclarece o caso, mal gerado o feitio estilístico de Guimarães Rosa: "A noite, de si, recebia mais, formava escurão feito. Daí, dos demais, deu tudo vaga-lume. "Olha, quanto mija-fogo se desajuntando no ar, bruxolim deles parece festa!" Inçame Miguilim se deslumbrava. "Chica, vai chamar Mãe, ela ver quanta beleza..." Se trançavam, cada um como que se rachava, amadurecido quente, de olho de bago; e as linhas que riscavam, o comprido, naquele uauá verde, luzlino. Dito arranjava um vidro vazio para guardar deles vivendo. Dito e Tomezinho corriam no pátio, querendo pegar, chamava: — Vaga-lume, lume, lume, seu pai, sua mãe, estão aqui!... Mãe minha mãe. O vaga-lume. Mãe gostava, falava, afagando os cabelos de Miguilim: "O lumeio deles é um acenado de amor...""

Esse chamariz dos vaga-lumes tem sua variante em terras capixabas. Há tempos (junho de 1954), o professor Acel Soares — então meu inteligente e aplicado aluno de etnografia e folclore na Faculdade de Filosofia — transmitiu-me o velho processo de apanhar vaga-lumes, usado em Muniz Freire. À noite, no escuro quando há vaga-lumes pirilampejando no ar, acena-se com um pau ou vara ou tição, cuja ponta esteja em brasa, e se canta, muitas vezes:

Vem cá, vaga-lume
Vem cá, vaga-lume
Teu pai e tua mãe
Vem cá, vaga-lume
Vem cá, vaga-lume...

Os pirilampos, atraídos pelo riscar do fogo no ar, pousam na pessoa que os chama, e, assim, são apanhados facilmente, e colocados em vidros ou em caixinhas de fósforos.

É assim que os garotos do interior caçam vaga-lumes, usando o mesmo processo do Tomezinho e do Dito — personagens miúdas do grande e belo conto que é Campo geral, historinha triste do pequeno Miguilim.

 

(Neves, Guilherme Santos. "Vagalume, lume lume".A Gazeta. Vitória, 25 de agosto de 1957)