Futebol da bicharada

Sebastião Alfredo dos Santos (Miquimba)

Leitores eu vou narrar
Uma história gozada
Leiam com atenção
Peço que não percam nada
Verão quão interessante
É o futebol da bicharada

Pensam alguns que o esporte
É uma diversão recente
Mas esquecem que isto
Existia antigamente
Pois os bichos pré-históricos
Praticavam mais que a gente

Mas essa espécie de bicho
Não interessa a descrição
Vou descrever os animais
Do tempo de dom Leão
Que só praticavam esporte
A título de diversão

Preciso pois descrever
Como o esporte apareceu
Inclusive o futebol
Que é o que mais convenceu
Descoberto pelo mico
E muita fama lhe deu

Acontece que o leão
Vivia aborrecido
Doentio, magro e triste
Com o reino quase perdido
Quando apareceu o mico
Com o esporte mais querido

Veremos como o macaco
Inventou tal brincadeira
Estava ele cansado
De subir em bananeira
Queria mais movimento
Pra sua vida matreira

Estando certa manhã
Embaixo de um coqueiro
Desse caiu uma fruta
Perto do seu companheiro
Achou o momento propício
Pra ganhar algum dinheiro

O macaco então craneou
E fez uma exibição
Atirava o coco com o pé
O outro aparava com a mão
Passou assim várias horas
Em completa distração

Apareceram outros micos
E entraram na pelada
Quando havia certo tempo
Esta foi paralisada
Pra descansar uns minutos
Sem demorar quase nada

Voltaram então à contenda
Após descanso merecido
Já haviam 22 micos
Número hoje admitido
Terminando assim a luta
O esporte havia nascido

O inventor concluiu
Que era número legal
Onze para cada lado
Mais seria anormal
E haveria descanso
E recuperação total

Chegando à corte a notícia
Do esporte ora inventado
Dom leão mandou chamar
O seu subdelegado
Pra procurar o inventor
E levá-lo escoltado

Chegando ao palácio, o mico
Foi pelo rei recebido
Esse abraçando o macaco
Falou todo comovido
Filho: "Salvaste um reino
Que se achava perdido

Não serás um miserável
A pular em bananeira
Na corte terá lugar
Pra tua família inteira
E esse esporte sem nome
Figurará na bandeira

Meus amigos: Foi assim
Que apareceu este esporte
Batizado pelo inglês
Onde vence quem é forte
Creiam que o macaco
Inventou coisa de morte

Dom Leão decretou logo
Fosse o esporte praticado
Que todos os desportistas
Tinham apoio do reinado
E o que se machucasse
Era em maca... carregado

Vejam o nome do macaco
No esporte mais querido
Se um jogador em campo
Por acaso é contundido
Vai imediatamente
Logo em maca... conduzido

Ao ser pelo rei leão
O tal decreto assinado
Os bichos movimentaram
Cada qual para seu lado
Para dentro em pouco tempo
Terem time organizado

Elefante foi o primeiro
A criar seu esquadrão
Só de vegetarianos
Bichos de bom coração
A praticar um esporte
Que engrandecesse a nação

O lobo foi o segundo
A organizar seu plantel
Só de bichos carniceiros
Nada de fruta ou mel
O caso com ele é carne
Dentro ou fora do pastel

O juiz da federação
Um velho rinoceronte
Que todas as regras do jogo
Aprendeu em um instante
E conduzia a peleja
C'uma precisão marcante

O leão então marcou
Pra certo dia a partida
Aliás essa contenda
Já era bem discutida
A equipe dos herbívoros
Foi assim constituída

No arco do canguru
Sem dúvida um bom goleiro
Esconde a bola no saco
Não solta nem por dinheiro
Cavalo e o colega burro
Era a dupla de zagueiros

Médio-direito era a zebra
O touro era centro-médio
Que auxiliava a defesa
Se essa sofria assédio
Médio-esquerdo o jumento
Com esse não há remédio

