Galinha que canta como galo
Veríssimo de Melo
Galinha que canta como galo é um mau agouro, — diz uma superstição norte-riograndense. Quem ouve tal canto sabe logo que vai haver desgraça. A anomalia é prenúncio infalível de "coisa-ruim", como diz o povo.
Domingos de Loreto Couto [1] parece-me que foi o primeiro a consignar a crendice no país. Entre as "principais superstições setecentistas no Brasil", incluiu ele o "cantar da galinha", sem fazer alusão à imitação do canto do galo, mas como prognóstico certo de alguma desgraça. Cornélio Pires, citado por Leonardo Mota [2], anotou alusão idêntica no interior de São Paulo: "Quando a galinha canta que nem galo, é preciso cortar-lhe um dedo, senão também o dono da casa vai pra terra de pés juntos".
Guilherme Studart [3] e Gustavo Barroso [4] registraram a superstição no Ceará, sendo que o primeiro acrescentou: "Para preveni-lo (do mau agouro), mata-se logo a galinha".
Gonçalves Fernandes [5], em Pernambuco, incluiu-a também na sua série de "Faz mal" e José A. Teixeira [6] encontrou-a em Goiás, adiantando que para evitar o mal se deve matá-la ou "cortar a ponta do pé direito".
A propósito da repugnância natural do povo pelos anormais, escreve Joaquim Pires de Lima [7]: "No Minho, quando em alguma casa aparece uma galinha que canta de galo, uma perua que se arma como um peru, ou qualquer outra anomalia assim, é mau agouro, e morrerá dentro de pouco ali uma alguma pessoa. Para que tal não suceda, é preciso matar o monstro rapidamente". À página 38 do mesmo livro, isto é, Tradições populares do Entre-Douro-e-Minho, adianta, citando informação de Tomás Pires: "No Alentejo também matam as galinhas que cantam de galo, para que não morra o dono da casa". Segundo outra versão, divulgada por Consiglieri Pedroso, essas aves "deverão vender-se e com o produto devem comprar uns sapatos".
Jaime Lopes Dias [8] recolheu a mesma crendice noutras regiões portuguesas: "Quando as galinhas cantam de galo é sinal de haver mouro na costa com respeito à rapariga solteira, ou morte na povoação".
Luís da Silva Ribeiro [9] observou semelhantemente na ilha Terceira, nos Açores, anotando: "Galinha que canta de galo, torce-lhe o gargalo". Na ilha de São Miguel, ainda de acordo com o etnógrafo açoreano, dizem o mesmo e a crendice foi ainda registada em Portugal por M. Cardoso Martha e Augusto Pinto em Figueira da Foz; em Santo Tirso, por A. C. Pires de Lima; em Turquei, por José Diogo Ribeiro; e finalmente, em Barroso, por Fernando Braga Barreiros.
Conhecida ainda na Argentina, perguntava a propósito, Juan A. Ambrosetti [10]: "Quiém creerá que las encargadas del odioso papel de anunciar las malas nuevas fuerao las aves más serviciales que el hombre cria: las gallinas?" E adianta: "... cuando la gallina canta como gallo... se pregunta vislumbrando una desgracia: Que sucederá?"
A superstição é corrente na voz do povo em Espanha, Inglaterra e França [11]. Em Lesbos, refere G. Georgearkis [12]: "o agouro depende da direção para a qual a galinha está voltada quando canta como galo. Se está voltada para o oriente — é presságio de felicidade para a casa; se está voltada para o ocidente, de desgraça; neste caso, a matam, e o chefe da família é quem deve comê-la porque seria a ele que se destinaria a desgraça".
Verifica-se de tudo isto que a crendice da galinha que canta como galo é comum à Europa e América. Sua explicação mais lógica está certamente na repugnância instintiva que tem povo pelos bichos anormais.
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Notas
1. Antologia do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, p.50
2. Violeiros do Norte, p.224
3. Antologia do folclore brasileiro, p.301, nº 49
4. Ao som da viola
5. Folclore mágico do Nordeste, nº 45
6. Folclore goiano, p.424
7. Tradições populares de Entre-Douro-e-Minho, p.8
8. Etnografia da Beira, v.1, p.185, v.7, p.255
9. Superstições comuns ao Brasil e aos Açores, p.5
10. Supersticiones y leyendas, p.139
11. Citado por José A. Teixeira, op. cit., p.425
12. Citado por José A. Teixeira, op. cit., p.425
[1949]

