As aranhas
Há pessoas que sentem pelas aranhas invencível repugnância, sobretudo as mulheres que têm por elas uma instintiva antipatia.
No entanto, é caso para perguntar-se: não serão melhores do que aquilo que diz a fama! Porque a verdade é que a utilidade desses aracnídeos continua sendo indiscutível. Há muitas donas de casa que toleram as suas teias sobretudo nos estábulos e nas janelas durante o verão, em que geralmente as moscas abundam. E toleram-nas porque sabem que muitos insetos daninhos ficam presos nelas. Quase toda a gente admira a arte com que a aranha tece as suas maravilhosas teias, fazendo recordar que desde a mais remota antigüidade as circunstâncias misteriosas da vida deste animal alimentaram a fantasia, as crenças populares e as lendas tecidas à sua volta.
Os romanos gostavam de usar aranhas de ouro, de prata ou gravadas em pedras preciosas, como amuletos de boa sorte. Para o muçulmano a aranha é ainda hoje um animal sagrado digno de veneração, porque segundo uma antiga lenda, foi uma aranha que salvou o profeta, quando este fugia dos seus perseguidores. Assim que ele se escondeu numa cova, a aranha teceu a entrada desta tão espessa teia que aqueles passaram perto do esconderijo, sem darem com ele.
Os alemães acreditavam que a casa em que houvesse uma aranha "cruzeira" não podia ser atingida pelo raio, porque o "martelo" ou signo de Donar — velho deus germânico — que traz nas costas, desviava a trajetória do raio. Todas as aranhas, animais consagrados à deusa Freya, significavam sempre qualquer coisa de bom e atraíam a si todas as doenças e febres.
Durante a Idade Média tentou-se em vão dar a este oráculo, procedente do paganismo, diferente significado assegurando que o diabo tomava amiudadas vezes a forma de aranha ou ainda que uma aranha "cruzeiro" é de mau presságio numa casa e portanto, quem não quisesse ter sempre a desgraça a pisar-lhe os calcanhares, devia matar todas as aranhas que visse, sobretudo de manhã. Mas tudo isto foi inútil. O povo continuou aferrado teimosamente à crença de que as aranhas dão sorte. Os nigromantes juravam que se as deixassem secar, elas transformavam-se, às vezes, em diamantes. Talvez por isto, em alguns países corre ainda na boca do povo esta sentença: "Aranhas na coroa nupcial predizem bom matrimônio. No campo, deixam-nas tranqüilas nos estábulos, e as donas de casas cuidadosas, ainda que destruam as suas teias deixam-nas vivas, porque o matar a aranhas traz consigo desgraça. Até o homem mais livre de preconceitos acima de todas as superstições sempre que vê uma aranha, lembra-se involuntariamente deste dito popular francês: "Araignée le matin, chagrin. Araigne le soir, bon espoir".
Em alguns pontos do nosso país, existe a crença inexplicável de que casa com teias de aranha é casa afortunada.
As aranhas-barômetros
Muita gente sabe que as aranhas, com os seus movimentos e atitudes, demonstram as mudanças do tempo, sem contudo se inteirarem dos indícios. Hoje, porem, já se conhece perfeitamente a sensibilidade das aranhas perante as variações atmosféricas.
Há anos, um sábio húngaro, meteorologista da Universidade de Budapeste, fez uma curiosa comunicação das suas observações de cinco anos.
Se há perspectiva de tempo agreste ou com muito vento, a aranha encurta os fortes fios que formam o marco ou limite da sua teia, tornando esta, portanto mais pequena. Ante a proximidade de chuva e tempestade chega mesmo a abandonar por completo o seu posto de observação, retirando-se para o seu esconderijo, sem contar com que os pequenos insetos caiam na... rede, visto que estes também se recolhem do mau tempo. Em troca, quando se aproximam os dias de calor e de sol, a teia é novamente estendida e, se a aranha a reforça outra vez antes do anoitecer, podemos esperar com segurança uma noite clara não muito fria. Segundo aquele meteorologista, as teias de malha estreita, abertas para o sul, significam bom tempo, e mau quando estão abertas para o norte. Também quando uma aranha "muda a a pele", quer dizer que durante bastante dias fará bom tempo.
São estes os resultados da mais moderna investigação científica, que não fazem mais do que confirmar o que a sabedoria dos povos tantas vezes criticada, nos tem transmitido durante séculos, que sempre que a aranha tece quando chove, em breve deixará de cair água, e que se tece com afã ao ar livre é porque se aproxima o bom tempo.