O bode ponta-direita
Com aquela fedentina
Que ao passar pelo beque
Esse quase que morria
Meia-direita o carneiro
Jogando na valentia

Centro-avante o veado
Grande e valoroso craque
Era capitão da equipe
E comandante de ataque
Suas jogadas bonitas
Eram alvo de destaque

O camelo e o coelho
Eram a ala final
O primeiro em bola alta
Sempre foi o maioral
O segundo em rasteira
Não podia haver igual

Vem o time dos carnívoros
Bem uniformizados
Bichos magros e esguios
Todos de olhos vidrados
Parece que no scratch
Só havia esfomeados

O goleiro era o jaguar
Que pegava até o vento
E ficava na baliza
Sem sossegar um momento
Esse goleiro carnívoro
Cercava até pensamento

A onça e o leopardo
Era a dupla de zagueiros
Médio era o mão-pelada
O amigo dos terreiros
Estes quatro na defesa
Eram esteios verdadeiros

Lince era centro-médio
Vindo de outro país
Bicho que joga muito
E tem visão de raios X
Dando apoio ao ataque
Em sua tarde feliz

Médio-esquerdo era o tigre
Que dá o pulo certeiro
Mata muito bem a bola
E só dá passe rasteiro
O pantera na direita
Um milagroso ponteiro

Cachorro meia-direita
Raposa era o comandante
Gato na meia-canhota
É esse o trio atacante
Que não deixava a defesa
Sossegar um só instante

O lontra na ponta-esquerda
Sassaricava a valer
Dava bola de primeira
E tornava a receber
O bicho era de morte
E como sabe correr

Trouxeram os capitães
Para o centro do gramado
Pelos carnívoros o lince
Pelos outros o veado
Após a troca de flâmulas
O toss foi logo tirado

Coroa: ganhou o lince
Vai escolher a baliza
Coube a saída aos herbívoros
Estava na hora precisa
Aconteceu que o gato
Se esqueceu da camisa

O gato saiu de campo
Nervoso e apavorado
Para vestir a camisa
E retornar ao gramado
Por causa disso seu time
Foi nesse dia multado

Saiu o couro o veado
A bola é atrasada
Cabeceia bem o touro
Entra o gato na jogada
Entrega na frente ao lontra
Corta o burro de patada

O burro atira na frente
Procurando o carneiro
Vai na bola o leopardo
Jogando bem o zagueiro
Aplica a finta no bode
E serve a um companheiro

São assim cinco minutos
Dessa etapa inicial
Raposa recebe um passe
Chuta à frente muito mal
Entra o jumento no lance
É bola pra lateral

Lateral que é agora
Cobrado pelo pantera
Visto ser de sua equipe
Pertence o arremesso a fera
Raposa devolve a bola
E o companheiro espera

Serve então ao cachorro
Que estava impedido
Assinala o bandeirinha
Que era um urso sabido
O gato reclama ao juiz
E é por este advertido

Posta a bola na marca
A cobrar o impedimento
O veado responsável
Convoca logo o jumento
O cobrador oficial
É este grande elemento

Cabeceia bem camelo
Procura o coelho ao lado
Esse amortece na coxa
Serve no fogo ao veado
Que atrasa para o zebra
Atirar descalibrado

Zero a zero no placar
Quarenta dessa etapa
Recebe muito bem lontra
E pelo costado escapa
Aparece então cavalo
Dá no atacante um rapa

O juiz pune portanto
Essa jogada ilegal
Quarenta e dois minutos
Da etapa inicial
A bola é colocada
Sobre a marca fatal

Vai ser cobrado o pênalti
Pelo lince, o possante
Que atira uma bomba
Com efeito interessante
Salta então o canguru
Na defesa eletrizante

Com essa grande defesa
Colhe aplausos da torcida
Foi esta a maior jogada
Feita em toda sua vida
O juiz assim termina
A metade da partida

E logo após o descanso
De dez minutos somente
Volta os times ao gramado
Veado sai novamente
O carneiro cabeceia
Corta o jaguar inteligente

Entrega de próprias mãos
Ao lince que é um esteio
Aplica a finta no zebra
Serve ao raposa no meio
Que atira. Sai canguru
E concede escanteio

Tiro de canto cobrado
Pelo pantera. O ponteiro
Vai a cabeça do gato
Mata no peito ligeiro
Serve ao raposa, que atira
Tijolo quente a rasteiro

Isso era gol na certa
O canguru estava batido
Entra o cavalo e salva
Com o goleiro já vencido
Sai com o couro nos pés
E é bastante aplaudido

O cavalo chama o raposa
Finta-o classicamente
Finta o tigre na passagem
Dá ao carneiro na frente
Este serve ao camelo
Que atira erradamente

Apenas quinze minutos
Da etapa derradeira
Jumento recebe o couro
Dá ao coelho na fogueira
Este fulmina o jaguar
Com uma bomba rasteira

Um a zero no placar
Estava aberta a contagem
Após o ponteiro coelho
Fazer bonita escrimagem
Foi assim que os herbívoros
Construíram a vantagem

Vai ser dada a saída
Pelo time carniceiro
Raposa atrasa a pelota
Ao lince seu companheiro
Este entrega ao pantera
Que atira forte certeiro

O canguru cai no canto
"Gol", gritou a torcida
O goleiro se levanta
Todo contente da vida
Mete a mão na caçapa
Onde a bola estava escondida

Quicou uma, duas vezes
A pelota no gramado
E com as próprias mãos
Entrega o couro ao veado
Que atrasa ao carneiro
Pela meia recuado

Vai avançando o carneiro
Na posição de armador
Vai progredindo na cancha
Bate mais um contendor
Serve ao bode pelo centro
Que vence um com o fedor

Este após haver batido
Com seu mau cheiro, o rival
Lança um passe ao camelo
Que atira muito mal
A bola pega no coelho
E vai para a lateral

Lateral ora cobrado
Por tigre, médio-direito
Dá um passe ao mão-pelada
Esse amortece no peito
E serve bem ao cachorro
Que atira com defeito

Tiro de gol que pertence
À grei vegetariana
O técnico dos carnívoros
Tem uma ira tirana
O elefante está calmo
Pois seu time não se engana

Quarenta e três minutos
Da fase complementar
1 a 0, por enquanto
A palavra do placar
Coelho recebe a bola
Consegue ao tigre enganar

Driblou também o leopardo
E pela meia progredia
O onça agarrou-lhe o rabo
Que até então possuía
Não conseguiu escapar
Por mais força que fazia

O coelho fez tanta força
Ficou todo arrepiado
O seu esforço valeu
Breve estava libertado
Mas o seu lindo rabinho
Com o onça havia ficado

"Pênalti", deu o árbitro
O onça é advertido
Respondeu mal ao juiz
Que era bicho destemido
E assim o malcriado
Foi pra fora conduzido

O gato muito manhoso
Fez sua reclamação
O cachorro não gostou
Chamou o colega atenção
É por isso que hoje em dia
O gato não se dá com cão

Para cobrar o tal pênalti
Foi o burro convocado
Deu um ponta-pé na bola
Tiro alto e enviesado
O jaguar caiu num canto
O couro entrou noutro lado

Os dois minutos finais
Nada restou da partida
A equipe vegetariana
Quase é toda comida
Enquanto dava patada
A outra dava mordida

Assim foi o futebol
Logo que foi inventado
Partida interessante
Merecido o resultado
Tenho pena do coelhinho
Que teve o rabo cortado

Logo após a partida
Na hora do cumprimento
O burro deu uma lição
No tal lobo nojento
Que ainda levou por cima
Um ponta-pé do jumento

Futebol de animais
Fubá de milho no pão
Herança de filho pobre
Candidato em eleição
É como coco de negro
Só acaba em confusão

 

(Santos, Sebastião Alfredo dos. "Futebol da bicharada". 2ª ed. Rio de Janeiro, Sanda, 1970)