Um episódio histórico
O próprio curso da história do mundo foi influído no fim do século dezoito por um desses animais barômetros. Foi no inverno de 1794, quando o exército francês da Revolução, sob o comando de Pichegru, arriscou a vitoriosa surpresa nos Países Baixos. Os holandeses tinham tentado em vão deter o inimigo, esburacando os diques: um frio intenso e persistente havia gelado a água, convertendo as regiões inundadas em magnífica pista gelada, lisa e cômoda. De súbito começou o degelo e o exército invasor não pôde avançar; homens e animais afundaram-se no barro e no lodo. Pichegru preparava-se para negociar com Guilherme V as condições de capitulação, quando recebeu uma singular comunicação de um rebelde holandês, procedente do presídio de Utrecht. Esse rebelde era o general Quatremere d'Isjonval, que, por ter participado num levantamento contra Guilherme V, havia sido preso sete anos antes. Quatremere assegurava que dentro de poucos dias apareceriam novamente fortes gelos, como lhe demonstrava a conduta das "suas aranhas barômetros" cuja vida ele estudara na sua prisão. Pichegru jogou a cartada; e dando crédito à notável predição, conteve o adversário ainda durante alguns dias. E poucas semanas depois encontrava-se efetivamente diante de Utrecht com todos os seus regimentos, carros de forragens e munições e canhões pesados; tinha podido fazer passar tudo isso de uma forma rápida e segura pelas planícies cobertas novamente de uma forte camada de gelo. A cidade foi tomada de assalto, Guilherme V teve de fugir e o general Quatremere foi libertado.
Na lenda e na ciência
Segundo a mitologia grega, a bela Aracne, filha de um tintureiro de Lídia, chegou à suprema perfeição na arte de tecer, vencendo Palas Atenas, filha de Zeus, que era dotada de grande talento para aquela arte. Enraivecida pela derrota, a deusa destruiu as obras-primas da sua rival. Desesperada, Aracne tentou enforcar-se com o cinto do seu vestido, mas a vingativa Atenéa não lhe permitiu o descanso da morte, e, valendo-se de bebidas envenenadas, converteu-a numa repugnante aranha, obrigando-a a tecer, dia e noite. Mas, não pôde privá-la da sua habilidade e por isso, até hoje, as teias mais caprichosas são as tecidas pelas aranhas.
Os romanos acharam um motivo mais amável para a origem do tecer da aranha, tão maravilhosamente simétrica; um poeta fez que a aranha sorvesse um néctar vertido por Minerva, dando-lhe assim um dom que só o homem havia recebido — a faculdade de construir artisticamente.
"Fios da Virgem" chamam certos povos do norte aos fios prateados que nos formosos dias de agosto e setembro adornam as árvores e os arbustos ou cobrem em grossas teias as clareiras dos bosques. Na Idade Média, dizia-se às crianças que a fiandeira da lua deixava cair para a terra esses fios. Se em alguns anos eram muitos freqüentes, profetizavam fome e miséria no inverno. Nos fins do século XVII, os naturalistas não eram de opinião unânime acerca do enigmático fenômeno — se era um produto da atmosfera, de uma exsudação resinosa das árvores ou — como o povo queria — de fios de aranhas que vogavam em almodias acreas, no meio das nuvens.
Numa crônica quase esquecida do século XVII, conta-se que os campos da região de Merseburgo tinham grandes espaços cobertos de teias de aranhas, das quais as mulheres faziam ligas e artigos semelhantes. Seda de fio de aranha? Nesse tempo, talvez. Mas hoje já não. A seda "de aranha" atualmente serve não apenas para extravagante artigo de luxo, para a fabricação de luvas e até de vestidos, raridades que em princípio do século ocasionaram grande admiração nas exposições mundiais de Paris. Esses fios tão tenuíssimos, dos quais são precisos dezoito mil para formar a grossura da vulgar linha de coser, empregam-se hoje sobretudo na fabricação de retículos em aparelhos óticos muito sensíveis, que graças a eles podem ajustar-se a frações de milímetros. Para que exista sempre suficiente provisão de "matéria-prima", sustentam-se e mantêm-se certas aranhas tropicais da espécie nephila. Esses aracnídeos são colocados de vez em quando sobre bobinas. Cheios de medo, esforçam-se por escapar de tão incomodativo lugar e ao tentá-lo soltam instintivamente fios. Um mecanismo especial comunica, então, um movimento rotativo à bobina que assim vai enrolando o fio ao mesmo tempo que impede a fuga do animal.
Peritos matemáticos calcularam que a aranha pode produzir em média um metro de fio por minuto; e os naturalistas acrescentam que a consistência do fio varia conforme a espécie do aracnídeo. A aranha-cruzeira, por exemplo, com os seus diferentes segregadores de fio, produz nada menos do que cinco classes de fio, cada um dos quais se distingue entre os outros pelas suas variáveis qualidades de resistência e a composição química, sendo cada um deles utilizado para um fim especial: para apresar fios viscosos; para construir a teia, secos; para envolver os insetos apresados, outra classe especial, e outra para a fabricação e cobertura dos casulos.
Há quem afirme que a divina arte exerce também poderosa influência sobre as aranhas. Mas isso é outra música para os entendidos.

